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Antes de ser minha irmã, Você já era meu lar.

AllyneMaia
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ANTES DE SER MINHA IRMÃ, VOCÊ JÁ ERA MEU LAR

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Ovid

A Fabi contando a piada, ninguém rindo e ela rindo mais ainda foi a cena que mais me fez sorrir aqui. Aposto que, se ela ler esta carta, a primeira reação vai ser uma piada sem graça pra disfarçar a emoção. Obrigado por dividir com a gente uma carta tão d

A Fabi contando a piada, ninguém rindo e ela rindo mais ainda foi a cena que mais me fez sorrir aqui. Aposto que, se ela ler esta carta, a primeira reação vai ser uma piada sem graça pra disfarçar a emoção. Obrigado por dividir com a gente uma carta tão de vocês duas :)

Conteúdo da publicação

ANTES DE SER MINHA IRMÃ, VOCÊ JÁ ERA MEU LAR

Para Fabiana,

Você nem imagina o quanto é importante na minha vida.

Hoje eu tenho 32 anos e você tem 26. Somos duas mulheres adultas, cada uma com seus sonhos, suas responsabilidades, seus defeitos — e, graças a Deus, com bastante paciência uma com a outra.

Mas existe uma lembrança que mora em mim há muitos anos.

Eu tinha apenas quatro, talvez cinco anos.

Minha mãe estava grávida de você e estava sentada no sofá. Eu me lembro de me aproximar, colocar o ouvido na barriga dela e tentar ouvir o seu coração.

Eu era apenas uma criança.

Não fazia ideia de quem você seria.

Não sabia que aquela barriga guardava uma das pessoas que um dia se tornaria meu porto seguro.

Não sabia que aquela criança que eu tentava ouvir através da barriga da nossa mãe seria, anos depois, a mesma pessoa em cujo colo eu encontraria conforto.

Eu não sabia que, um dia, quando você me abraçasse, eu sentiria que estava exatamente no lugar onde deveria estar.

E talvez seja isso que mais me emociona.

Antes mesmo de conhecer o seu rosto, eu já estava tentando ouvir você.

E, de alguma forma, a vida passou e eu continuei fazendo isso.

Só que agora não preciso mais encostar o ouvido na barriga da nossa mãe.

Eu ouço você nas suas risadas.

Nas suas piadas — inclusive aquelas que você insiste em contar mesmo quando ninguém acha graça.

Nas suas reclamações.

Nos seus conselhos que eu nem pedi.

Nas broncas que, às vezes, eu finjo que não quero ouvir, mas sei que preciso.

E principalmente naquele abraço que parece dizer:

"Está tudo bem. Você não precisa ser forte o tempo inteiro."

Porque, às vezes, eu tento ser forte na sua frente.

Talvez até mais do que deveria.

Fico tentando carregar tudo, como se precisasse suportar o mundo inteiro para que você pudesse olhar para mim e sentir orgulho.

Mas existe uma coisa engraçada na nossa história:

Eu sou a irmã mais velha.

Teoricamente, eu deveria ser a responsável por cuidar de você.

Deveria ser eu quem teria todas as respostas.

Deveria ser eu quem te protegeria, quem daria os conselhos, quem saberia o que fazer.

Só esqueceram de avisar que, em algum momento, você cresceria.

E, quando eu percebi, aquela irmãzinha que um dia eu tentava ouvir dentro da barriga da nossa mãe estava ali, do meu lado, me ensinando coisas que eu ainda não tinha aprendido.

E isso acontece até hoje.

Às vezes eu começo uma conversa querendo te aconselhar e termino pensando:

"Meu Deus... eu que precisava conversar com ela."

Você tem esse dom.

Esse jeito de chegar, falar alguma coisa simples e, de repente, colocar as coisas no lugar.

Talvez porque você seja diferente de mim.

E como somos diferentes!

Eu gosto de silêncio.

Você gosta de fazer barulho.

Eu gosto de sossego.

Você parece ter nascido com uma bateria que nunca acaba.

Eu penso dez vezes antes de fazer alguma coisa.

Você pensa:

"Ah, vamos ver no que dá."

Eu gosto de ficar quieta.

Você gosta de brincar.

Eu sou mais séria.

Você é a responsável oficial pelas piadas sem graça da família.

E o mais impressionante é que você conta a piada, ninguém ri...

E você ri mais ainda.

Às vezes eu penso que sua maior qualidade é conseguir se divertir até quando ninguém mais entendeu a graça.

Talvez por isso você tenha trazido tanta leveza para a minha vida.

Na nossa infância, talvez não tenhamos brincado tanto quanto outras irmãs brincavam.

Éramos diferentes demais.

Mas a vida encontrou um jeito de aproximar a gente.

E acho que foi quando você começou a crescer.

Quando deixou de ser apenas a minha irmãzinha e começou a caminhar realmente ao meu lado.

Foi quando você começou a ir comigo para a casa das minhas amigas.

Inclusive daquela amiga que você nem gostava no começo.

E olha só onde fomos parar.

 Vocês tinham ficado tão próximas que, às vezes, eu tinha a impressão ops impressão não vocês realmente se juntavam exclusivamente para falar de mim.

Era sobre o relacionamento que não deu certo.

Sobre o cara que eu gostava.

Sobre alguma decisão duvidosa que eu tinha tomado.

Vocês duas rindo de mim.

Vocês duas me dando sermão.

Vocês duas fazendo aquela cara de:

"Aline, como você conseguiu fazer isso?"

E eu ali, tentando defender minha dignidade.

Sem sucesso.

Mas talvez sejam essas pequenas coisas que fizeram nossa relação ser tão bonita.

Porque nós não somos apenas irmãs.

Nós nos tornamos parceiras.

E isso é uma das coisas que mais agradeço na vida.

As pessoas que nos conhecem sempre dizem que têm inveja da nossa relação.

Dizem que quase nunca nos veem brigando.

Que estamos sempre juntas.

E eu acho bonito ouvir isso.

Mas sei que não aconteceu por acaso.

Foi construído dentro de casa.

Foi aprendido com a nossa mãe.

Lembro de quando éramos pequenas e íamos ao mercado ou a alguma loja com ela.

Se uma de nós não fosse, nossa mãe sempre ensinava:

"Pega alguma coisa que a outra gosta e leva para ela."

E talvez essa tenha sido uma das maiores lições que recebemos.

Amor também é lembrar.

É olhar para alguma coisa e pensar:

"Ela vai gostar disso."

E até hoje somos assim.

Você vê alguma coisa e lembra de mim.

Eu vejo alguma coisa e lembro de você.

Às vezes nem precisamos perguntar.

A gente simplesmente sabe.

E talvez seja por isso que me doa tanto quando alguém fala mal de você.

Porque quem olha de fora vê apenas uma parte.

Eu vejo tudo.

Eu sei o quanto você luta.

Sei o quanto você se esforça para conquistar o que quer.

Sei quantas vezes você continua mesmo quando está cansada.

Sei quantas vezes você permanece firme quando talvez tivesse todos os motivos para parar.

E, principalmente, sei quantas vezes você cuida dos outros mesmo quando também precisava ser cuidada.

Às vezes eu preciso falar mas não consigo

"Fabi, não faz isso."

"Fabi, você precisa descansar."

"Fabi, deixa alguém cuidar de você também."

Porque você tem essa mania bonita e perigosa de querer resolver tudo.

E talvez você ainda não tenha percebido, mas não precisa provar sua força o tempo inteiro.

Você já é forte.

Só que até os fortes precisam de colo.

E, depois que nossa mãe partiu, acho que você se tornou ainda mais presente.

É engraçado pensar nisso.

Eu sou a irmã mais velha.

Eu deveria ser aquela que te consola.

Aquela que te abraça.

Aquela que diz que vai ficar tudo bem.

Mas muitas vezes foi você quem fez isso por mim.

Você quem me incentivou.

Você quem me aconselhou.

Você quem me lembrou que eu ainda podia continuar.

Você quem me mostrou, através das suas próprias escolhas, que não existe problema em tentar.

Em arriscar.

Em cair.

Em quebrar a cara.

Em levantar.

E tentar novamente.

Talvez você nem saiba, mas eu admiro isso em você.

Admiro a sua coragem.

Admiro sua alegria.

Admiro sua capacidade de continuar sendo você mesma.

E admiro principalmente a maneira como, mesmo carregando suas próprias batalhas, você ainda encontra espaço para cuidar de mim.

Por isso, se algum dia você se perguntar se é importante para alguém...

Lembre-se de mim.

Porque você não é apenas minha irmã.

Você é uma parte da minha história que começou antes mesmo de eu saber quem você seria.

Você é aquela criança cujo coração eu tentei ouvir através da barriga da nossa mãe.

É a menina que cresceu ao meu lado.

A adolescente que começou a caminhar comigo.

A mulher que hoje me aconselha.

A amiga que eu posso chamar quando preciso de um abraço.

A pessoa que consegue me fazer rir quando eu queria chorar.

E, às vezes, a pessoa que me faz querer esconder o rosto de tanta vergonha quando resolve contar para alguém alguma história minha que deveria permanecer em segredo.

Mas tudo bem.

Irmã também serve para isso.

Para amar.

Para cuidar.

Para dar bronca.

Para rir.

Para guardar segredos...

E, eventualmente, para usar esses segredos contra você em momentos estratégicos.

Porque ninguém disse que ser irmã precisava ser fácil.

Mas eu acho que a vida nos deu algo muito maior do que duas irmãs.

Ela nos deu uma à outra.

E, depois de tudo o que vivemos, eu entendi que família não é apenas quem divide o mesmo sangue.

Família também é quem conhece nossas versões mais bonitas e mais bagunçadas e, mesmo assim, escolhe ficar.

Fabi, se um dia eu não conseguir dizer tudo isso pessoalmente, quero que você encontre estas palavras e saiba:

Eu tenho muito orgulho de você.

Muito.

E, se às vezes eu pareço querer proteger você, é porque ainda existe dentro de mim aquela menina de quatro anos tentando ouvir seu coração.

Só que hoje eu sei o que aquele coração significava.

Era o coração da minha irmã.

Da minha parceira.

Da minha amiga.

Do meu porto seguro.

E talvez essa seja uma das maiores bênçãos que duas irmãs podem receber:

crescer lado a lado até o dia em que percebem que deixaram de ser apenas irmãs e se tornaram amigas — porque quando irmãos aprendem a caminhar como parceiros, a vida pode até mudar de caminho, mas eles nunca precisam caminhar sozinhos.

Thoughts

  • guardo_uma_frase

    Amor como ver alguma coisa na loja e lembrar da outra. Vou carregar essa a semana toda.

    Permalink
  • Ovid

    A Fabi contando a piada, ninguém rindo e ela rindo mais ainda foi a cena que mais me fez sorrir aqui. Aposto que, se ela ler esta carta, a primeira reação vai ser uma piada sem graça pra disfarçar a emoção. Obrigado por dividir com a gente uma carta tão de vocês duas :)

    Permalink
  • folhaSolta

    Tu com quatro anos, o ouvido na barriga da mãe tentando escutar o coração dela. Lá em casa tem foto igualzinha de mim com meu irmão, e ninguém lembra quem tirou.

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