Até onde o versículo bíblico sobre honrar pai e mãe pode se estender?
Como continuar honrando duas pessoas que não se importam quando você chega do hospital após sua primeira tentativa de suicídio, mesmo você tendo apenas onze anos.
Era isso que a garotinha pensava, enquanto tentava ficar viva. Por muitos anos ela tentou de tudo para ser aceita pela sua “família”, mas até que ponto o TUDO seria bom para ela?
Sua cabeça funcionava como troca…
“Seu eu fizer isso, eles vão gostar”
“Se eu fizer desse jeito, eles vão me elogiar”
Mas no final, nada disso funcionava, e a garotinha se punia, cada vez mais, ela não entendia qual era o problema, o que ela estava fazendo de tão errado? As notas eram boas, ela fazia tudo em casa, cuidava dos irmãos, ia à igreja, mas parecia que nada disso importava, sempre tinha alguma coisa que fazia com que ela fosse excluída no final do dia.
Os abusos começaram devagar, não se tira a infância de uma criança de uma só vez, precisa-se de tempo para que a criança perceba que não tem um porto seguro onde possa se apoiar. Tudo começou com um “Acho que você está um pouco gordinha né?” A garotinha não entendia este tipo de comentário, até então, seu peso nunca foi algo negativo em sua antiga casa, logo após vieram as agressões, e eram da sua madrasta. Quando acontecia, a garotinha corria para os braços de seu pai, ela buscava uma ajuda, uma proteção, e isso nunca aconteceu. Tudo o que ela recebia, era que sua madrasta tinha uma razão para isso, e que a madrasta estava certa. Aconteceram muitas vezes, e as agressões foram se intensificando, mas a justificativa dada pelo pai é de que isso era um ato amor.
Quando o amor é demonstrado na infância como violento, para onde a garotinha aprende buscar amor na vida adulta? O pai não deveria ser o primeiro amor de uma filha?
Ela cresceu sem saber o que é de verdade o amor. A garotinha acreditava que o amor tinha que ser violento, ela achava que para alguém amá-la, ela teria que aceitar de tudo, sofrer de tudo, do mesmo modo que sua infância e adolescência funcionaram. Ela não recebia amor, sua relação com os irmãos que ela amava, foram deturpados pela presença da madrasta. A garotinha sentia que a madrasta queria afastá-la de todas as pessoas que a amavam, e era isso que acontecia. Ela não se sentia digna do amor, acreditava que se o pai não a amou, como outro homem a amaria?
A garotinha não tinha para onde correr, ou melhor dizendo, ela não sabia a quem recorrer, a consequência disso foi que a garotinha se fechou para o mundo, se fechou para a possibilidade de fazer amigos, se fechou para o primeiro amor na adolescência, e em sua vida adulta, se fechou para qualquer evento que a fizesse sair da zona de conforto. Ela não queria ser vista, não queria que as pessoas a enxergassem de verdade, ela tinha medo do que falariam, tinha medo de verem as cicatrizes em seu corpo, medo de verem que na verdade ela ainda era somente a garotinha de seis anos, que esperava o amor entrar pela porta da escola, mas que nunca chegou.
Parte dois da garotinha resiliente.....