Cresci até os quatro anos em uma família grande e cheia de vida: meus avós, dois tios, uma tia e minha mãe. Depois que minha mãe constituiu uma nova família, permaneci sendo criada pelos meus avós e tios. Minha infância foi marcada por domingos inesquecíveis, com mesas fartas, conversas altas, risadas e interações exageradas, como uma verdadeira família Buscapé. São João, Natal e todas as datas comemorativas eram motivos para reunir todos ao redor da mesa.
Mais tarde, casei e, como relatei anteriormente, foi nesse período que começou minha dependência química. Apesar das dificuldades do meu casamento, cada integrante da minha família tentou me ajudar da maneira que podia. Porém, as drogas têm um poder devastador: uma das primeiras coisas que elas roubam é a convivência. Aos poucos, deixei de participar das reuniões, dos almoços e dos momentos que antes davam sentido à minha vida.
A primeira pessoa a se afastar profundamente foi minha irmã. Segundo ela, as cenas de tentativas de suicídio e automutilação foram dolorosas demais para suportar. Houve uma reaproximação, mas ela também foi interrompida pelo impacto da dependência. Meu tio mais novo, que antes era meu melhor amigo, hoje me trata com arrogância e impaciência quando me vê tentando resolver problemas que ainda restaram desse período.
Minha avó sofre muito, porque nas datas comemorativas minha presença gera conflitos. Se eu participo, minha mãe e minha irmã não vão. Por isso, muitas vezes sou eu quem decide me ausentar. Minha tia, que tanto me apoiou na criação dos meus gêmeos, já não acredita em minha mudança, e compreendo que também a decepcionei.
Meu avô talvez tenha sido quem mais sofreu. Ele sempre teve orgulho da união da família e continua sendo a pessoa que mais busca alternativas para meu tratamento. Hoje moro na casa onde cresci, mas o sentimento de lar já não é o mesmo. Minha mãe, algumas vezes, vai fazer grandes faxinas na casa do meu avô e, nesses dias, preciso sair, porque, segundo ela, a minha presença lhe causa desgosto.
Houve um episódio que marcou profundamente minha vida. Eu estava passando por um grande problema e fui procurar meu avô, quando ainda não morava com ele. Não sabia que minha mãe estava na casa. Fiquei no quintal conversando com meu avô e, naquele instante, percebi que talvez eu já não tivesse mais a minha mãe como antes. Ela veio até mim e me deu poucos minutos para ir embora. Em meio à raiva e ao sofrimento, gritou, insultou-me e descarregou toda a dor que sentia por me ver ali. Saí daquela casa chorando de uma forma que mal conseguia respirar. Não foi apenas pelo comportamento dela, mas porque ouvi meu avô dizer uma frase que nunca esqueci: “Minha neta, você destruiu a família”.
Às vezes, essa lembrança me revolta; outras vezes, apenas me entristece. Há feridas que talvez nunca desapareçam completamente. Outro momento doloroso foi quando minha irmã contou aos nossos avós que estava grávida. Fiquei feliz e fui abraçá-la, mas foi um abraço entre estranhas. E isso também doeu.
Durante muito tempo, amigos das festas e do uso de drogas pareceram ser minha família. Porém, muitos deles me colocaram em situações de perigo, e precisei me afastar.
Hoje vivo na casa onde cresci, cercada pelas lembranças da infância, mas, quando acontecem reuniões familiares, sou convidada a me retirar. Nada me causa mais dor do que estar dentro de uma família e, ao mesmo tempo, sentir que não pertenço mais a ela, como consequência das escolhas erradas que fiz.
Ainda assim, aprendi que reconhecer os próprios erros não significa desistir de si mesma. A dependência destrói vínculos, mas o tratamento, o tempo e as mudanças concretas podem reconstruir, ainda que lentamente, parte do que foi perdido. Talvez algumas coisas nunca voltem a ser como antes, mas continuar lutando pela própria recuperação é uma forma de honrar o amor que um dia existiu e de construir, pouco a pouco, uma nova história.