A pressão que ela cedeu e agora está lidando sozinha é forte. Impossível não simpatizar.
Antes de ser mãe
Pensamento
A pressão que ela cedeu e agora está lidando sozinha é forte. Impossível não simpatizar.
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Acordo assustada. Não que isso seja algo raro. Nos últimos dias, tenho me sentido mais ansiosa, despertando no meio da madrugada. Meu marido dorme tranquilamente do outro lado da cama, como se nada pudesse atingi-lo. Há três meses, desde que descobri a gravidez, não sei o que é ter uma noite de sono tranquila. Volto a pensar no dia em que descobri que estava grávida. Meu marido estava no trabalho, e eu já desconfiava.
Minha menstruação estava atrasada, eu me sentia inchada e não tinha vontade de levantar da cama. Mesmo sabendo que estávamos tentando há algum tempo, fiquei aterrorizada quando vi o resultado do teste. Pensei que, quando finalmente contasse ao meu marido, o alívio e a alegria viriam instantaneamente. Mas, passados três meses, o único sentimento que parece tomar conta de mim é a repulsa.
Não tive coragem de contar isso a ninguém. Ninguém sabe que já não consigo me reconhecer quando me olho no espelho. Ninguém faz ideia de que, quando meu marido encosta em mim, a única coisa que sinto é nojo. Nojo do toque e da coisa que ele colocou em mim. Quando conversamos pela primeira vez sobre ter filhos, a ideia me pareceu ótima. Estávamos casados havia cinco anos, e nossos familiares sempre perguntavam quando teríamos uma criança.
Então, começamos a tentar. Meu marido se enchia de esperança a cada mês, e me parecia egoísmo não lhe dar isso. Porque era minha obrigação, não era? Como uma boa esposa, aquele era meu papel em nosso casamento. Então, cedi. Quando finalmente consegui engravidar, tive a sensação de que minha vida havia acabado.
Nunca sonhei com a maternidade. Nunca foi algo que almejei para minha vida. Às vezes, tento me lembrar de como eram meus dias antes de tudo isso. O que eu fazia nas manhãs de domingo, quais eram meus planos para as férias, o que costumava pensar antes de dormir. As lembranças parecem pertencer a outra pessoa. Uma mulher que morava nesta casa, dormia nesta cama e tinha planos que não precisavam incluir mais ninguém. Tenho evitado olhar para as roupas de bebê que minha sogra comprou na semana passada. Estão guardadas em uma sacola no canto do quarto, esperando que eu encontre disposição para organizá-las. Meu marido diz que está ansioso para montar o berço. Perguntou se eu gostaria de escolher a cor das paredes.
Não respondi. Disse que eu andava estranha e que talvez fossem os hormônios. Talvez sejam mesmo. É o que digo a mim mesma quando passo muito tempo sentada no banheiro, olhando para o chão. É o que penso quando acordo no meio da noite e preciso me lembrar de respirar devagar para não despertar meu marido. Também é o que repito quando sinto vontade de chorar sem conseguir explicar o motivo.
Na noite anterior, passei alguns minutos diante do espelho. Minha barriga está maior, meus seios doem e há manchas no meu rosto que não existiam antes. Passei a mão sobre a pele esticada e tentei imaginar como seria dali a alguns meses. Não consegui. Tudo o que vi foi meu reflexo, com os olhos fundos e o cabelo preso de qualquer jeito. Levantei, lavei o rosto e voltei para o quarto. Meu marido ainda dormia. Deitei ao seu lado, virada para a parede, esperando que o sono viesse.
Quando se aproximou e colocou a mão sobre minha barriga, permaneci imóvel, esperando que voltasse a dormir. Depois, fui ao banheiro e vomitei tudo o que havia no meu estômago. Sentei-me no chão frio, encostada na parede, e fiquei ali por um tempo. Não sei quanto.
Quando voltei para o quarto, o sol já entrava pela janela. Deitei de lado, tentando encontrar uma posição em que meu corpo doesse menos. Meu marido acordou pouco depois e perguntou se eu estava bem. Disse que sim. Ele beijou minha testa, sorriu e começou a falar sobre o médico, os exames e o quarto do bebê. Fiquei olhando para a parede enquanto ele falava. Não consegui prestar atenção em quase nada. Sentia-me oca, sem vida.
Thoughts
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PermalinkA pressão que ela cedeu e agora está lidando sozinha é forte. Impossível não simpatizar.
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PermalinkTem uma conta nessa casa que ninguém falou em voz alta: os parentes perguntando quando vinha a criança, o marido esperançoso a cada mês, ela achando que ceder era o papel de boa esposa.
Ninguém obrigou com palavra nenhuma, e todo mundo cobrou. A sogra comprou roupa antes de alguém perguntar o que ela queria.
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PermalinkMaravilhoso!
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PermalinkAs roupas de bebê que a sogra comprou, paradas numa sacola no canto do quarto, me lembram como um objeto quieto consegue falar mais alto que qualquer conversa da casa. Gostei de que ninguém resolve nada no fim: ela continua olhando a parede enquanto ele fala do médico e dos exames. Obrigado por trazer isso pra cá.
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