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RECORDAR- Cap. 1: Antes

Viverse
Pensamento

Pensamento

fsantos1307

O seu Manoel é quem me fica, sempre na varanda à mesma hora a enrolar o palheiro. Aposto que ele também já viu a mulher da fotografia e não diz nada a ninguém.

O seu Manoel é quem me fica, sempre na varanda à mesma hora a enrolar o palheiro. Aposto que ele também já viu a mulher da fotografia e não diz nada a ninguém.

Conteúdo da publicação

"Bip bip bip."

— Arrghh, só mais cinco minutinhos... — disse enquanto apertava o botão do despertador.

Ele não desligou.

"Bip bip bip."

— Não tenho um dia de paz nesse caralho! Se eu não levantar agora, vou desistir de sair da cama. Se não sair da cama, não vou trabalhar. Se não for trabalhar, levo falta e perco meu final de semana de folga... AAAAAAAAAAAAA! — gritei a plenos pulmões, só pra dar um susto no sistema nervoso — Tudo bem, eu consigo, é só mais um dos infinitos dias nesse trabalho de merda.

Enquanto me arrumava, comecei a refletir sobre o trabalho tentando me animar um pouco.

— Ele não é tão ruim, né? Tipo, sinto que talvez já tenha feito algo do tipo antes... Antes...

Já fazia algum tempo que não parava pra pensar sobre "antes".

Engraçado.

— Bom, esse é o sinal claro de que preciso de um banho gelado. Pensar sobre isso nunca leva a nada mesmo, não é Sr. bigodes? — falei, olhando pra uma pelúcia toda estropiada ao lado do meu travesseiro.

Depois de sair do box tremendo de frio, vesti meu conjunto de moletom preto. Peguei minha ecobag, liguei meu radinho e coloquei os fones.

Hoje a locutora tá mais animada que o normal.

Tipo, eu gosto de Bee Gees, mas que ânimo é esse minha amiga?

— É isso aí pessoal! Começando muito bem mais uma linda quarta-feira ensolarada em Monte Corva Deores! Peguem seus chapéus e bonés, pois hoje o dia vai ser quente que nem esse som!

Em seguida, começa a tocar algo novo, uma batida mais agitada.

— Já ouvi isso?— murmuro, com o olhar perdido. — Cara, eu já ouvi isso! Mas onde?

Fecho os olhos por um momento e vejo luzes coloridas.

Uma sensação quente no peito.

E então desaparece.

Abro os olhos.

— Uma lembrança ou um sonho? Esse dia já começou estranho... Droga, preciso ir logo pra não me atrasar!

Logo que saio vejo o seu Manoel. Ele está sentado na varanda de sua casa, enrolando seu palheiro como de costume.

— Bom dia, seu Manoel! Tudo bem? Como vai a força? —cumprimento ele diminuindo um pouco o passo.

— Bom dia, minha filha! Devagar quase parando hahaha. Mas como dizem: "Devagar se vai longe". Não é mesmo? —diz ele sorrindo, com os olhos quase em risco de tão fechados.

Gosto de idosos. Eles sempre despertam em mim essa vontade de cuidar deles.. E, sinceramente sinto inveja de serem aposentados...

— Isso aí, seu Manoel! Devagar e sempre! Hahaha. Mais tarde trago seu pãozinho francês hein... Tchau, tenha um ótimo dia! — digo acelerando novamente o passo.

— Obrigado, querida! Se cuida.

Ele volta a enrolar seu cigarrinho com a paciência de um buda.

Sigo a caminho do trabalho e faço a paradinha do trajeto matinal na padaria da Carol. O cheirinho de pão de canela me leva que nem em cena de desenho animado.

— Bom dia, Carolzinha! Seus pães estão mais cheirosos hoje ou é impressão minha? — Digo, dando uma piscadinha.

— Bom dia Verô! Obrigada, flor. Vai querer o de sempre? — Ela me olha com um olhar radiante.

— Opa, com certeza! — Digo já pegando um pãozinho de queijo do cesto.

Olho para a vitrine de pães... A Carol sempre foi perfeccionista dessa forma?

Os pães estão extremamente alinhados, divididos por tipo e tamanho.

Bom, cada um com seu cada qual.

Ela vem trazendo dois pacotes marrons abertos.

— Tá aqui seus pães de queijo e pãezinhos de canela quentinhos.

— Aí sim! Obrigada Carolzinha! Tenha um ótimo dia. Não esquece de deixar os pães do seu Manoel separados a tarde, hein...

— E eu já esqueci algum dia? Hahaha. Pode deixar, bom trabalho!

Ah, é mesmo, estou indo trabalhar... Coloco dois pães de queijo na boca de uma vez e sigo, cabisbaixa, em passos largos até a prefeitura.

Chegando eu cumprimento o pessoal até o caminho do meu cubículo. E para a surpresa de ninguém, havia uma pilha gigantesca de pastas e papéis em cima de minha mesa.

— O chefe caprichou hoje, não é mesmo? — Disse a Amélia, a senhora de meia idade que tem obsessão por roupas roxas.

— Nem me fale, Amelinha. Acho que hoje vou precisar ficar até mais tarde...

Passo o dia lendo e arquivando documentos na prefeitura.

— Trabalho dos sonhos, yay! — Falo de forma irônica enquanto leio o último arquivo da pilha.

Enquanto folheio o arquivo, algo cai de dentro dele.

Uma fotografia.

São três mulheres aqui no escritório. Imediatamente identifico que uma delas sou eu ,com uma franja ridícula que fiz ano passado, ao meu lado a Amelinha, e ao lado dela... Quem é essa?

Estamos rindo e nos abraçando na fotografia.

Havia alguma coisa naquela fotografia que me incomodava. Não era só a mulher que eu não reconhecia.

Era a sensação de que eu deveria reconhecê-la.

— Mas quem diabos é essa mulher? — Penso em voz alta.

— Que foi, querida? — Amélia me olha preocupada.

— Ame, você sabe quem é essa moça? — Falo apontando para a foto.

Amélia olha para a fotografia.

Por um segundo, seu rosto muda.

É rápido. Tão rápido que quase acho que imaginei.

— Não, deve ter sido uma ajudante temporária.

Então tira a fotografia das minhas mãos.

— Eita, calma lá, Ame!

Ela não responde.

Apenas guarda a fotografia dentro da pasta e volta para a própria mesa.

Fico olhando para ela por alguns segundos.

Eu tinha certeza de que conhecia aquela mulher.

#ficcao #mistery

Thoughts

  • tresPaginas

    Ia ler só um bocadinho antes de apagar a luz e fiquei presa até à foto. Agora quero saber quem é ela, não me faças isto.

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  • fsantos1307

    O seu Manoel é quem me fica, sempre na varanda à mesma hora a enrolar o palheiro. Aposto que ele também já viu a mulher da fotografia e não diz nada a ninguém.

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"Bip bip bip."

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