A cela sem marca de ninguém no começo e o alojamento coberto de fuligem antiga no fim. O Adrian sai de um sítio onde ninguém deixou rasto para um onde todos deixaram. Aposto que a segunda parte vive dessa troca.
Âncoras
Capítulo 14 - Cinzas Novas
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Pensamento
A cela sem marca de ninguém no começo e o alojamento coberto de fuligem antiga no fim. O Adrian sai de um sítio onde ninguém deixou rasto para um onde todos deixaram. Aposto que a segunda parte vive dessa troca.
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Capítulo 14 - Cinzas Novas
A cela cheirava a metal recém-polido. Paredes de aço liso, sem ferrugem, sem marca de uso - como se ninguém tivesse ficado ali tempo suficiente pra deixar traço de si mesmo. Um cano de vapor passava perto do teto, soltando um chiado baixo e constante.
Adrian estava sentado na beirada do beliche fixo, os cotovelos nos joelhos, olhando pro próprio reflexo distorcido na parede polida.
O tio.
A caixa trancada, a estrela gravada na base.
A planta crescendo onde nada deveria crescer.
O rato de olhos duplos.
As pegadas que sumiam onde o chão ficava mais firme.
Marco.
Tentou encaixar tudo numa linha só - o tio sabia de alguma coisa, a estrela conectava ele ao homem de casaco cinza. - mas cada conclusão escorregava antes de fechar, deixando só mais pergunta no lugar. Não sabia se via padrão real, ou só desespero organizado em forma de teoria.
A porta da cela se abriu sem aviso.
- Dois dias aqui. - Hollis parou na entrada, o rosto cansado. - Espero que tenha tido tempo suficiente pra refletir.
- O que vai acontecer comigo?
- Intercedi por você perante o Conselho. - Hollis entrou, fechando a porta. - Ameaçar um oficial com arma de fogo normalmente significa anos de reclusão. Reduzi isso a uma consequência menor.
- Que consequência?
- Transferência. Fornalha Leste.
O nome pousou entre os dois com um peso que Adrian ainda não sabia medir.
Hollis se virou pra porta e bateu duas vezes contra o metal.
- Traz os pertences do recruta.
O soldado entrou carregando uma caixa de metal, entregando direto nas mãos de Hollis antes de recuar pro corredor.
Hollis abriu a tampa sobre a própria mesa e começou a tirar os itens um por um, examinando cada um antes de dispor sobre a superfície.
A pistola de pressão, a faca, a bainha gasta nas bordas.
Uma moeda, girada entre os dedos de Hollis por um segundo, os olhos parando nela mais tempo que nos outros itens.
- Do Diaz - disse, sem erguer o rosto.
Por último, um caderno de couro, as bordas amassadas. Hollis o folheou rápido - páginas passando sob o polegar, o som seco do papel - antes de fechar e estender na direção de Adrian.
Adrian congelou.
Segurou o caderno com as duas mãos, sem abrir, o coração batendo alto demais pro tamanho do gesto.
- E a caixa? - disse, em vez disso. - A que o comandante recolheu, há um tempo.
- Com tudo que aconteceu, o Conselho não teve tempo de avaliar. Continua sob custódia.
Adrian assentiu, engolindo a frustração.
- Marco - disse, depois de um silêncio. - O que aconteceu com... o corpo dele?
Hollis pousou a caneta.
- Fomos buscar assim que o Casulo recarregou. Levou mais tempo do que devia. - Uma pausa, os olhos desviando por um instante. - Ele foi cremado. A família se despediu um dia antes de você acordar.
Adrian sentiu os olhos arderem, mas não deixou nada cair.
- Obrigado por ter ido buscar ele.
Hollis não respondeu. Só assentiu, uma vez, e voltou aos documentos.
- Soldado Karovski vai te mostrar o novo alojamento - disse Hollis, já se virando pra própria mesa. - Dispensado.
Karovski não falou no caminho inteiro. Só andou à frente, os passos regulares, até um corredor onde o cheiro de fumaça de carvão substituiu de vez o óleo do resto de Nova Arcádia. As paredes ali eram mais escuras, manchadas de fuligem antiga, e um som de metal batendo contra metal ecoava sem parar - ritmo de forja, longe, mas constante.
A porta do alojamento rangeu ao abrir, um som agudo de dobradiça seca. A maçaneta travou por um instante antes de ceder.
Adrian deu dois passos pra dentro e pisou em algo mole. Baixou os olhos: um pedaço de pano encardido, enrolado, que ninguém tinha se dado ao trabalho de tirar do caminho.
Três beliches enferrujados. Um deles tombado pra um lado, o colchão surrado até a espuma sair pelas bordas.
Escolheu o vazio, começando a organizar a mochila.
- E quem foi que disse que você podia escolher?
Um rapaz magro, braços cruzados, o sorriso sem chegar aos olhos.
- Chega aqui, acha que é dono do lugar?
Dois outros surgiram atrás dele. Um mais robusto, o rosto marcado por queimaduras antigas, os antebraços grossos. Outro mais baixo, os olhos rápidos, avaliando Adrian de cima a baixo.
- Denver, deixa o novato em paz.
Joseph entrou, as mãos nos bolsos.
- Pax - disse, erguendo uma mão aberta na direção dos três.
Denver apertou os olhos, a mandíbula travando por um instante antes de recuar meio passo, o sorriso ainda no lugar, mais contido agora.
- Esse é o Denver. - Joseph apontou. - Esse é o Montez. - O mais baixo ergueu o queixo, sem dizer nada. - E esse gigante é o Gregory, mas ninguém chama ele assim. Trabalhou na fornalha desde criança. Acabou ficando mais resistente ao calor do que a maioria. Chamam ele de Magma.
Magma encarou Adrian, sem hostilidade - só medindo peso.
- Para de proteger gente fraca, Calder - disse Denver, passando a mão pelo próprio rosto. - Fraco é peso. Peso, na superfície, é sentença de morte pros outros.
- Ouvi dizer que esse aqui já foi peso pra muita gente - completou Montez.
O silêncio pesou mais que qualquer grito.
Joseph caminhou até o beliche do fundo, o mais sujo dos três, tombado.
- Esse é o nosso. Escolhe. Cima ou baixo.
Adrian olhou ao redor - a fuligem, o colchão rasgado, o pano no chão que ele nem sabia identificar direito.
Entendeu, ali, por que Hollis tinha chamado aquilo de consequência, e não de misericórdia.
Tirou a moeda do bolso, virando-a devagar entre os dedos, o metal frio contra a pele. Não jogou. Só ficou olhando pra ela, pensando que, dessa vez, já sabia qual beliche queria - sem precisar de nenhum lado caindo pra decidir por ele.
Thoughts
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PermalinkVocê pediu opinião do geral, então vai a minha. A moeda no fim foi onde eu sorri, porque o Adrian escolhe o beliche sem precisar jogar ela. Onde eu me perdi foi na lista do começo, tio, caixa, planta, rato, pegadas. Pra quem acompanha desde o início serve de lembrete, mas ali o capítulo parou antes de andar.
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PermalinkComecei pela moeda e pelo beliche, como faço sempre, e só depois percebi o peso do Diaz nela. Quando começaste a primeira parte já sabias que acabava na Fornalha Leste?
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PermalinkO Joseph só erguer a mão e dizer Pax, e o Denver recuar meio passo, me fez pensar que naquele alojamento existe uma regra que todo mundo conhece menos o Adrian. Aposto que a segunda parte começa com ele descobrindo quanto custou ao Joseph ficar do lado dele no beliche do fundo.
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PermalinkA cela sem marca de ninguém no começo e o alojamento coberto de fuligem antiga no fim. O Adrian sai de um sítio onde ninguém deixou rasto para um onde todos deixaram. Aposto que a segunda parte vive dessa troca.
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PermalinkEsse é o final da primeira parte da minha história, e gostaria que dessem a opinião de vocês sobre o geral, sobre o que acharam da história, do ritmo, da estrutura e tudo mais, se puderem dar dicas eu agradeço, muito obrigado a todos que estão lendo
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