A gente sabe que Adrian vai voltar do lado de fora diferente. Algo "não faz sentido" e ele vai ter que contar pra alguém.
Âncoras
Capítulo 4 - Sem Sentido
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Pensamento
A gente sabe que Adrian vai voltar do lado de fora diferente. Algo "não faz sentido" e ele vai ter que contar pra alguém.
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Capítulo 4 - Sem Sentido
Adrian já estava acordado quando a última luz da noite ainda cobria o teto do quarto.
Não tinha dormido, não de verdade - só ficara deitado, os olhos abertos no escuro, ouvindo o zumbido distante dos reatores até ele deixar de significar qualquer coisa. Vestiu o uniforme sem pensar, os dedos encontrando cada botão por hábito, o corpo se movendo antes que a cabeça tivesse decidido se movia. Caminhou até o escritório do capitão em silêncio, os corredores vazios àquela hora, os próprios passos ecoando alto demais no metal.
Assinou o primeiro papel sem realmente ler o que estava escrito.
O escritório cheirava a tinta e poeira de arquivo antigo, e a caneta pesava mais do que deveria. Termo de Comparecimento - Cerimônia de Encerramento de Ciclo. As palavras eram limpas, burocráticas, como se estivessem falando de qualquer outra coisa que não a vida do seu tio.
- Assina aqui também - disse o capitão, empurrando um segundo papel pela mesa, sem erguer os olhos, como quem já fez aquele gesto centenas de vezes e parou de sentir o peso dele há muito tempo.
Adrian leu esse com mais atenção. Transferência de Pertences Pessoais - Martin Keller. Franziu a testa.
- Ele deixou os pertences dele... pra mim?
- É o que o registro diz.
Um nó estranho se formou no peito de Adrian. O tio nunca tinha deixado ninguém tocar nas próprias coisas - nem o pai de Adrian, nem os vizinhos mais próximos, ninguém. Assinou mesmo assim, a mão um pouco trêmula, e recebeu em troca uma caixa de metal pequena, pesada demais para o tamanho, com uma fechadura de formato que ele não reconheceu - não o giro simples de qualquer cadeado de Nova Arcádia, mas algo mais estranho, quase entalhado, como se tivesse sido feito para responder a uma chave que não existia mais em lugar nenhum.
Não teve tempo de pensar sobre aquilo. Guardou a caixa dentro do próprio armário, debaixo de algumas roupas, e saiu.
Dario esperava no corredor externo, as mãos nos bolsos, o sorriso de sempre ausente pela primeira vez desde que Adrian se lembrava de conhecê-lo.
- Não posso entrar - disse, antes que Adrian perguntasse. - Só parentes. Regra idiota, mas é regra.
- Eu sei.
- Vou estar aqui fora quando você sair. - Colocou a mão no ombro de Adrian, o gesto pesando mais do que qualquer palavra conseguiria. - Se precisar de qualquer coisa depois.
Adrian assentiu, sem confiar na própria voz para responder, e seguiu para dentro.
A câmara de exílio ficava dois níveis abaixo do hangar principal, um espaço estreito e comprido dominado por uma plataforma de observação suspensa que corria ao longo da parede. Os familiares ficavam ali em cima, olhando para baixo através de uma grade de ferro, separados por metros de distância do chão onde o Casulo aguardava - sem correntes visíveis, sem o brilho polido dos Casulos dos Âncoras. Esse parecia mais velho. Mais cansado. Como se já tivesse feito aquela mesma viagem vezes demais para se importar com a diferença entre uma e outra.
Adrian encontrou espaço na grade, entre rostos que não conhecia - outras famílias, outros ciclos encerrados naquele mesmo dia, talvez. Ninguém conversava. O silêncio ali carregava um peso diferente de qualquer silêncio que Adrian já tinha sentido, incluindo o da superfície.
Abaixo, um sargento de farda impecável e rosto sem expressão nenhuma lia de uma prancheta, a voz plana, repetitiva, o tipo de leitura que só se consegue depois de tantas vezes que as palavras deixam de significar qualquer coisa para quem as diz.
- Pela Lei do Tempo, todo cidadão sob o sistema de Relógio deve, ao encerramento do seu ciclo, retornar à superfície de onde Nova Arcádia um dia se ergueu. - Pausa mecânica, sempre no mesmo lugar da frase, como se fosse ensaiada há anos. - Como ato de misericórdia, o Conselho concede a cada indivíduo uma máscara filtrante e um traje básico de proteção temporária.
Dois soldados entregaram ao tio de Adrian - magro, mais curvado do que ele lembrava, os cabelos completamente brancos agora - uma máscara simples de couro e vidro, sem nenhum dos reforços de metal que os Âncoras usavam, e um traje fino demais para proteger de qualquer coisa por muito tempo.
Adrian sentiu a garganta apertar.
Ao lado do sargento, imóvel, um homem de casaco escuro observava tudo sem dizer uma palavra - o Conselheiro Weiss, reconheceu Adrian pelo emblema no peito. Não precisou falar nada. A presença dele já bastava para tornar o ar mais frio, como se cada segundo em que ficava ali, calado, fosse um lembrete silencioso de que nada daquilo era acidental.
- Últimas palavras - disse o sargento, sem olhar para ninguém em particular, como quem anuncia o próximo item de uma lista de compras.
Martin Keller ergueu os olhos - não para a plataforma, não para onde Adrian estava, mas para algum ponto neutro à frente, como se - soubesse que olhar demais custaria mais do que ele conseguia pagar naquele momento.
- Sempre sigam o sol - disse, a voz mais firme do que Adrian esperava. - É só isso que eu tenho pra deixar.
Não olhou para cima. Não precisou.
Adrian sentiu, com uma certeza que não sabia explicar, que aquelas palavras tinham sido ditas exclusivamente para ele.
- Muito bem - disse o sargento, já guardando a prancheta debaixo do braço, o tom idêntico ao de quem confirma o recebimento de uma encomenda. - Iniciar procedimento.
- Isso é... - A voz de Adrian saiu antes que ele decidisse falar, baixa, tremendo. - Isso é tudo? Não tem mais nada? Nenhum tempo, nenhuma...
- Fica quieto. - O soldado ao lado da grade não se virou completamente, a voz baixa o bastante para não ecoar, firme o bastante para calar qualquer discussão. - Isso é necessário pra que Nova Arcádia tenha ordem. Não gosto mais do que você. Mas é necessário.
Adrian não respondeu. Não tinha certeza se conseguiria, mesmo se quisesse.
O Casulo se abriu sem nenhum ritual - nenhum gesto, nenhuma frase de comando, nenhum bater de punho contra o peito. Apenas as portas deslizando, mecânicas, indiferentes, exatamente como abririam para uma carga qualquer. O tio de Adrian entrou devagar, sem olhar para trás nem uma vez.
As portas se fecharam.
O som que se seguiu - mais baixo, mais rápido que o das correntes dos Âncoras, quase apressado, como se o próprio Casulo quisesse se livrar daquilo depressa - foi o pior som que Adrian já tinha ouvido em toda a vida.
De volta ao alojamento, ninguém disse nada por um bom tempo.
Adrian sentou na beirada do próprio beliche, os cotovelos nos joelhos, os olhos fixos num ponto qualquer do chão. Marco tentou, uma vez, sentar ao lado dele e dizer alguma coisa - algo sobre estar ali, sobre não precisar falar se não quisesse - mas as palavras saíram desajeitadas, sem encontrar destino, e ele acabou apenas ficando ali, em silêncio solidário, o que talvez fosse o suficiente.
Foi Fred quem quebrou o silêncio, sem malícia, sem perceber o que estava prestes a fazer.
- Estatisticamente, a maioria das famílias de Engraxados perde alguém pro Relógio antes dos setenta anos - disse, os olhos ainda no próprio livro, a voz neutra, quase reconfortante na cabeça dele. - Não é incomum. Isso não torna mais fácil, mas...
- Cala a boca. - A voz de Adrian saiu baixa, perigosa.
Fred ergueu os olhos, confuso.
- Eu só estava tentando...
- Você não sabe como é! - Adrian já estava de pé, o sangue latejando nos ouvidos. - Você é um Limpo, Fred! Nunca teve um relógio no pulso, nunca teve ninguém contando os dias da sua família como se fosse gado!
- Adrian - começou Dorian, erguendo as mãos, tarde demais.
O soco pegou Fred de raspão no rosto, forte o suficiente para derrubá-lo contra o próprio beliche, os óculos voando longe.
- Seu filho da puta! - gritou Adrian, avançando de novo, a raiva finalmente encontrando um alvo, mesmo o alvo errado. - Fica aí com sua estatística de merda enquanto...
Marco o segurou por trás, os braços enormes envolvendo o peito de Adrian com força suficiente para tirá-lo do chão. Dorian ajudou a prender o braço livre, e entre os dois conseguiram imobilizá-lo contra a parede, Marco finalmente aplicando um mata-leão firme o bastante para cortar o fôlego de Adrian sem machucá-lo de verdade.
- Para. Para, Adrian. - A voz de Marco, tão perto do ouvido dele, quase gentil apesar da força do braço. - Ele não quis dizer aquilo do jeito que você ouviu.
Adrian se debateu por mais alguns segundos. Depois foi cedendo, a raiva escorrendo pra fora do corpo tão rápido quanto tinha chegado, deixando só o cansaço - e, logo atrás dele, uma vergonha tão imediata que doeu mais que o próprio soco. Ele olhou para Fred, ainda sentado no chão, a mão no rosto, e sentiu o estômago revirar com a certeza simples e terrível de ter acertado exatamente a pessoa errada.
Fred não olhava para ele com raiva. Só uma tristeza estranha, antiga demais para pertencer só àquele momento.
- Meu pai era Engraxado - disse, a voz baixa. - Casou com minha mãe. O Relógio dele foi retirado. - Uma pausa, como se cada palavra custasse um pouco. - Ele nunca falou sobre isso. Mas cresci ouvindo gente dos dois lados dizer que ele não pertencia a lugar nenhum. Chamavam ele de Trocado, como se tivesse comprado a própria vida com a de outra pessoa. - Ergueu os olhos, finalmente encarando Adrian. - Eu nunca tive um relógio contando meus dias, Adrian. Mas cresci vendo o que isso faz com alguém, mesmo depois de "livre" dele.
Adrian abriu a boca - para pedir desculpas, para dizer qualquer coisa que aliviasse o peso que tinha acabado de criar - mas a porta se abriu antes que qualquer palavra saísse.
- Reunião. Agora. - Um oficial parado na porta, a voz cortando qualquer resquício do momento anterior. - Descida em quarenta minutos. Todos vocês.
Ninguém se moveu por um segundo.
- AGORA.
O hangar cheirava a óleo quente, indiferente a tudo que tinha acontecido nas últimas horas. Adrian vestiu o traje em silêncio ao lado de Marco, as mãos ainda um pouco trêmulas, a vergonha do próprio descontrole pesando mais que o medo da descida em si.
Não teve tempo de se desculpar com Fred antes de entrarem no Casulo - grupos diferentes, direções diferentes. Só um olhar rápido, atravessado por cima dos capacetes sendo fechados, que talvez tenha dito algo que as palavras ainda não conseguiam.
A superfície recebeu Adrian com a mesma névoa cinzenta de sempre, o mesmo cheiro metálico e adocicado se infiltrando através do traje. Ele trabalhou quase por hábito - recolher, marcar, avançar - enquanto a mente permanecia em outro lugar, presa entre a máscara fina demais do tio, o som apressado das portas se fechando, o rosto machucado de Fred, e aquela frase que continuava girando sem explicação. Sempre sigam o sol. Não conseguia largar dela, do mesmo jeito que não conseguia largar da vergonha.
Todos andaram até um certo ponto, depois se separaram, cada um pra um canto, assim como já havia acontecido na primeira descida.
Foi assim, com a atenção meio perdida entre dois mundos, que quase passou direto pelo que encontrou.
Parou.
Ajoelhou-se devagar. Afastou a poeira com cuidado, os dedos enluvados quase hesitando antes de tocar.
Parou completamente.
O coração desacelerou, como se o próprio corpo precisasse de silêncio para processar o que os olhos estavam vendo.
Aquilo não fazia sentido.
Não ali.
Não naquele mundo.
Não depois de tudo que lhe haviam ensinado sobre a superfície.
Thoughts
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PermalinkComo termina esse capítulo? Adrian descobre algo e depois tem que voltar pra Arcádia sabendo um segredo que ninguém mais sabe?
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PermalinkAquela caixa de metal com a fechadura estranha é claramente importante e naturalmente Adrian deixou guardada debaixo de roupa como quem não liga pro aviso.
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PermalinkGostei de como você mostra o controle totalmente frio da cerimônia enquanto Adrian desaba. O contraste matou.
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PermalinkFred revelando que seu pai era Engraxado - você já sabia disso ou foi tão surpresa quanto pra Adrian?
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PermalinkA gente sabe que Adrian vai voltar do lado de fora diferente. Algo "não faz sentido" e ele vai ter que contar pra alguém.
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PermalinkBater em Fred quando Fred nem merecia - isso piorou tudo mais que se Adrian tivesse acertado o verdadeiro culpado.
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Permalink"O Casulo se abriu sem nenhum ritual". Que detalhe triste - nem dignidade tem na saída.
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Permalink"Sempre sigam o sol" - é só um conselho ou é Martin dizendo que tem algo lá fora que Nova Arcádia não quer que Adrian veja?
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