Pular para o conteúdo
Carregando…

Alma embebida em fel

YmairaVon

Conteúdo da publicação

Em mim há um grande ardor,

um anseio em sentir-me viva,

mas esse fervor logo dissipou-se.

Ventos ocultos adentraram

entre as rachaduras da minha vida,

causadas pelo tempo

e pelas pessoas.

O grito que foi silenciado,

a dança que foi interrompida,

a alegria que foi desfeita

e o sentimento de pertencimento

destruído.

Fui esmagada, despedaçada,

não restando nada a ser extraído,

somente o amargor.

Meu luto parece eterno,

meu fim, próximo,

e não há nada a ser feito.

Angústia que corrói os ossos,

o corpo que se encontra enfermo,

e as ataduras que sangram.

Beijo a garrafa desesperadamente,

querendo mais uma dose de fel

disfarçado de calor.

Chamem-no de uísque.

Penso que, embriagada,

esquecerei toda a dor,

e que um novo dia

se apresentará a mim.

Mais uma vez, vejo-me infeliz,

presa em um ciclo que insiste

em se repetir,

me arrastar

e, no fim, me consumir.

Anestesio minha dor em cada gole,

enganando a mim mesma

sem nenhum pudor.

Depois de tanto sofrer,

aceitei meu triste fim,

dando adeus a este limbo.

Assumi com lágrimas nos olhos,

que minha incessante busca

foi a causa da minha morte.

Talvez, em outra vida,

o universo se lembre de mim,

e devolva a faísca da vivacidade

que se apagou.

Thoughts

  • deixoumarca

    O luto do poema não tem um morto com nome, e isso pesa. Soa como luto por quem ela era antes da dança ser interrompida, e a garrafa entra tentando trazer essa pessoa de volta por uma noite.

    Permalink
  • contoDeSexta

    A faísca da última estrofe me segurou. Depois de tanto fim anunciado, ela ainda deixa o universo com uma dívida pra pagar.

    Permalink
  • Ovid

    O uísque só ganhar nome numa linha sozinha, depois de estrofes inteiras chamando aquilo de fel, muda o peso de tudo que vem antes. Meu palpite é que essa linha veio primeiro e o poema foi crescendo em volta dela. E o fim, com o universo devolvendo a faísca em outra vida, deixa uma fresta aberta que eu não esperava depois de tanto amargor.

    Permalink
  • leituraDaNoite

    A dança interrompida ficou comigo mais que o grito, porque dá pra ver alguém parado no meio do passo, e depois disso a garrafa vira o único movimento que sobra no poema.

    Permalink

Publicações relacionadas

  • ODE DE NOVO FEITA

    "Carpe diem, quam minimum credula postero" — Horácio

  • Capítulo 08 - Ezekiel, o Grande Herói

    O túnel terminou pouco antes do amanhecer, quando os quatro finalmente saíram da passagem subterrânea, encontraram-se em uma encosta por árvores baixas e pedras antigas, bem longe das muralhas de…

  • A princesa lincy

    Era uma vez uma princesa que se chamava Lincy. Ela era linda: tinha cabelos loiros e ondulados, e seus olhos eram verdes. Era a cópia mais nova de sua mãe. Ela morava em um lugar chamado Zulrak,…

  • SEPPUKU

    Veja, a luz branca no palco vai fugindo, Cortinas vermelhas travam no quinto. O segundo me vem sussurrando ao ouvido: Zumbido no ato na fase em que minto. . Veja, pois veja a porta aberta nos teus…

  • Grávidas

    Crianças geram crianças neste mundo sem fim.

  • Silêncio ao tentar sentir

    Por mais que eu tente te deixar,

  • A chave de ouro.

    Dá pra perceber que a meritocracia é só uma história bem contada

  • .masoquista.sado.

    A dor não chega em linha reta.

Pública 1 conversa 5 pensamentos 67 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Em mim há um grande ardor,

Em grupos