Era uma vez um garoto chamado Shiro.
Ele se deu por inteiro ao amor e nunca foi bem retribuído.
Até era, mas nunca como devia.
Acreditou que o amor era assim: a balança sempre pesava mais pro outro lado.
Acostumou-se. Amando mais do que sendo amado.
Um dia ele deitou-se em sua cama e, naquela noite, adormeceu como nunca havia dormido antes.
Quando abriu os olhos, estava em um lugar totalmente escuro.
Do outro lado, uma cadeira.
No meio, uma mesa de jantar com uma bela flor negra de exatamente seis pétalas.
Ele se sentou.
De repente, outra cadeira apareceu.
Havia um homem totalmente negro, sem rosto, sem traços. Só o cabelo levemente cacheado.
Shiro perguntou:
— Quem é você?
A voz veio mais calma do que o necessário:
— Sou algo.
Shiro ergueu uma sobrancelha:
— É… algo?
A silhueta apoiou a mão na mesa e respondeu:
— Lembra daquela árvore onde você se sentava e esperava por ela? Sentia que ela não te amava e que algo faltava. Eu era esse algo.
A primeira pétala caiu em voo raso e silencioso.
Era a pétala da espera.
Shiro olhou para ela como se olhasse uma parte de si que já não lhe pertencia.
— Eu devia ser melhor? — perguntou.
A silhueta bateu uma vez na mesa com o indicador, como um costume antigo:
— A mim que você deveria perguntar?
No mesmo instante, foram teletransportados para perto da árvore.
Lá estava o outro Shiro: costas no tronco, joelhos dobrados, olhando a estrada.
A cada pessoa que passava ao longe, levantava um pouco a cabeça. Depois abaixava. Não era cansaço. Era costume.
— Você acha que foi amor? — perguntou o Algo.
— Foi. Eu amei. De verdade.
— Sim. Você amou. Mas me diz: quem amou você enquanto você esperava?
A segunda pétala caiu.
Era a pétala da solidão dentro do amor.
Agora restavam quatro.
— Eu não devia ter esperado tanto?
— Não. Você não devia ter esperado sozinho. O problema nunca foi amar demais, Shiro. Foi amar demais alguém que te deixava sozinho na hora de amar de volta.
A silhueta inclinou a cabeça:
— Dói, não? Sentir-se assim.
E então veio a memória seguinte: o dia em que Shiro viu sua outra tentativa grudada o dia inteiro com outro garoto.
A terceira pétala caiu de forma mais lenta, quase dramática.
Era a pétala do ciúme que não tinha direito de existir, porque o amor nunca tinha sido realmente seu.
Shiro baixou a voz:
— Eu devia ter acabado com tudo?
Foram jogados para longe, naquele mesmo dia.
A silhueta preta ao lado dele murmurou:
— Por que não perguntou a ele? Sozinho, derrotado, inseguro, vendo a única coisa que o tinha se esvair das mãos.
Voltaram para a mesa num piscar de olhos.
Restavam apenas duas pétalas.
A quarta caiu logo em seguida, sem aviso.
Era a pétala do perdão excessivo: aqueles dias em que ela o tratou mal sem motivo e ele engoliu tudo em silêncio, porque ainda acreditava que amar era aguentar.
A silhueta falou baixo:
— Sabe o que significa, não é?
A quinta pétala se soltou.
Era a pétala da traição disfarçada: o dia seguinte ao perdão, quando ela já estava grudada em outro nas suas costas.
Eles foram teletransportados para aquele momento exato.
A silhueta perguntou, quase gentil:
— Dói ver de perto, né? Ela traiu o seu amor e te deixou só.
Quando voltaram, só restava a última pétala.
Shiro a olhava com nervosismo e medo.
Ela se desprendeu sozinha.
Era a pétala da rendição.
A última parte dele que ainda tentava se agarrar à esperança de ser amado do mesmo jeito que amava.
Quando a sexta pétala tocou a madeira da mesa, a flor ficou vazia.
Shiro olhou para as próprias mãos.
Estavam completamente negras.
Olhou para a frente.
Não havia mais ninguém.
Só ele mesmo entrando na sala, sentando-se na cadeira vazia, de frente para a flor negra que agora tinha, de novo, exatamente seis pétalas.
O Shiro de mãos negras apoiou a mão na mesa.
O novo Shiro levantou o rosto e perguntou, com a mesma voz de sempre:
— Quem é você?
A resposta veio mais calma do que o necessário:
— Sou algo.
A primeira pétala caiu.
E o looping recomeçou.