Eu estava sentada na recepção de uma clínica, esperando ser chamada para entrar no consultório médico, quando vi, bem na minha frente, uma menininha linda, de vestido verde. Em poucos segundos, eu descobriria que seu nome era Agnes.
Ela se virou para trás, me cumprimentou, perguntou meu nome e disse que achava meu óculos bonito. Eu agradeci, e ela continuou dizendo que também gostava do meu cabelo. Depois, me perguntou o que eu achava bonito nela.
Comecei falando do cabelo, e ela logo quis saber:
— E o que mais?
Respondi que gostava do vestido e dos olhinhos tão grandes que ela tinha.
— Eu também achei os seus bonitos! — ela disse.
E, sem perceber, eu já estava participando de uma das brincadeiras mais bonitas que existem: elogiar e ser elogiada por alguém que eu nunca tinha visto na vida.
Ela se virou para a avó e perguntou se podia ir para trás, ficar pertinho de mim. A avó deixou, mas continuou de olho em nós, acompanhando aquela conversa inesperada.
Então Agnes começou a me mostrar tudo o que sabia fazer. Fez ponte, estrelinha, pirueta... E eu, encantada com aquela menininha tão esperta, perguntei quantos aninhos ela tinha.
— Quatro!
Até agora, não consigo acreditar que ela tinha apenas quatro anos. Era tão comunicativa, tão curiosa e tão cheia de vontade de conversar que parecia já conhecer um pouquinho de tudo.
A calculadora do meu celular estava aberta, e ela me perguntou se eu podia ensiná-la a ler os números. Claro que sim!
Ela começou a digitar números enormes, e eu precisava ler tudo o que aparecia na tela. Para ser sincera, como não sou muito boa em matemática, não sei se acertei todos aqueles milhões e bilhões. Mas, para Agnes, parecia que estava tudo certo. O importante era aprender.
Até que ela me perguntou:
— Como você sabe ler números tão grandes?
Eu respondi que era porque era um pouquinho mais velha do que ela e que, daqui a algum tempo, ela também saberia.
Ela ficou me olhando, encantada, como se eu tivesse contado um segredo muito importante.
Então, veio outra pergunta:
— É porque você é mãe?
— Não, eu ainda não sou mãe.
Ela pensou um pouquinho e perguntou:
— Então você é filha?
— Sim, eu sou filha!
E ela continuou me olhando com aqueles olhinhos curiosos, como se estivesse tentando entender melhor quem eu era.
Meu médico me chamou. Era hora de ir embora.
Me despedi dela, e Agnes me disse:
— Tchau! Agora você é minha amiga, Júlia. Eu não esqueci seu nome!
Sorri e respondi:
— Sim, somos amigas! E eu também não esqueci o seu nome.
E foi assim que, em uma manhã comum, na recepção de uma clínica, fiz uma amiga de quatro anos.
Fui embora, mas fiquei pensando naquele encontro. Em como é bonito o mundo das crianças, onde fazer amigos pode ser tão fácil, elogiar alguém acontece sem esforço e aprender é uma vontade que nunca acaba.
Agnes queria aprender a ler os números. Eu, sem perceber, estava reaprendendo a ler o mundo.
Porque as crianças têm essa capacidade tão bonita de nos lembrar de coisas que, com o tempo, vamos deixando para trás. Elas se aproximam, conversam, perguntam, elogiam e querem saber de tudo. Não precisam de grandes motivos para gostar de alguém. Às vezes, basta um sorriso, uma conversa ou a vontade de conhecer uma pessoa nova.
E fiquei pensando em como seria bom se nós, adultos, não perdêssemos isso.
Se, ao conhecer alguém, procurássemos primeiro aquilo que achamos bonito, em vez de reparar logo no que não gostamos. Se tivéssemos mais vontade de ouvir, de aprender e de conhecer as histórias dos outros. Se não tivéssemos tanto medo de nos aproximar, de demonstrar carinho ou de dizer algo bom a alguém.
Talvez o mundo fosse um pouquinho mais leve.
Eu desejo que todas as crianças possam continuar descobrindo o mundo com essa curiosidade e essa vontade de viver. Que tenham o direito de aprender, brincar, perguntar, sonhar e crescer em segurança. Que possam ser crianças sem precisar sentir medo da violência, do preconceito e do ódio.
Que nenhuma criança precise crescer antes da hora. Que nenhuma tenha sua alegria interrompida pela crueldade de um mundo que deveria protegê-la. Que todas tenham acesso ao conhecimento, ao cuidado, ao carinho e a tudo aquilo de que precisam para crescer com dignidade.
Eu desejo esse mundo para os meus possíveis futuros filhos, se Deus me permitir, mas também para todas as crianças. Para aquelas que conheço e para tantas outras que nunca vou conhecer. Porque toda criança merece crescer sabendo que o mundo também pode ser um lugar bonito, cheio de possibilidades e de pessoas dispostas a fazer o bem.
E que esse mundo comece hoje, nas pequenas atitudes de cada um de nós. Na forma como tratamos as pessoas, na paciência que temos para ouvir, no carinho que oferecemos e nas palavras bonitas que escolhemos dizer.
Que a gente aprenda a elogiar mais e julgar menos. A acolher mais e afastar menos. A ensinar, mas também a entender que nunca sabemos tanto a ponto de não termos mais nada a aprender.
E que nós, adultos, nunca deixemos de aprender com as crianças.
Que Agnes continue fazendo suas estrelinhas, descobrindo números enormes e encontrando beleza nas pessoas. Que continue fazendo amigos pelo simples prazer de conhecer alguém. Que nunca perca essa vontade de perguntar, de aprender e de dizer o que acha bonito.
Talvez ela nem se lembre de mim amanhã. Talvez aquela conversa tenha sido apenas mais uma entre tantas outras que ela ainda terá pela vida. Mas eu vou me lembrar dela. Do vestido verde, dos números na calculadora, das perguntas inesperadas e daqueles olhinhos curiosos que, por alguns minutos, me fizeram enxergar o mundo de um jeito diferente.
Naquela manhã, eu achei que estava apenas esperando minha vez de entrar no consultório. Mas a vida, de vez em quando, nos surpreende com pequenos encontros que acabam dizendo muito mais do que imaginamos.
Eu não sei se ensinei alguma coisa a Agnes naquele dia. Mas sei que ela me lembrou de algo muito importante: não precisamos de muito para fazer alguém se sentir especial. Às vezes, basta prestar atenção, oferecer um elogio sincero e estar disposta a conversar.
E talvez crescer seja isso: aprender tantas coisas ao longo da vida sem esquecer aquilo que já sabíamos quando éramos crianças.
Que o mundo não nos faça perder a delicadeza. Que o medo não nos impeça de nos aproximar. Que o ódio não fale mais alto que o carinho.
E que a gente nunca se esqueça de que, por trás de cada pessoa, existe uma história que ainda não conhecemos.
Afinal, se uma menininha de quatro anos pode transformar alguns minutos de espera em uma amizade, talvez nós também possamos transformar o mundo um pouquinho de cada vez.
Começando com um sorriso, uma pergunta, um elogio.
Começando com a coragem de sermos gentis.
E, principalmente, com a vontade de construir um mundo onde todas as crianças possam crescer sem medo e continuar sendo exatamente aquilo que são: crianças, livres para descobrir, aprender, sonhar e ser felizes.