Boa, textasso!! Maneiro, meu, belas palavras
A VIDA NÃO É BRINQUEDO
Toy Story é um filme fantástico.
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Boa, textasso!! Maneiro, meu, belas palavras
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Toy Story é um filme fantástico.
Por baixo da aventura, fala sobre medo de ser substituído, ciúme, identidade, amizade e aceitação das mudanças. Tudo isso através da visão de uma criança, através dos brinquedos.
Eu gosto muito do filme. Mas existe uma coisa que me incomodava desde criança e que eu não sabia explicar.
Às vezes, Toy Story me causava tristeza.
Na época, eu achava estranho sentir aquilo. Afinal, é uma história da Disney. Temos a jornada do herói, o perigo, a catarse maravilhosa, os personagens enfrentando seus problemas e, no final, todos ficam bem.
Era para eu simplesmente me divertir.
E eu me divertia.
Mas havia alguma coisa ali que me deixava mal.
Hoje eu acho que sei o que era.
A cena que mais me incomodava — e ainda me incomoda — é justamente uma das mais divertidas: os brinquedos se movimentando quando os humanos não estão olhando.
Para uma criança, aquilo é mágico.
Você sai do quarto e os brinquedos ganham vida. Eles conversam, brigam, dançam, têm sentimentos. Quando o humano aparece, todos congelam e voltam a ser brinquedos.
Na Disney, existe até uma experiência que brinca com isso. Você vê a sombra dos bonecos se movimentando atrás de um vidro. Quando abre a porta, eles estão parados. Às vezes dão aquela pequena mexida para completar a brincadeira.
É fantástico.
As pessoas ficam repetindo a experiência, abrindo e fechando a porta, tentando pegar os brinquedos se mexendo.
É uma catarse social e emocional maravilhosa.
Mas existe um lado assustador nisso.
Desde criança eu achava engraçado que eles fossem vivos e fingissem ser brinquedos. Eu torcia por eles. Queria que tudo desse certo.
Mas uma parte de mim tinha pena deles.
Porque, olhando agora, existe uma regra horrível naquele universo:
quando o humano olha, você precisa deixar de ser você.
O brinquedo só pode existir plenamente quando ninguém está olhando.
Diante do humano, ele precisa ficar imóvel.
Precisa representar aquilo que o outro acredita que ele é.
E talvez seja isso que eu estivesse percebendo desde criança sem conseguir colocar em palavras.
Quando reassisti adulto, comecei a enxergar Toy Story de outra maneira.
Talvez, para um adulto, o filme também possa ser lido como uma história sobre pessoas que aprendem a se adaptar à vida de outras pessoas.
Andy representa aquele outro que queremos agradar.
Queremos ser importantes para ele.
Queremos ser escolhidos.
Queremos ser aceitos.
E, para continuar ocupando aquele lugar, começamos a nos modificar.
Woody tem ciúmes de Buzz porque tem medo de ser substituído. Mas o medo é maior do que simplesmente perder um brinquedo.
É perder a própria identidade.
Se Andy não precisar mais de Woody, quem é Woody?
E existe uma coisa ainda mais estranha: Woody construiu sua identidade inteira em torno do olhar de Andy.
Ele não quer apenas ser amado.
Ele quer ser o brinquedo mais importante.
E talvez essa seja uma das coisas mais humanas do filme.
Quantas pessoas fazem isso?
Quantas pessoas começam a existir dentro da vida de outra pessoa?
Você gosta disso porque a outra pessoa gosta.
Você abandona aquilo porque ela não gosta.
Você muda a maneira de falar.
Muda o jeito de vestir.
Muda seus sonhos.
Muda sua personalidade.
Não necessariamente porque alguém ordenou.
Às vezes fazemos isso sozinhos, porque queremos continuar pertencendo.
Primeiro é uma adaptação.
Depois vira hábito.
Depois vira identidade.
Até chegar um momento em que já não sabemos mais onde termina aquilo que somos e começa aquilo que aprendemos a ser para alguém.
É quase uma espécie de síndrome de Pigmalião.
Alguém imagina quem você deveria ser.
Você tenta corresponder.
E, com o tempo, aquela imagem começa a ocupar o lugar da pessoa real.
Existe uma simbiose, mas apenas um lado parece ter o direito de definir o que é aceitável.
E isso me faz pensar nos brinquedos.
Quantas pessoas podem estar ao nosso lado e nós nunca perguntamos:
Quem é você?
Do que você gosta?
Do que você tem sede?
O que você deseja?
O que você sonha?
Você está consciente enquanto se encaixa na minha vida?
Talvez essa seja uma das coisas mais tristes de Toy Story.
Os brinquedos têm uma vida.
Mas Andy não sabe.
E talvez nem queira saber.
Para ele, são brinquedos.
Um brinquedo novo pode ocupar o lugar do antigo.
Um brinquedo quebrado pode ser abandonado.
Um brinquedo pode perder partes do corpo e continuar tentando existir.
E, mesmo assim, eles continuam lutando para permanecer naquele mundo.
Lutando para serem importantes.
Lutando para não serem esquecidos.
Lutando para continuar pertencendo.
Quando criança, eu via os brinquedos se escondendo dos humanos e achava engraçado.
Hoje existe alguma coisa profundamente triste naquela imagem.
Porque penso em quantas pessoas fazem exatamente a mesma coisa.
Elas estão vivas, mas aprenderam a ficar imóveis quando alguém olha.
Aprenderam a esconder o que sentem.
Aprenderam a esconder o que desejam.
Aprenderam a desempenhar perfeitamente o papel que esperam delas.
E talvez algumas tenham feito isso durante tanto tempo que esqueceram que estavam representando.
Toy Story continua sendo um filme sobre amizade, aventura e aceitação.
Mas talvez também seja uma história sobre uma pergunta muito mais incômoda:
quem somos quando ninguém está olhando?
E talvez a resposta mais assustadora não seja descobrir que somos diferentes.
Seja descobrir que, durante muito tempo, fomos exatamente aquilo que alguém precisava que fôssemos.
A vida pode ser divertida.
Pode ter aventura, amizade, amor, risadas e momentos maravilhosos.
Mas existe uma diferença entre brincar e viver.
A vida é divertida.
Mas não é brinquedo.
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