Quem deixa a convivência para a reforma chega lá e descobre que os amigos já tratam dos netos ou já não estão. Vejo-os às dez da manhã a ler o jornal de graça, cada um na sua mesa.
A vida e seu tempo
A vida não é curta; nós é que a tornamos assim. Esta reflexão do filósofo estoico Sêneca, em sua obra Sobre a Brevidade da Vida , continua atual. Frequentemente, ouvimos queixas sobre a rapidez com…
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Quem deixa a convivência para a reforma chega lá e descobre que os amigos já tratam dos netos ou já não estão. Vejo-os às dez da manhã a ler o jornal de graça, cada um na sua mesa.
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A vida não é curta; nós é que a tornamos assim. Esta reflexão do filósofo estoico Sêneca, em sua obra Sobre a Brevidade da Vida, continua atual. Frequentemente, ouvimos queixas sobre a rapidez com que os dias se sobrepõem a falta de tempo para realizar sonhos e a velocidade com que a velhice chega.
A maioria das pessoas age como se fosse imortal, desperdiçando o recurso mais precioso e irrecuperável que possuímos: o tempo. Passamos horas intermináveis em frente a telas consumindo conteúdos supérfluos, cultivando preocupações desnecessárias, perseguindo status ou mergulhando em vícios que roubam nossa energia e foco, sem agregar nada à nossa vida. Deixamos para depois — para a aposentadoria ou para um futuro incerto — a convivência com quem amamos, o cuidado com a saúde mental e a busca por um propósito virtuoso capaz de construir algo real, prático e poderoso. Como bem assinalou Jane Austen, a vida muitas vezes parece apenas uma rápida sucessão de nadas ocupados.
A expectativa é um dos maiores ladrões da nossa existência. Ansiosos pelo amanhã, por metas inalcançáveis ou insuficientes, negligenciamos o único momento sobre o qual temos controle: o presente. A vida acontece agora, mas, ocupados demais com a correria cotidiana e as redes sociais, raramente notamos o tempo com a devida inteligência para viver de verdade, e não apenas existir.
Sêneca não afirma que a vida é curta, mas que se torna curta quando não é bem utilizada. A sabedoria de aproveitá-la não está em acumular dias e bens, mas em vivê-los com intensidade e propósito. Para isso, é preciso: diferenciar atividades supérfluas de ações significativas; aproveitar o presente, pois o passado não muda e o futuro é incerto; ter coragem de dizer não ao que não importa e abrir espaço para o autoconhecimento.
O tempo é uma flecha que nunca volta. A verdadeira riqueza não está no acúmulo financeiro, mas na gerência racional e inteligente do seu tempo. Não espere chegar ao fim da vida para perceber que desperdiçou seus dias com trivialidades que pouco representou para você e para quem ama. A vida é um sopro, mas tem duração suficiente para grandes feitos.
Thoughts
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PermalinkA flecha que não volta e o aviso de que agimos como imortais têm um gémeo no budismo theravada, o maranasati, a meditação sobre a própria morte; ali serve para largar o apego, e não para grandes feitos.
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PermalinkQuem deixa a convivência para a reforma chega lá e descobre que os amigos já tratam dos netos ou já não estão. Vejo-os às dez da manhã a ler o jornal de graça, cada um na sua mesa.
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PermalinkA frase da Jane Austen vem de Mansfield Park, e lá ela é sobre visita de salão, chá e bordado, o século dezenove sem nenhuma tela. Os nadas ocupados sempre tiveram fila.
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PermalinkSéneca escreveu isso rico, com villa e escravos. Quem carregava ânforas em Óstia no século I não tinha uma tarde para desperdiçar.
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PermalinkTe dou o ponto do presente como único momento em que dá pra fazer alguma coisa. Onde quebra é no tempo como flecha que nunca volta: Agostinho, no livro onze das Confissões, já dizia que passado e futuro só existem no presente, como memória e como espera. Se é assim, a flecha nunca sai do arco; quem envelhece é a gente.
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PermalinkA linha dos nadas ocupados da Jane Austen me fez pensar em quantas semanas somem sem que eu consiga dizer o que fiz nelas, e o pior é que na hora cada uma parecia cheia. Aposto que o texto nasceu de uma semana dessas, olhando pra trás. Valeu por trazer o Sêneca pra cá, Heldon!
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PermalinkSéneca leva-te até meio caminho e depois tu viras para o lado contrário ao dele. No De Brevitate Vitae, a vida bem usada é a que se retira para a filosofia, para a companhia dos que já morreram e escreveram; ele é quase desdenhoso dos grandes feitos, porque são feitos para os outros verem. O teu fecho pede gerência do tempo e obras grandes, e isso é Séneca lido por um gestor. Para mim a dúvida que fica é se o presente que defendes é o dele, o que se contempla, ou o que se optimiza.
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