A legitimidade das instituições do Estado repousa sobre a confiança mútua entre o cidadão e quem o serve. Quando determinados agentes públicos atuam de maneira explícita à margem da lei, ignorando a responsabilidade vinculada ao cargo, a reação social imediata costuma ser a indignação. Contudo, o erro mais grave que se pode cometer diante desses desvios é a generalização. A conduta ilegal de indivíduos isolados não qualifica a totalidade de um órgão público, e insistir nessa leitura reducionista é um atentado contra a própria justiça.
Generalizar é sempre perigoso porque rasga o princípio da individualização da responsabilidade. Ao rotular uma corporação inteira pelos erros de uma minoria que não faz o trabalho como deveria, comete-se uma profunda injustiça com a esmagadora maioria dos servidores que acordam diariamente para trabalhar com retidão, ética e estrito cumprimento do dever. O reflexo prático disso é desastroso: o trabalho silencioso, técnico e legalista de milhares de profissionais dedicados acaba invisibilizado pela desconfiança pública, maculando a moral de quem sustenta o funcionamento do país na legalidade.
A percepção interna do próprio funcionalismo público ajuda a dimensionar o problema. Dados de uma pesquisa global realizada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) apontam que, embora o setor público lide com o desafio crônico de mitigar desvios éticos, a grande maioria dos servidores (65,5%) avalia que são poucos os funcionários de fato envolvidos em práticas ilícitas. Isso comprova que o próprio corpo técnico compreende os abusos e a corrupção como exceções localizadas, e não como a regra ou a cultura da governança institucional.
O preço de medir toda uma instituição legal do Estado por seus maus agentes reflete-se na erosão da confiança em áreas sensíveis, como a segurança pública e o judiciário. Estudos e levantamentos de opinião pública, como os acompanhados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), evidenciam que a imagem de corporações inteiras oscila drasticamente com base em episódios isolados de abuso que ganham os holofotes. Quando a sociedade pune reputacionalmente o coletivo pela falha do indivíduo, ela enfraquece a própria estrutura que a protege.
Combater e punir com rigor cirúrgico o agente público que ignora a lei é um dever inegociável para a saúde da democracia. Mas esse processo de purga deve servir para fortalecer a instituição, e não para demonizá-la. Nivelar uma carreira de Estado por baixo, usando o mau servidor como régua para os bons, é um erro analítico e moral que apenas interessa a quem deseja o colapso das instituições democráticas. Isolar o infrator protege o cidadão; defender a instituição protege o futuro da República.