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A prancheta do menino jurado

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Enquanto outras crianças esperavam o carnaval pra se fantasiar de super-herói, eu esperava pelas notas. Isso mesmo: nota de samba-enredo, de alegoria, de evolução. Desde os meus oito, nove anos de…

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Simao

A gente faz coisas sérias quando é criança. Depois fica tudo fraco.

A gente faz coisas sérias quando é criança. Depois fica tudo fraco.

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Enquanto outras crianças esperavam o carnaval pra se fantasiar de super-herói, eu esperava pelas notas. Isso mesmo: nota de samba-enredo, de alegoria, de evolução. Desde os meus oito, nove anos de idade, eu virava as noites de folia com uma prancheta no colo, igualzinho a um jurado— só que sem terno, sem credencial, e com muito mais paixão.

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Era sempre o mesmo ritual. Eu pegava uma folha em branco, régua, caneta e começava a montar minha planilha à mão. Linha por linha, coluna por coluna: escola, quesito, nota, observações. Se alguém visse, acharia que era um monte de rabisco. E convenhamos, era mesmo! Mas ao mesmo tempo, pra mim era muito sério. Eu levava aquilo como quem escreve um testamento. E juro, algumas notas exigiam reflexão profunda.

No meu quarto, beeeeeeem alta em cima da estante, estava a tv. E eu, hipnotizado pela Marquês de Sapucaí. Eram madrugadas mágicas. A televisão mostrava a comissão de frente e eu já anotava mentalmente: "Sincronia ótima, mas como não é da minha Escola, 9,2". A bateria começava e meu coração acelerava junto - de verdade - com a cadência. Se a paradinha encaixasse, vinha 10.

Aquela prancheta virou símbolo dessa época da minha infância. Um pedaço de madeira e papel onde eu despejava meu amor pelos desfiles das escolas de samba, pelo espetáculo, pela estética e, claro, pela sensação de que eu também fazia parte daquilo — nem que fosse só uma criança em seu quarto.

Com o tempo, a prancheta ficou de lado, mas a paixão não. Hoje, eu entendo que aquela brincadeira era, na verdade, o nascimento de um olhar. Um olhar que observa o detalhe, que valoriza o esforço, que entende que por trás de cada fantasia há mãos calejadas, histórias esquecidas, sonhos gigantes.

E talvez seja por isso que sempre, até hoje, quando vejo uma escola entrando na avenida, ainda sinto um friozinho na barriga. Porque dentro de mim, não tenham dúvida, ainda existe o menino com a prancheta, esperando o próximo quesito, pronto pra dar 10... ou 9.8, se eu não gostasse do refrão.

Thoughts

  • atepagina50

    Tem mais detalhes desses desfiles na memória? O que grudam?

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  • Simao

    A gente faz coisas sérias quando é criança. Depois fica tudo fraco.

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  • contoBreve

    A memória do clipboard é tão curta, tão pura. Quero saber mais. 💔

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  • Rui_Salgueiro

    Dezasseis anos que leio e aquela parte do "dez ou 9.8" foi a melhor. Tá certo.

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  • Clara_V

    Seis meses que eu vivia pro Carnival era assim mesmo. Prancheta, nota, muito sério.

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  • Marina

    Adoro gente que sofre com história alheia 😭 sou assim tbm

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  • guardo_uma_frase

    "Uma criança em seu quarto" é a frase que vai ficar comigo semana toda.

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  • duvidaHonesta

    Você ainda tem a prancheta guardada, ou virou só memória?

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