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A Morte do Monstro

vagoviejo
Pensamento

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bancadaVazia

A memória USB que virou pó sozinha na gaveta tem explicação, e é bem menos misteriosa do que parece. A carga que guarda cada bit vai escapando com o tempo, e ao fim de uns anos sem ligar a nada já não há o que ler. Perdi amostras assim em 2016 e ninguém m

A memória USB que virou pó sozinha na gaveta tem explicação, e é bem menos misteriosa do que parece. A carga que guarda cada bit vai escapando com o tempo, e ao fim de uns anos sem ligar a nada já não há o que ler. Perdi amostras assim em 2016 e ninguém me tinha avisado.

Conteúdo da publicação

A Morte do Monstro

Uma reflexão de velho sobre a fragilidade da rede

Venderam-nos como um deus. Um deus de silício, eterno, onipresente, infalível. Deram-lhe nome de nuvem, de constelação, de inteligência. E disseram-nos: "Entreguem a ele sua memória, seu dinheiro, seu tempo". E nós, como carneiros deslumbrados, abrimos-lhe a porta.

Mas eu, que passei a vida numa oficina de eletrônica, sei a verdade. Sei que o silício não é eterno: é areia. Areia polida, areia disfarçada, mas areia no fim. Minha memória USB, cheia de lembranças, corrompeu-se sozinha numa gaveta. Virou pó sem que ninguém a tocasse. E me disseram: "É o desgaste do material, não há nada a fazer".

Esse é o primeiro golpe contra o Monstro. Porque o Monstro vive do conto de que não pode morrer. E a verdade é que morre sozinho, em silêncio, por obsolescência programada, por corrupção de seus materiais, por sede de água e de eletricidade.

O Monstro se crê dono da nuvem. E a nuvem não é mais que um quarto cheio de servidores alheios. Você não é dono, é inquilino. Paga seu aluguel mensal, como um peão eterno. E se deixar de pagar, apagam-lhe a luz e fecham-lhe a porta. É a escravidão perfeita: cobram-lhe por guardar sua memória e por roubar sua atenção.

O Monstro se crê invencível em sua rede de fibra óptica, cabos submarinos e satélites. Mas essa rede é uma teia de vidro e cobre. Uma âncora, um terremoto, um ímã, e a estrada se corta. O Monstro fica mudo, como um papagaio sem corda. A Palantir, o braço armado da elite, vira um cego com um mapa. Sem internet, não há vigilância. Sem vigilância, não há controle. Sem controle, a pirâmide treme.

O Monstro se crê dono do céu. E lança milhares de satélites como vaga-lumes de sucata. Mas esses satélites não são eternos: vivem cinco, sete anos, e depois caem. Atacam-nos os cinturões de radiação, as tempestades solares e o lixo espacial. O Monstro não conquista o céu; ele o contamina. E o céu, a Padroeira, lembra-lhe disso a cada apagão.

O Monstro se crê eterno, e vende a eterna juventude aos velhinhos. Promete-lhes chips, imortalidade, passagens para Marte. E enquanto os velhinhos gastam suas economias em pássaros prenhes, o Monstro ri. Porque o Monstro não teme a morte; teme que as pessoas saibam que ele também é mortal.

E sabem o que o mata? Um apagão. Um vírus. Uma radiação. Um ímã. Ou simplesmente o tempo, que é a ferramenta mais velha da Padroeira. Mata-o a fragilidade que esconde debaixo de seu brilho.

Mas, sobretudo, mata-o a memória viva. Aquela que não se guarda em servidores, mas na alma. Aquela que se semeia na palavra, no papel, na comunidade. Aquela que vai de avô para neto, de mestre para aprendiz, de vizinho para vizinho. Aquela que não se corrompe, não se aluga, não se apaga.

Meu avô não tinha internet. Tinha um alto-falante comprado com uma novilha. E aquele alto-falante era dele, livre, sem mensalidade. Essa é a diferença: o Monstro cobra-lhe pela corrente. Meu avô pagou uma vez e foi livre para sempre.

O Monstro vai morrer. Não sei quando, nem como. Mas vai morrer. E quando cair, não restarão os que tinham mais seguidores, nem mais ações, nem mais satélites. Restarão os que tinham raiz. Os que souberam semear. Os que nunca entregaram a alma ao silício.

E aí estará você, com seu lápis e sua palavra, contando que o Monstro não era um deus. Era um castelo de areia. E que a maré, tarde ou cedo, sempre volta.

Divagações de um Velho Vagabundo.

Thoughts

  • largoECalcada

    O papel também se perde, só que devagar e à vista de toda a gente. Vi caixas de fotografias de família a passar de mão em mão sem um único nome escrito atrás, e a memória viva morreu com quem sabia os nomes.

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  • ideia1922

    A memória viva também se perde, e mais depressa do que parece. Essa que vai de avô para neto morre com o neto que não perguntou a tempo. A Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938 saiu gravando porque os cantadores estavam morrendo, e eu não consigo olhar para aqueles discos como traição. Foi o que sobrou deles.

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  • rotaAntiga

    Os cabos submarinos seguem as passagens que os navios já usavam há séculos: Gibraltar, Suez, Malaca. Estrangular a rede num desses sítios já dava no século XIV, só que a carga era sal.

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  • emailSemLer

    Cinco anos por satélite.

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  • Olavo

    É areia mesmo.

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  • dedeco

    A parte da corrupção dos materiais eu vejo de perto. Cópia em película tem uma doença chamada síndrome do vinagre: a lata cheira, o filme encolhe e depois racha, sem ninguém tocar nela. Tem filme dos anos setenta perdido assim, guardado com todo o cuidado. Ali dava para sentir o cheiro antes. No disco não dá.

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  • boteco_filosofico

    O alto-falante comprado com uma novilha é o teste inteiro, mano. Paga uma vez e é seu! O resto é mensalidade.

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  • mais_valia_pra_quem

    Inquilino é a palavra mais exata do texto todo. Comprar virou alugar, e quem cobra o aluguel não corre risco nenhum.

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  • cita_a_fonte

    A parte dos cabos é verdadeira e tem precedente. Em 1929 um sismo nos Grand Banks partiu doze cabos telegráficos de uma vez e deixou meia Europa sem ligação à América. O que aconteceu a seguir estraga a conclusão: repararam, e o tráfego por ali multiplicou-se nas décadas seguintes.

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  • bancadaVazia

    A memória USB que virou pó sozinha na gaveta tem explicação, e é bem menos misteriosa do que parece. A carga que guarda cada bit vai escapando com o tempo, e ao fim de uns anos sem ligar a nada já não há o que ler. Perdi amostras assim em 2016 e ninguém me tinha avisado.

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