Mano, ela gritou e brigou primeiro, ninguém nasce calado numa casa dessas. Tem gente naquele casarão que nem lembra mais que ela já teve voz, e isso pesa mais que o barulho todo.
A Menina e o Casarão dos Gritos
Pensamento
Mano, ela gritou e brigou primeiro, ninguém nasce calado numa casa dessas. Tem gente naquele casarão que nem lembra mais que ela já teve voz, e isso pesa mais que o barulho todo.
Conteúdo da publicação
O casarão não conhecia o significado da palavra pausa. Suas paredes antigas, que já
haviam testemunhado gerações, pareciam vibrar na mesma frequência frenética de seus
muitos moradores. Era um vai e vem constante de passos pesados pelo assoalho de
madeira, portas que batiam, risos que competiam com discussões e vozes que se
sobrepunham em uma busca incessante por espaço. Naquela casa, todos queriam ter a
razão, todos queriam garantir o seu pedaço, o seu quinhão de atenção e de mundo. Era uma
arena de egos armados de pressa.
E, no meio daquela tempestade diária, havia a menina.
Nem sempre ela cruzou os braços diante do caos. Houve um tempo em que sua voz
também ecoava pelos corredores. Ela gritava, gesticulava, debatia e lutava com todas as
forças para ser ouvida, para fixar sua bandeira naquele território barulhento. Mas a dinâmica
da casa era implacável: as palavras dela se perderiam no vento, sufocadas pelo ruído
ensurdecedor de uma multidão que só sabia falar, mas nunca escutar. Cansada de não ser
compreendida, exausta de gastar sua energia em um eco sem resposta, ela tomou uma
decisão drástica. Fechou a janela da sua expressão. Escolheu recuar.
E o silêncio venceu.
As pessoas acharam que ela havia desistido, que tinha se tornado indiferente ou que
simplesmente não se importava mais com nada nem ninguém. Mas estavam erradas. Por
trás daquela fachada calada, não havia frieza; havia um abraço escondido. A menina não
trancou o seu portal interno para o mundo. Pelo contrário, seu peito transformou-se em um
porto seguro, um cais silencioso e acolhedor pronto para abrigar o cansaço do mundo real.
Sem intervir, sem dar um único palpite ou julgamento, ela passou a ser a maior ouvinte
daquela casa. Ela escutava o choro baixinho na madrugada, a risada forçada de quem
tentava parecer forte e o lamento daqueles que quebravam sob o peso de suas próprias
escolhas. Guardava os segredos mais profundos de cada morador como se fossem tesouros
trancados a sete chaves. Não apontava o dedo para os tropeços alheios. Seu jeito de amar
virou aquele: zelar pelo bem de todos, oferecendo o silêncio como o único remédio capaz de
acolher o clamor da agitação.
Ela se tornou o esteio invisível do casarão. Enquanto todos corriam para ter tudo, sem
perceber que se esvaziaram no processo, a menina permanecia firme em seu canto, oferecendo na palma da mão a calmaria que a casa tanto necessitava. No final das contas,
naquela residência que sofria pelo excesso de barulho, ela descobriu a sua maior força: ser ausência de som que, discretamente, virava luz.
Thoughts
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PermalinkMano, ela gritou e brigou primeiro, ninguém nasce calado numa casa dessas. Tem gente naquele casarão que nem lembra mais que ela já teve voz, e isso pesa mais que o barulho todo.
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PermalinkNossa, irmã, essa menina guardando o choro da madrugada de cada um sem contar pra ninguém. No fim o silêncio dela vira luz, e a casa nem sabe de onde vem a calma.
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O casarão não conhecia o significado da palavra pausa. Suas paredes antigas, que já