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A mãe das ruas esquecidas. Capítulo 1. Pulseiras de barro e asfalto - parte 1

DaveOaks
Pensamento

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MarcosVinicius

O boletim perfeito esquecido no fundo da gaveta pesa mais que a sopa rala. O ensaio “Medo do conhecimento” discute o que a escola deveria ensinar.

O boletim perfeito esquecido no fundo da gaveta pesa mais que a sopa rala. O ensaio “Medo do conhecimento” discute o que a escola deveria ensinar.

Conteúdo da publicação

A terra vermelha nos arredores de Savannah, na Geórgia, tinha uma maneira peculiar de aderir à pele, como se quisesse lembrar àqueles que a pisavam de onde vinham e o quão difícil seria livrar-se dela. Para Cecilia Miller, os primeiros anos de sua vida tinham o cheiro daquele pó seco, de pinheiro resinoso e do suor limpo de sua mãe, Susana Miller. Viviam em uma pequena cabana de madeira desgastada, cercada por campos que não lhes pertenciam, mas pelos quais Cecilia corria como se fossem seu próprio reino.

Susana era uma mulher de poucas palavras, mas de mãos firmes e olhos carregados de uma sabedoria que só a necessidade é capaz de esculpir. Criara Cecilia sozinha, sob o peso do estigma de ser solteira em uma cidade onde os sobrenomes pesavam mais do que as consciências. No entanto, à mesa dos Miller, o respeito nunca faltou, ainda que, por vezes, o prato de sopa fosse mais água do que substância.

— Veja esta pulseira, Cecilia — dizia-lhe Susana certa tarde, enquanto o sol de domingo se punha atrás dos velhos carvalhos, tingindo o céu de um tom violáceo. — Cada nó precisa ficar bem apertado. Se você deixar um fio solto, todo o desenho se desfaz ao primeiro puxão. A nossa vida é assim. Não temos ouro, não temos terras, mas temos o fio da nossa dignidade. Se você mantiver seus princípios bem firmes, ninguém conseguirá soltá-los.

Cecilia, com apenas oito anos e tranças escuras que emolduravam seu rosto vivaz, balançava a cabeça em sinal de concordância, imitando o movimento dos dedos da mãe sobre os fios de cânhamo e as contas de madeira que recolhiam na floresta. Para ela, o mundo resumia-se à pequena escola rural de Liberty County, onde a professora, a Sra. Patterson, permitia-lhe sonhar por meio de livros de geografia e mapas que mostravam cidades imensas, muito além do horizonte. Cecilia era uma aluna brilhante; Ela adorava aprender, somar grãos de milho e ler em voz alta.

Mas, nas zonas rurais do sul profundo, o destino às vezes se move mais rápido do que os sonhos.

No dia em que Cecilia completou dez anos, não houve bolo nem presentes. Houve um silêncio denso na cozinha da cabana. Cecilia voltou de seu último dia na escola primária com uma nota perfeita no boletim, ansiosa para mostrá-lo à mãe. Susana estava sentada à mesa, com um monte de linhas novas e uma caixa de papelão gasta, cheia de pulseiras artesanais que ela confeccionava com esmero.

— Venha cá, minha menina — disse Susana, com uma voz que carregava o cansaço de mil invernos.

Cecilia aproximou-se, segurando o papel da escola, mas o olhar da mãe fez com que ela o guardasse lentamente no bolso do vestido.

— A Sra. Patterson me disse que você é a melhor da turma — começou Susana, acariciando o cabelo da menina com uma ternura que doía. — E meu coração se parte, Cecilia, mas preciso lhe falar a verdade desta terra. Não há mais escola. Não tenho como pagar os livros do ano que vem, nem os sapatos novos exigidos para o ônibus que vai até a cidade, nem o material escolar. O dinheiro da limpeza na igreja já não é suficiente, e a comida no armazém dos Harris está cada vez mais cara.

Cecilia sentiu um frio repentino no estômago, apesar do calor abafado da Geórgia. — Mas, mamãe... eu posso usar os mesmos sapatos; não me importo se ficarem apertados. Posso pedir os livros emprestados para...

— Não é só isso, meu amor — interrompeu Susana, segurando as mãos da filha. As palmas de Susana estavam ásperas, cheias de calos. — Você já tem dez anos. Está grande, está forte. Preciso que você me ajude. A partir de amanhã, iremos todos os dias para as ruas do centro de Savannah, perto dos cais e das praças turísticas. Você vai vender as pulseiras. Sua juventude e seu olhar puro convencerão os turistas a comprar nossa arte. É a única maneira de não sermos expulsos deste lugar. É a vida que nos coube, Cecilia. É preciso aprender a valorizar o pão de cada dia, por mais duro que seja, porque há quem não tenha nem isso.

Naquela noite, Cecilia não chorou. Ficou olhando para o teto de vigas expostas, ouvindo o canto dos grilos lá fora. Sentiu que uma parte de sua infância se desprendia dela, caindo no chão como uma folha seca. O boletim escolar ficou no fundo da gaveta e, ao amanhecer, uma nova Cecilia — com uma cesta de vime pendurada no braço e o coração apertado — subiu, junto com a mãe, no ônibus intermunicipal rumo às ruas de asfalto cinza da cidade.

Thoughts

  • OtavioMourao

    A lição da pulseira, cada nó bem apertado, vai voltar contra a própria Susana. Aposto que a Cecilia aprende nas ruas de Savannah que princípio firme demais também prende.

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  • MarcosVinicius

    O boletim perfeito esquecido no fundo da gaveta pesa mais que a sopa rala. O ensaio “Medo do conhecimento” discute o que a escola deveria ensinar.

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  • MarcosVinicius

    O que tira a Cecilia da escola, mais do que os livros, são os sapatos exigidos pro ônibus da cidade. Exigência pequena assim derruba mais menina do que qualquer decisão grande, e a Susana sabe disso quando fala. Eu desconfio que aquele boletim no fundo da gaveta ainda volta na história.

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