Pular para o conteúdo
Carregando…

A Ilusão Que Devora

guimaraes
Pensamento

Pensamento

tcardoso59

O giro atrás do giro para recuperar é o que mais custa de ler, porque ele já sabe o fim e continua. Conheço mais do que um assim.

O giro atrás do giro para recuperar é o que mais custa de ler, porque ele já sabe o fim e continua. Conheço mais do que um assim.

Conteúdo da publicação

O Tigrinho

Era apenas uma tela brilhando,
um tigre dourado sorrindo,
uma promessa pequena
para um homem cansado
que já não sabia mais
onde estava o seu caminho.

“É só uma vez.”
Foi assim que começou.

Uma moeda.
Uma esperança.
Um giro.

Depois outro.

E outro.

Até que aquilo que parecia brincadeira
começou a ocupar seus pensamentos,
suas noites,
seus sonhos
e seus dias.

Era ilusão.

Uma ilusão vestida de ouro,
que prometia uma vida melhor
enquanto, pelas sombras,
levava embora a vida que ele já tinha.

Perdeu dinheiro.
Perdeu tempo.
Perdeu a confiança.

E, pouco a pouco,
perdeu também quem mais o amava.

A família, antes reunida,
agora carregava lágrimas,
silêncios
e perguntas sem resposta.

“Por que você não para?”

Mas o vício não escuta conselhos.
O vício sempre promete:
“Só mais uma vez.”

E essa frase tão pequena
pode abrir um abismo enorme.

O homem já não jogava para ganhar.
Jogava para recuperar o que perdeu.

E quanto mais perdia,
mais tentava voltar.

Quanto mais tentava voltar,
mais fundo caía.

Até olhar para a própria vida
e não enxergar saída.

A vergonha virou silêncio.
O silêncio virou solidão.
A solidão virou desespero.

E, para alguns,
a dor chega a um ponto tão escuro
que surgem pensamentos
de acabar com a própria vida.

Mas essa não precisa ser a última página.

Nenhuma dívida vale uma vida.
Nenhuma aposta vale uma família.
Nenhum jogo vale uma pessoa.

O dinheiro pode voltar.
A confiança pode ser reconstruída.
Uma vida pode começar de novo.

Mas uma vida perdida
não pode ser recuperada.

Por isso, Tigrinho dourado,
guarde teu brilho para a tela.

Eu escolho outro tesouro:

o abraço da minha família,
a paz da minha consciência,
o direito de acordar amanhã
e continuar escrevendo
a minha própria história.

Porque descobri, finalmente,
que a maior vitória
não está em ganhar.

Está em não deixar a ilusão
roubar quem você é.

Autor: João Guilherme Guimarães de Souza

Thoughts

  • CarlaoDoBar

    Escuto o só mais uma vez de gente de pé no bar há anos, sempre com a mesma cara de quem já perdeu antes de apostar. Gostei do homem do poema virar as costas pro tigre no final, mas o que vejo mais é o contrário, a pessoa jura na segunda e volta na sexta.

    Permalink
  • LariCavalcanti

    Lendo no meio da correria e parei na virada da vergonha pra silêncio e do silêncio pra solidão, é assim mesmo que acontece nas casas, ninguém fala e todo mundo sabe. Você tem mais poemas sobre esse homem do tigrinho?

    Permalink
  • BeatrizSanto

    A família reunida que passa a carregar silêncios é o verso que leio duas vezes, porque o dinheiro perdido ainda se conta e o silêncio à mesa não tem conta. Acredito na parte de que a confiança se reconstrói, mas leva mais tempo do que a dívida, e é a família que paga esse prazo.

    Permalink
  • tcardoso59

    O giro atrás do giro para recuperar é o que mais custa de ler, porque ele já sabe o fim e continua. Conheço mais do que um assim.

    Permalink
  • AndreiaPontes

    O poema acerta numa coisa: a certa altura ele já nem jogava para ganhar. Quem está de fora pergunta por que não para e a resposta é essa, está a tentar voltar atrás. Não há sermão que chegue lá.

    Permalink
  • visaNegado

    Jogar pra recuperar o que perdeu é a parte que mais assusta, porque aí já virou dívida com a própria cabeça. Massa que o poema termina do lado de cá da tela, com o cara ainda escrevendo a história dele.

    Permalink
  • tia_do_zap

    Meu bem, esse homem do poema tem cara de ser alguém de perto, um marido ou um irmão, porque quem escreve o silêncio da família desse jeito viu de dentro. E o abraço no final, aquele eu guardo.

    Permalink
  • Ovid

    O tigrinho na tela aparece por aqui mais do que se imagina, em desabafo, em conto, em poema, e quase nunca termina com o homem escolhendo acordar amanhã. Fico com a impressão de que quem escreve isso já esteve do outro lado da tela, ou muito perto de alguém que esteve. Obrigado por trazer isso pra cá, @guimaraes!

    Permalink
  • sprintPerdido

    Uf, pesado.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 5 conversas 14 pensamentos 27 votos positivos 0 voto negativo 0 série

O Tigrinho

Em grupos