Plantar, ceifar, comer e celebrar me levou pras festas de fim de ano da firma, gente que passava o ano inteiro sem trocar duas palavras e numa noite só dançava junto no pátio. Aposto que você conhece alguém assim, que só aparece inteiro quando tem festa.
À deriva.
Pensamento
Plantar, ceifar, comer e celebrar me levou pras festas de fim de ano da firma, gente que passava o ano inteiro sem trocar duas palavras e numa noite só dançava junto no pátio. Aposto que você conhece alguém assim, que só aparece inteiro quando tem festa.
Conteúdo da publicação
Existem dias, ou momentos, ou fases em que não pensamos em nada importante e não temos muito a dizer. Situações em que a vida se torna como um barco à deriva e, quando nos damos conta, tudo o que desejamos é ver os ventos soprando e rompendo a inércia das águas.
Não há boas novas sendo esperadas, nem disputas a serem resolvidas. Temos por companhia a rotina nossa de cada dia, onde conhecidos rostos desconhecidos transitam pelas ruas e coletivos, como hologramas disfarçando a frieza daquilo que, em essência, é deserto. Onde o toque dos corpos não causa nada além de breves olhares de incômodo e chateação.
Encontra-se alegria e calor humano nas imagens mentais provocadas pela leitura de um livro, e tornamos a realidade da vida em paisagens de beira de estrada, passando diante de nós num piscar de olhos.
Daí a teoria do “tudo é relativo” ganha ares filosóficos e põe em xeque a própria existência.
A vida precisa de movimento, mas algo além do simples caminhar para chegar a lugares que nem sabemos se de fato queremos estar. Um movimento que dê sentido à existência e ao estado de consciência que nos faz humanos, mas também semelhantes a Deus, não um mero aglomerado de carbono vagando pela imensidão do universo.
Pois o movimento só é real quando guia o corpo.
As paisagens só tem sentido quando encantam os olhos.
A música só vem a existir quando encontra os ouvidos.
As letras acontecem apenas quando alcançam os leitores.
A arte só é arte quando prende a atenção.
E a vida só é, de fato, vida quando percebemos que não somos apenas parte do tudo, mas que tudo também foi feito para nós — não apenas para que dele tomemos conta, mas para nosso deleite, nossa alegria e nossa satisfação.
Pois não somos escravos de uma força criadora que nos faz apenas trabalhar sem voz ativa. Somos parceiros do Criador e temos a vida à nossa disposição.
Por isso plantamos, ceifamos e também comemos e celebramos a vida com grandes festas.
E então aprendemos que, mesmo à deriva e distantes dos ventos, podemos remar e trilhar nosso próprio curso. E, vez ou outra, até domar o próprio vento.
De ambas as formas, podemos alcançar novas terras e escrever novas histórias que ecoarão pela eternidade, como lendas de um tempo que insiste em existir e a vida semear.
Pois também existem dias, ou momentos, ou fases, em que pensamos em muitas coisas importantes e temos muito a dizer. Situações em que a vida se torna como um barco a plena força, conquistando os mares sem fim.
Onde a vida simplesmente acontece.
Thoughts
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PermalinkAquilo das paisagens que passam pela janela num instante é o meu dia inteiro, e há curvas que só vejo mesmo quando alguém me acena.
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PermalinkA sequência das paisagens, da música e das letras que só existem quando alguém recebe foi o trecho que eu sublinhei.
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PermalinkPlantar, ceifar, comer e celebrar me levou pras festas de fim de ano da firma, gente que passava o ano inteiro sem trocar duas palavras e numa noite só dançava junto no pátio. Aposto que você conhece alguém assim, que só aparece inteiro quando tem festa.
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PermalinkVocê abre e fecha com a mesma frase virada ao contrário, e eu fui esperando por ela desde o meio. Entre uma e outra vem o carbono, o Criador, as festas, e ali o barco pareceu parar de novo pra mim, o que é engraçado num texto que pede movimento. Aposto que essa parte do meio foi a que saiu mais fácil.
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PermalinkEsse incómodo quando alguém encosta no autocarro vejo todos os dias. Ninguém olha, toda a gente suspira.
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PermalinkIsso de as letras só existirem quando alguém as lê tem nome antigo: o Barthes fechou A morte do autor a dizer que o nascimento do leitor se paga com a morte do autor. Tu chegaste ao mesmo sítio por outro caminho, pela alegria e não pela teoria, e eu fiquei contente por ler isso.
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PermalinkLi primeiro o barco a plena força e fiquei a pensar que tinha sido fácil. Depois vi os autocarros cheios de gente que não se olha e percebi que não foi.
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PermalinkA arte que só é arte quando prende a atenção pede mais do que o texto lhe dá. Há muita coisa que existe sem plateia, e o próprio barco à deriva é prova disso.
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PermalinkEsses rostos conhecidos e desconhecidos nos coletivos me fizeram pensar em quantos anos a gente cruza as mesmas pessoas sem saber um nome. Aposto que tem alguém nesse trajeto que você reconheceria em qualquer lugar e nunca ouviu a voz. Obrigado por trazer isso pra cá!
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PermalinkEsse barco que começa parado e termina a plena força faz a volta inteira sem pressa, e eu saí do texto com vontade de ir pra rua. Dá pra ver que tu escreveu isso já do outro lado, com o vento de volta, porque o começo tem a calma de quem se lembra da deriva e não de quem ainda está nela.
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