Subir aquela escada era quase automático — a porta de saída daquela escuridão dos porões da cidade; uma luz no fim do túnel. Saindo naquela conhecida praça para onde a escada nos levava, uma luz diferente iluminou meus olhos e uma suave e fria brisa me abraçou, remetendo-me a um tempo distante, há muito oculto de minhas memórias, há muito nem sequer cogitado. E me trouxe à lembrança de você: aquela que alegrava meus dias, fomentava meus suspiros e tornava meus amanhãs seguros e desejáveis.
Tempo em que meus ideais ainda faziam de mim alguém digno do dom da vida, em que o sorriso em meus lábios refletia alegria, e nós dois parecíamos importantes peças no universo — o nosso universo. Você que completava minha existência, me dando chão e combustível para seguir sempre em frente.
Tempo que ficou no oculto de um passado que hoje nem sei se de fato existiu, de um "eu" do qual estou muito distante. Onde foi que nossos caminhos se separaram? Onde foi que erramos em não perceber que, distantes um do outro, não mais existiríamos, não mais seríamos os mesmos — ao menos eu? Sem você, meu mundo mudou, e eu mudei para o mundo.
Fui despertado daquele transe que me levou de volta a você por uma multidão que me engolia. Será que te traziam de volta para mim? Fiquei ali, de pé, entre as pessoas que passavam, esperando que, ao fim daquele fluxo, você se manifestasse. Eu procurava nos rostos anônimos algum sinal de sua presença; ora via um pedaço seu aqui, ora ali, mas seu todo não se apresentava, e percebi que você de fato ali não estava.
A tristeza surgia querendo fazer pouso, acolhendo-me com seus braços de solidão e melancolia, mas a alegria enfim veio à tona, e me deixei levar por mais uns instantes pelo dueto da luz e da brisa que me trouxeram de volta a sua essência. Pois ainda que eu não te tivesse fisicamente, sua lembrança restituiu a parte de mim que em você habitava, que ficara aprisionada em recantos bloqueados pelo tempo.
Não tive de volta você, mas tive de volta o que me levaria a me entregar novamente ao simples prazer de viver.