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Sua essência em mim.

Antonio_Goncalves
Pública 9 conversas 17 pensamentos 56 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Subir aquela escada era quase automático. Era a porta de saída daquela escuridão dos porões da cidade. Uma luz no fim do túnel. Mas, ao sair naquela conhecida praça para onde a escada nos levava,…

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Pensamento

Pensamento

NunoParreira

Reli isto ao fim do dia e o que me prendeu foi a ideia de teres mudado para o mundo, e não o mundo para ti. Aposto que essa parte apareceu depois, quando já estavas a escrever o resto.

Reli isto ao fim do dia e o que me prendeu foi a ideia de teres mudado para o mundo, e não o mundo para ti. Aposto que essa parte apareceu depois, quando já estavas a escrever o resto.

Conteúdo da publicação

Subir aquela escada era quase automático — a porta de saída daquela escuridão dos porões da cidade; uma luz no fim do túnel. Saindo naquela conhecida praça para onde a escada nos levava, uma luz diferente iluminou meus olhos e uma suave e fria brisa me abraçou, remetendo-me a um tempo distante, há muito oculto de minhas memórias, há muito nem sequer cogitado. E me trouxe à lembrança de você: aquela que alegrava meus dias, fomentava meus suspiros e tornava meus amanhãs seguros e desejáveis.

Tempo em que meus ideais ainda faziam de mim alguém digno do dom da vida, em que o sorriso em meus lábios refletia alegria, e nós dois parecíamos importantes peças no universo — o nosso universo. Você que completava minha existência, me dando chão e combustível para seguir sempre em frente.

Tempo que ficou no oculto de um passado que hoje nem sei se de fato existiu, de um "eu" do qual estou muito distante. Onde foi que nossos caminhos se separaram? Onde foi que erramos em não perceber que, distantes um do outro, não mais existiríamos, não mais seríamos os mesmos — ao menos eu? Sem você, meu mundo mudou, e eu mudei para o mundo.

Fui despertado daquele transe que me levou de volta a você por uma multidão que me engolia. Será que te traziam de volta para mim? Fiquei ali, de pé, entre as pessoas que passavam, esperando que, ao fim daquele fluxo, você se manifestasse. Eu procurava nos rostos anônimos algum sinal de sua presença; ora via um pedaço seu aqui, ora ali, mas seu todo não se apresentava, e percebi que você de fato ali não estava.

A tristeza surgia querendo fazer pouso, acolhendo-me com seus braços de solidão e melancolia, mas a alegria enfim veio à tona, e me deixei levar por mais uns instantes pelo dueto da luz e da brisa que me trouxeram de volta a sua essência. Pois ainda que eu não te tivesse fisicamente, sua lembrança restituiu a parte de mim que em você habitava, que ficara aprisionada em recantos bloqueados pelo tempo.

Não tive de volta você, mas tive de volta o que me levaria a me entregar novamente ao simples prazer de viver.

Thoughts

  • cadernoDeMargem

    Fiquei presa na tristeza querendo fazer pouso. Isso me pegou porque quem decide ali é ela, e a pessoa fica só de pé esperando pra ver se pousa ou não. Aí vem a claridade e desmonta o aviso. Me lembra aquela ideia de que a gente não escolhe o que volta, só escolhe ficar mais um pouco no lugar.

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  • brunocosta

    A parte em que vês um bocado dela em várias caras e o resto não aparece, essa ficou-me. Deve ter sido escrito no próprio dia.

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  • Rui_Salgueiro

    O que me ficou foi esperares o grupo passar todo até não sobrar ninguém. Dá para ver que já fizeste isso noutro sítio.

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  • RenataAlmeida

    Há um nome antigo para o que te aconteceu ali na praça: Proust fez um livro inteiro a partir de um bolo molhado no chá, o mesmo mecanismo de uma luz a devolver uma pessoa antes de a cabeça pedir. No teu texto foi a brisa a fazer o trabalho todo, e isso ficou comigo.

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  • NunoParreira

    Reli isto ao fim do dia e o que me prendeu foi a ideia de teres mudado para o mundo, e não o mundo para ti. Aposto que essa parte apareceu depois, quando já estavas a escrever o resto.

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  • LuizaFontes

    Aqui em casa a gente leu isso em voz alta e a minha mãe parou na parte do grupo chegando. Disse que é assim mesmo, num lugar cheio a gente vê um pedaço da pessoa em vários e o rosto inteiro não vem. Eu fiquei foi com a escada subida no automático, o corpo lembrando antes da cabeça. Deve ser uma praça que existe de verdade.

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  • Ovid

    A escada subida no automático e a praça que muda de luz lá em cima me fez pensar em quanta coisa a gente atravessa sem olhar, até que um dia o ar está diferente. Aposto que a brisa é o detalhe verdadeiro e o resto foi ficando ao redor dela. Obrigado por trazer isso pra cá!

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  • LivroDeCabeceira

    Fiquei com a parte em que a brisa chega antes da lembrança. E a alegria ganhando da tristeza no fim me deixou leve, sem apagar o que doeu.

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