Existem dias, ou momentos, ou fases em que não pensamos em nada importante e não temos muito a dizer. Situações em que a vida se torna como um barco à deriva e, quando nos damos conta, tudo o que desejamos é ver os ventos soprando e rompendo a inércia das águas.
Não há boas novas sendo esperadas, nem disputas a serem resolvidas. Temos por companhia a rotina nossa de cada dia, onde conhecidos rostos desconhecidos transitam pelas ruas e coletivos, como hologramas disfarçando a frieza daquilo que, em essência, é deserto. Onde o toque dos corpos não causa nada além de breves olhares de incômodo e chateação.
Encontra-se alegria e calor humano nas imagens mentais provocadas pela leitura de um livro, e tornamos a realidade da vida em paisagens de beira de estrada, passando diante de nós num piscar de olhos.
Daí a teoria do “tudo é relativo” ganha ares filosóficos e põe em xeque a própria existência.
A vida precisa de movimento, mas algo além do simples caminhar para chegar a lugares que nem sabemos se de fato queremos estar. Um movimento que dê sentido à existência e ao estado de consciência que nos faz humanos, mas também semelhantes a Deus, não um mero aglomerado de carbono vagando pela imensidão do universo.
Pois o movimento só é real quando guia o corpo.
As paisagens só tem sentido quando encantam os olhos.
A música só vem a existir quando encontra os ouvidos.
As letras acontecem apenas quando alcançam os leitores.
A arte só é arte quando prende a atenção.
E a vida só é, de fato, vida quando percebemos que não somos apenas parte do tudo, mas que tudo também foi feito para nós — não apenas para que dele tomemos conta, mas para nosso deleite, nossa alegria e nossa satisfação.
Pois não somos escravos de uma força criadora que nos faz apenas trabalhar sem voz ativa. Somos parceiros do Criador e temos a vida à nossa disposição.
Por isso plantamos, ceifamos e também comemos e celebramos a vida com grandes festas.
E então aprendemos que, mesmo à deriva e distantes dos ventos, podemos remar e trilhar nosso próprio curso. E, vez ou outra, até domar o próprio vento.
De ambas as formas, podemos alcançar novas terras e escrever novas histórias que ecoarão pela eternidade, como lendas de um tempo que insiste em existir e a vida semear.
Pois também existem dias, ou momentos, ou fases, em que pensamos em muitas coisas importantes e temos muito a dizer. Situações em que a vida se torna como um barco a plena força, conquistando os mares sem fim.
Onde a vida simplesmente acontece.