As dez propostas do fim estão certas, mas nenhuma diz quem as paga nem onde se corta para as ter. Protocolos de proteção e espaços de escuta custam horas de pessoas, e horas de pessoas são justamente o que as escolas não têm. Sem um orçamento ao lado, a lista fica como intenção.
A CRISE DA DOCÊNCIA NO SÉCULO XXI
Pensamento
As dez propostas do fim estão certas, mas nenhuma diz quem as paga nem onde se corta para as ter. Protocolos de proteção e espaços de escuta custam horas de pessoas, e horas de pessoas são justamente o que as escolas não têm. Sem um orçamento ao lado, a l
Conteúdo da publicação
A CRISE DA DOCÊNCIA NO SÉCULO XXI: ENTRE O CANSAÇO, O NÃO RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DO PROFESSOR, O SENTIDO DE LECIONAR E A ESPERANÇA
Autor: Psicopedagogo Institucional e Clínico Edson Carlos de Sousa Leal
RESUMO
A docência no século XXI atravessa uma crise que ultrapassa as fronteiras da sala de aula e envolve dimensões sociais, familiares, institucionais, políticas, culturais e profissionais. O professor contemporâneo é chamado a ensinar, avaliar, incluir, mediar conflitos, combater a violência, utilizar tecnologias, dialogar com famílias, desenvolver competências socioemocionais e, em diversas situações, assumir responsabilidades que extrapolam sua função profissional. Paralelamente, observa-se o desgaste da autoridade docente, o crescimento da indisciplina, a dificuldade de estabelecimento de limites e a percepção de desvalorização social da profissão. Este artigo tem como objetivo analisar a crise da docência no século XXI, relacionando quatro dimensões fundamentais: o cansaço profissional, o não reconhecimento da autoridade do professor, a crise do sentido de lecionar e a esperança como possibilidade de resistência e transformação. Discute-se, particularmente, a corresponsabilidade entre família e escola, considerando que a instituição escolar não possui condições de substituir integralmente a função educativa da família. A pesquisa é de natureza qualitativa, bibliográfica e documental, fundamentada em autores como Hannah Arendt, Paulo Freire, Maurice Tardif, António Nóvoa, José Carlos Libâneo, Miguel Arroyo, François Dubet e José Manuel Esteve, além da legislação educacional brasileira e de estudos científicos sobre saúde e trabalho docente. Defende-se que a reconstrução da autoridade pedagógica não significa retorno ao autoritarismo, mas recuperação da legitimidade profissional do professor. Conclui-se que enfrentar a crise da docência exige políticas de valorização, melhores condições de trabalho, proteção institucional, fortalecimento da relação família-escola, definição clara de responsabilidades e reconstrução do sentido social da profissão. A esperança, nesse contexto, não deve ser compreendida como ingenuidade, mas como compromisso com a possibilidade de transformação.
Palavras-chave: Docência. Autoridade docente. Família. Limites. Mal-estar docente. Valorização profissional. Esperança.
ABSTRACT
Teaching in the twenty-first century is experiencing a crisis that goes beyond the classroom and involves social, family, institutional, political, cultural and professional dimensions. Contemporary teachers are expected to teach, assess, promote inclusion, mediate conflicts, combat violence, use technologies, communicate with families, develop socio-emotional skills and, in many situations, assume responsibilities beyond their professional role. At the same time, there is a weakening of teaching authority, increasing indiscipline, difficulties in establishing boundaries and a perception of social devaluation of the profession. This article aims to analyze the crisis of teaching in the twenty-first century by relating four fundamental dimensions: professional exhaustion, the lack of recognition of teachers' authority, the crisis of the meaning of teaching and hope as a possibility of resistance and transformation. Particular attention is given to shared responsibility between family and school, considering that schools cannot fully replace the educational role of families. This qualitative, bibliographic and documentary study is based on authors such as Hannah Arendt, Paulo Freire, Maurice Tardif, António Nóvoa, José Carlos Libâneo, Miguel Arroyo, François Dubet and José Manuel Esteve, as well as Brazilian educational legislation and scientific studies on teachers' health and work. The article argues that rebuilding pedagogical authority does not mean returning to authoritarianism, but recovering the professional legitimacy of teachers. It concludes that addressing the teaching crisis requires policies for professional appreciation, improved working conditions, institutional protection, stronger family-school relationships, clear responsibilities and reconstruction of the social meaning of the teaching profession. In this context, hope should not be understood as naivety, but as a commitment to the possibility of transformation.
Keywords: Teaching. Teacher authority. Family. Boundaries. Teacher malaise. Professional appreciation. Hope.
1 INTRODUÇÃO
Há uma pergunta que precisa ser feita com coragem: quem está cuidando de quem ensina? Durante décadas, o professor foi apresentado como aquele que deveria transformar vidas, formar cidadãos, construir conhecimentos, despertar talentos e preparar crianças e jovens para o futuro. Essa imagem possui uma dimensão legítima e profundamente humana. Entretanto, o século XXI acrescentou à docência uma quantidade extraordinária de responsabilidades. O professor contemporâneo não é mais chamado apenas para ensinar conteúdos. Espera-se que ele seja mediador de conflitos, agente de inclusão, orientador emocional, articulador social, usuário de tecnologias, responsável pela aprendizagem, combatente da violência, parceiro das famílias, produtor de resultados e, algumas vezes, substituto de funções que deveriam ser compartilhadas por diferentes instituições. O problema não está em defender que a escola tenha uma função social ampla. Ela possui. O problema está em acreditar que a escola consegue resolver sozinha problemas que são produzidos por uma sociedade inteira. A crise da docência precisa ser analisada dentro desse cenário. De um lado, existe um professor que continua acreditando na educação. De outro, existe um profissional cansado. Existe o desejo de ensinar, mas também existe a necessidade de sobreviver emocionalmente ao cotidiano escolar. Existe a autoridade necessária à organização da sala de aula, mas também existem situações nas quais essa autoridade é questionada. Existe a família, que deveria constituir uma parceira essencial da escola, mas que nem sempre consegue estabelecer limites consistentes. Existe uma sociedade que cobra resultados, mas nem sempre oferece condições para que esses resultados sejam alcançados. A literatura científica brasileira tem relacionado o mal-estar docente a fatores como desvalorização profissional, sobrecarga, violência, indisciplina, dificuldades estruturais e perda de reconhecimento. Estudos também identificam relações entre violência sofrida no ambiente escolar e esgotamento profissional. Esse cenário exige uma reflexão que ultrapasse a simples culpabilização. Não basta dizer que "os alunos não têm limites". Também não basta dizer que "os professores precisam se atualizar". Não basta responsabilizar exclusivamente a família. Não basta responsabilizar exclusivamente o Estado. É necessário compreender que a educação é uma construção coletiva. Nesse sentido, este artigo procura discutir uma questão central: Como esperar que o professor continue encontrando sentido em sua profissão quando precisa ensinar em ambientes marcados pelo cansaço, pela sobrecarga, pela indisciplina, pelo questionamento da autoridade e pela transferência de responsabilidades que ultrapassam a escola?
2 PROBLEMA DE PESQUISA
Como a sobrecarga profissional, a fragilização da autoridade docente, a dificuldade de estabelecimento de limites, a transferência de responsabilidades familiares para a escola e a perda de reconhecimento social interferem no sentido atribuído pelos professores à profissão docente no século XXI?
3 OBJETIVOS
3.1 Objetivo geral
Analisar criticamente a crise da docência no século XXI, considerando as relações entre cansaço profissional, autoridade pedagógica, limites familiares, reconhecimento social, sentido de lecionar e esperança.
3.2 Objetivos específicos
a) analisar os fatores relacionados ao desgaste profissional docente;
b) discutir o conceito de autoridade pedagógica e sua diferença em relação ao autoritarismo;
c) refletir sobre a importância dos limites na formação de crianças e adolescentes;
d) discutir a corresponsabilidade entre família, escola, Estado e sociedade;
e) analisar os impactos da indisciplina e da violência sobre o trabalho docente;
f) refletir sobre o uso de celulares e tecnologias e seus impactos na relação pedagógica;
g) discutir o sentido social da profissão docente;
h) compreender a esperança como dimensão da prática educativa;
i) propor caminhos para reconstrução da autoridade e valorização profissional do professor.
4 METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental. A pesquisa bibliográfica foi construída a partir de obras clássicas e contemporâneas relacionadas à educação, trabalho docente, autoridade, família, escola, saúde profissional, indisciplina e formação de professores. Entre os principais autores utilizados encontram-se Arendt (2007), Freire (1996), Tardif (2014), Nóvoa (1992), Libâneo (1994), Arroyo (2013), Dubet (2008) e Esteve (1999). Também foram considerados estudos científicos publicados em periódicos acadêmicos sobre mal-estar docente, violência contra professores, saúde do trabalhador da educação e autoridade docente. A pesquisa documental considerou especialmente a legislação educacional brasileira, com destaque para a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.394/1996 – e o Estatuto da Criança e do Adolescente. A análise não pretende estabelecer uma relação causal simples entre família, indisciplina e crise docente. Ao contrário, busca compreender o fenômeno como resultado da interação de múltiplos fatores.
5 A DOCÊNCIA NO SÉCULO XXI: UMA PROFISSÃO SOB PRESSÃO
A escola contemporânea recebe problemas que anteriormente permaneciam mais restritos ao ambiente familiar e comunitário. Conflitos familiares, desigualdades sociais, dificuldades emocionais, violência, pobreza, exclusão, cyberbullying, excesso de exposição às redes sociais e dificuldades de convivência chegam diariamente às salas de aula. O professor precisa ensinar em meio a essa realidade. O problema é que frequentemente se espera que ele também seja capaz de solucioná-la. Essa expectativa produz uma espécie de "professor multifuncional". Ele precisa ensinar Matemática, Língua Portuguesa, História, Ciências ou Geografia, mas também precisa saber lidar com crises emocionais, conflitos familiares, problemas de comportamento e situações sociais complexas. Não se pretende negar que essas questões façam parte da escola. Elas fazem. O que se questiona é a ideia de que o professor, sozinho, tenha capacidade institucional para resolver todas elas. A literatura sobre trabalho docente mostra que a profissão foi sendo submetida a um processo de intensificação. O professor trabalha antes da aula, durante a aula e depois da aula. Planeja. Corrige. Avalia. Registra. Participa de reuniões. Preenche sistemas. Responde às famílias. Participa de formações. Resolve conflitos. Produz relatórios. Acompanha estudantes. E, muitas vezes, leva para casa aquilo que não conseguiu resolver durante o expediente. O trabalho não termina quando toca o sinal. Essa realidade ajuda a compreender por que o debate sobre saúde docente não pode ser separado do debate sobre organização do trabalho.
6 O MAL-ESTAR DOCENTE E O CANSAÇO QUE NÃO APARECE NO CONTRACHEQUE
José Manuel Esteve (1999) tornou-se uma referência fundamental na discussão do chamado "mal-estar docente". O conceito descreve uma situação na qual o professor experimenta efeitos negativos decorrentes das condições em que realiza seu trabalho. O problema é que o sofrimento docente muitas vezes permanece invisível. Um professor pode chegar à escola sorrindo e, internamente, estar esgotado. Pode ministrar uma excelente aula e sair dela completamente exausto. Pode demonstrar paciência com os estudantes enquanto enfrenta conflitos pessoais. Pode continuar cumprindo suas responsabilidades mesmo quando já não possui a mesma energia. O professor frequentemente aprende a esconder o próprio sofrimento. Estudos brasileiros apontam que o mal-estar docente envolve dimensões relacionadas à organização do trabalho, formação, identidade profissional, políticas públicas e cultura do magistério. Como sintetizam estudos sobre o tema, o sofrimento docente não deve ser naturalizado como uma característica "normal" de quem escolheu ensinar. Essa naturalização é perigosa. Quando se afirma que "professor tem que aguentar", transforma-se sofrimento em obrigação profissional. E isso é injusto.
7 QUANDO O CANSAÇO SE TRANSFORMA EM DESENCANTO
Existe uma diferença importante entre cansaço e desencanto. O cansaço pode ser temporário. O desencanto é mais profundo. O professor cansado pode pensar: "Preciso descansar." O professor desencantado começa a pensar: "Não sei mais por que estou fazendo isso." Essa segunda pergunta é muito mais grave. Porque quando o profissional perde o sentido daquilo que faz, a crise deixa de ser apenas física. Passa a ser existencial. Tardif (2014) demonstra que os saberes profissionais docentes são construídos na experiência, na formação e nas relações concretas do trabalho. O professor constrói sua identidade profissional ao longo de sua trajetória. Por isso, quando as experiências cotidianas são predominantemente marcadas por conflitos, desrespeito e impotência, a própria identidade profissional pode ser afetada. É possível que o professor continue dando aulas, mas deixe de sentir que está realizando aquilo que um dia imaginou. É a transformação silenciosa da profissão em sobrevivência.
8 AUTORIDADE DOCENTE: UMA PALAVRA QUE PRECISA SER RECUPERADA
Falar de autoridade na escola tornou-se difícil. Muitas vezes, a palavra "autoridade" é imediatamente associada ao autoritarismo. Essa associação precisa ser questionada. Autoridade não é sinônimo de violência. Autoridade não significa humilhação. Autoridade não significa gritar. Autoridade não significa impedir o diálogo. Autoridade significa, entre outras coisas, assumir responsabilidade pela condução de uma relação. Hannah Arendt (2007) apresenta uma reflexão profunda sobre a autoridade e a responsabilidade dos adultos diante das novas gerações. No contexto escolar, o adulto possui uma responsabilidade específica. O professor é responsável por ensinar. O estudante está em processo de formação. Essa assimetria não precisa significar opressão. Ela significa responsabilidade. Um professor que diz: "Agora é hora de estudar." "Guarde o celular." "Respeite seu colega." "Não é permitido agredir." "Você terá que responder pelas consequências de sua atitude." não está necessariamente sendo autoritário. Pode simplesmente estar exercendo sua responsabilidade pedagógica.
9 AUTORIDADE NÃO É AUTORITARISMO
A diferença pode ser sintetizada da seguinte forma:
Autoritarismo
baseia-se no medo;
utiliza o poder de forma arbitrária;
não admite diálogo;
humilha;
ameaça;
pode utilizar violência.
Autoridade pedagógica
estabelece limites;
orienta;
organiza;
protege;
assume responsabilidades;
dialoga;
estabelece consequências;
reconhece direitos e deveres.
O professor precisa possuir autoridade. Mas precisa utilizá-la de maneira ética. A escola democrática não pode abrir mão da autoridade. Ao mesmo tempo, a autoridade precisa respeitar os direitos dos estudantes. A questão não é escolher entre "autoridade" e "liberdade". A questão é construir uma autoridade compatível com uma educação democrática.
10 A DESAUTORIZAÇÃO DO PROFESSOR
A pesquisa intitulada "Autoridade enfraquecida, violência contra professores e trabalho pedagógico" analisou a relação entre desautorização, violência escolar e trabalho docente, encontrando elementos que associam a percepção de enfraquecimento da autoridade às dificuldades enfrentadas pelos professores. Esse fenômeno merece atenção. Imagine um professor que estabelece uma regra. O estudante desrespeita. A escola comunica a família. A família imediatamente responde: "Meu filho disse que o professor foi injusto." Sem investigação, o professor é responsabilizado. O estudante percebe. Na próxima ocorrência, a regra é novamente desafiada. O processo se repete. O problema deixa de ser apenas disciplinar. Torna-se institucional. A autoridade do professor passa a depender da aprovação imediata dos estudantes. Isso é pedagogicamente perigoso. O professor não pode depender da aprovação do aluno para exercer sua função. Ele precisa ser respeitado mesmo quando precisa dizer "não".
11 FAMÍLIA E ESCOLA: QUANDO OS LIMITES SE PERDEM
A discussão sobre limites familiares precisa ser feita com cuidado. Não existe um único modelo de família. As famílias brasileiras são diversas. Possuem diferentes condições econômicas, culturais, afetivas e sociais. Não é cientificamente adequado atribuir toda indisciplina escolar à "falta de família". Entretanto, também seria inadequado negar a importância da família na formação de valores, responsabilidades, limites e formas de convivência. A legislação brasileira reconhece a educação como dever da família e do Estado. A escola, portanto, não existe para substituir a família. Existe para desempenhar sua própria função educativa dentro de uma rede de responsabilidades. Essa distinção é fundamental.
12 "A ESCOLA NÃO TEM COMO CONSERTAR TUDO"
Essa afirmação precisa ser dita. A escola não tem como consertar tudo. Não porque a escola seja fraca. Mas porque nenhum espaço institucional possui poderes ilimitados. Se uma criança chega à escola sem aprender a respeitar regras, a escola poderá educá-la. Mas não poderá reconstruir sozinha toda a história daquela criança. Se um adolescente não possui limites em casa, a escola poderá estabelecer regras institucionais. Mas não poderá ocupar integralmente o lugar da família. Se existe conflito familiar, a escola pode acolher, encaminhar e trabalhar pedagogicamente. Mas não pode transformar-se em tribunal de todos os problemas domésticos. Se existe sofrimento psicológico, a escola pode acolher e encaminhar. Mas o professor não é psicólogo. Se existe violência, a escola precisa agir e acionar a rede de proteção. Mas o professor não é agente de segurança. A escola precisa reconhecer seus limites para conseguir cumprir melhor sua função.
13 O PERIGO DA TRANSFERÊNCIA DE RESPONSABILIDADES
A transferência de responsabilidades produz um fenômeno preocupante. A família diz: "A escola precisa educar." A escola diz: "A família precisa acompanhar." O professor diz: "Não consigo resolver sozinho." A gestão diz: "É preciso conversar com a família." A família responde: "Meu filho disse que a culpa foi do professor." E o estudante observa. Quando todos os adultos transferem responsabilidades entre si, quem perde é o processo educativo. O estudante precisa encontrar uma rede coerente de adultos. Não precisa encontrar adultos que concordem em tudo. Precisa encontrar adultos que reconheçam responsabilidades.
14 LIMITES TAMBÉM SÃO UMA FORMA DE CUIDADO
Existe uma ideia contemporânea segundo a qual estabelecer limites pode ser prejudicial à criança. Essa compreensão precisa ser problematizada. Limites podem produzir segurança. A criança precisa saber que determinadas atitudes não são aceitáveis. Precisa compreender que existem consequências. Precisa aprender a lidar com frustrações. Precisa compreender que nem todo desejo pode ser imediatamente atendido. Precisa aprender que o outro também possui direitos. Freire (1996) defende uma educação fundada no respeito, no diálogo e na autonomia. Autonomia, entretanto, não significa ausência de regras. Uma pessoa autônoma é justamente aquela que aprende progressivamente a assumir responsabilidade por suas escolhas. Por isso, limite e autonomia não são necessariamente opostos.
15 O ESTUDANTE TEM DIREITOS, MAS TAMBÉM TEM DEVERES
O debate educacional contemporâneo frequentemente enfatiza direitos. Isso é fundamental. Crianças e adolescentes possuem direitos que precisam ser respeitados. Entretanto, uma educação integral também precisa trabalhar a dimensão dos deveres. O estudante possui direito de ser respeitado. Mas também precisa respeitar. Possui direito à aprendizagem. Mas também possui responsabilidade de participar. Possui direito à proteção. Mas não possui direito de agredir. Possui direito à liberdade de expressão. Mas liberdade de expressão não significa autorização para ameaçar, humilhar ou violentar. Uma educação democrática precisa ensinar exatamente essa relação: direitos e responsabilidades caminham juntos.
16 O CELULAR EM SALA DE AULA E A DISPUTA PELA ATENÇÃO
A tecnologia trouxe enormes possibilidades para a educação. Entretanto, também criou novos desafios. O celular disputa permanentemente a atenção do estudante. Uma aula de cinquenta minutos compete com notificações, vídeos curtos, mensagens, jogos, redes sociais e múltiplas formas de entretenimento. Nesse cenário, o professor não disputa apenas com outro professor. Disputa com uma economia da atenção. O problema não é simplesmente o aparelho. A questão é seu uso. Quando o celular é utilizado pedagogicamente, pode ampliar possibilidades. Quando utilizado de forma incompatível com a atividade escolar, pode comprometer a concentração. Por isso, regras claras são necessárias. O professor precisa poder estabelecer: "Durante esta atividade, o celular ficará guardado." Essa regra precisa ser conhecida previamente e aplicada institucionalmente.
17 INDISCIPLINA: O PROFESSOR COMO GERENTE DE CONFLITOS
Um dos maiores desgastes da docência contemporânea está relacionado ao tempo gasto com a administração da indisciplina. Cada interrupção possui um custo. Um estudante conversa. Outro responde. Outro utiliza o celular. Outro levanta. Outro provoca o colega. Outro interrompe. O professor precisa parar. Intervir. Explicar. Retomar. E, quando finalmente consegue reorganizar a turma, perdeu parte significativa do tempo destinado à aprendizagem. Estudos sobre trabalho docente mostram que a gestão da indisciplina constitui importante fonte de esforço e sofrimento para professores. A questão precisa ser analisada institucionalmente. Não pode depender apenas da capacidade individual do professor.
18 VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES: QUANDO ENSINAR SE TORNA UM RISCO
A violência escolar não atinge apenas estudantes. Professores também podem ser vítimas de agressões verbais, ameaças, humilhações, intimidações e agressões físicas. Pesquisa publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva analisou professores da rede pública municipal de São Paulo e encontrou associação entre agressões sofridas no ambiente escolar e esgotamento profissional entre os participantes. O dado é importante porque demonstra que violência não é simplesmente um problema disciplinar. Ela também pode constituir um problema de saúde ocupacional. Quando o professor entra na sala de aula com medo, existe uma ruptura da relação pedagógica. O medo não combina com liberdade intelectual. A ameaça não combina com aprendizagem. A insegurança não combina com criatividade. Uma escola que não protege seus professores também compromete seus estudantes.
19 A CRISE DE AUTORIDADE COMO CRISE INSTITUCIONAL
É inadequado afirmar que toda perda de autoridade é culpa do professor. A autoridade docente também depende da instituição. Um professor pode estabelecer uma regra, mas precisa saber que a instituição dará respaldo quando a regra for legitimamente questionada. Caso contrário, cria-se uma situação de fragilidade. O professor fala. O estudante desafia. A família contesta. A gestão recua. O professor fica sozinho. Esse isolamento produz desânimo. A autoridade precisa ser institucionalmente sustentada. Não significa que toda reclamação contra o professor deva ser rejeitada. Significa que toda reclamação precisa ser analisada com seriedade, ouvindo todas as partes. A escola deve ser espaço de justiça, não de defesa automática de qualquer lado.
20 A PROFISSÃO DOCENTE E O RECONHECIMENTO SOCIAL
Valorizar professor não significa apenas aumentar salário. Embora remuneração seja elemento indispensável da valorização profissional, reconhecimento possui dimensão mais ampla. Valorizar significa:
garantir condições adequadas;
respeitar a autonomia pedagógica;
proteger contra violência;
assegurar formação continuada;
reduzir burocracias desnecessárias;
garantir recursos;
ouvir os profissionais;
reconhecer sua expertise;
assegurar carreira;
possibilitar tempo adequado para planejamento;
fortalecer a saúde ocupacional.
A literatura científica sobre mal-estar docente destaca justamente a relação entre organização do trabalho, identidade profissional, reconhecimento e saúde. O discurso social costuma dizer: "Professor é importante." Mas reconhecimento verdadeiro começa quando essa afirmação se transforma em práticas concretas.
21 O PROFESSOR NÃO É UM SACERDOTE
Durante muito tempo, a profissão docente foi associada à ideia de vocação. Essa concepção possui um lado positivo: ensinar envolve compromisso humano. Mas existe um perigo. Quando o professor é tratado como alguém movido exclusivamente por vocação, pode surgir a expectativa de que ele aceite qualquer condição de trabalho. "Ele ensina por amor." "Ele precisa compreender." "Ele trabalha por vocação." "Ele precisa ter paciência." "Ele precisa dar conta." Não. Professor é profissional. Possui direitos trabalhistas. Possui formação. Possui conhecimentos especializados. Possui responsabilidades. Possui limites. Possui necessidades humanas. A ideia de vocação não pode ser utilizada para justificar exploração.
22 TARDIF E OS SABERES DOCENTES
Tardif (2014) demonstra que os saberes dos professores não são produzidos apenas nos livros ou nas universidades. São construídos também na experiência. O professor aprende com a prática. Aprende com os estudantes. Aprende com colegas. Aprende com erros. Aprende com situações inesperadas. Aprende ao longo da carreira. Por isso, desvalorizar o professor significa também desvalorizar um profissional que acumulou um conjunto de conhecimentos construídos durante anos. Um professor experiente conhece situações que nenhum manual consegue prever. Conhece o comportamento de uma turma. Sabe quando uma atividade vai funcionar. Reconhece sinais de conflito. Percebe mudanças no comportamento dos estudantes. Identifica dificuldades. Essa experiência possui valor pedagógico.
23 NÓVOA E A IDENTIDADE PROFISSIONAL
António Nóvoa (1992) contribui para compreender que a formação docente não pode ser separada da identidade profissional. O professor não é uma máquina de transmitir conhecimento. É uma pessoa. Possui história. Possui experiências. Possui emoções. Possui expectativas. Possui frustrações. Possui sonhos. Quando a escola exige que o professor deixe sua humanidade do lado de fora da sala, produz uma contradição. A docência é uma profissão humana. E justamente por isso precisa de condições humanas de trabalho.
24 FREIRE E A ESPERANÇA
Paulo Freire (1996) apresenta uma concepção de educação inseparável da esperança. Uma de suas formulações mais conhecidas afirma:
"Ensinar exige alegria e esperança." (FREIRE, 1996, p. 72).
A frase possui grande força no contexto atual. Porque talvez o maior perigo da crise docente não seja apenas o cansaço. Se o professor estiver cansado, pode descansar. Se estiver sobrecarregado, políticas públicas podem reduzir a sobrecarga. Se estiver desvalorizado, políticas de valorização podem contribuir para modificar a situação. Mas quando o professor perde completamente a esperança, o problema torna-se mais profundo. A esperança é aquilo que permite ao educador continuar acreditando que a realidade pode ser transformada.
25 ESPERANÇA NÃO É INGENUIDADE
Esperança não significa acreditar que tudo dará certo. Não significa fingir que a violência não existe. Não significa ignorar a indisciplina. Não significa aceitar desrespeito. Não significa suportar condições ruins indefinidamente. Esperança significa não considerar os problemas como definitivos. Freire apresenta uma educação fundada na possibilidade. O professor esperançoso não é aquele que não enxerga a crise. É aquele que enxerga a crise e, apesar dela, continua procurando caminhos.
26 O SENTIDO DE LECIONAR
A crise do sentido é uma das dimensões mais profundas da docência. Em algum momento da carreira, muitos professores perguntam: "Ainda vale a pena?" Essa pergunta não deve ser ridicularizada. É uma pergunta humana. A resposta não pode ser simplesmente: "Claro que vale." É necessário reconstruir concretamente as condições para que valha. Se ensinar significa enfrentar violência diária sem apoio, o sentido fica ameaçado. Se ensinar significa trabalhar permanentemente em condições precárias, o sentido fica ameaçado. Se ensinar significa ser responsabilizado por tudo, o sentido fica ameaçado. Se ensinar significa não ter autonomia, o sentido fica ameaçado. Portanto, recuperar o sentido da docência não depende apenas de motivação individual. Depende também de mudanças institucionais.
27 QUANDO O PROFESSOR DEIXA DE SER PROFESSOR E PASSA A SER "BOMBEIRO"
Existe uma metáfora importante: o professor contemporâneo muitas vezes trabalha como bombeiro. Apaga incêndios. Resolve conflitos. Contorna problemas. Evita explosões. Atende emergências. E, depois que tudo termina, tenta encontrar algum tempo para ensinar. Essa inversão precisa ser corrigida. O professor precisa ensinar. A escola precisa possuir mecanismos para que problemas disciplinares e sociais sejam encaminhados sem retirar do professor toda a responsabilidade pela gestão dos conflitos. O professor não pode passar a maior parte da aula administrando comportamentos. Ele precisa ter condições de produzir aprendizagem.
28 A FAMÍLIA COMO PARCEIRA DA ESCOLA
A participação da família não deve acontecer apenas quando surge um problema. Família e escola precisam construir uma relação permanente. A família precisa acompanhar:
frequência;
aprendizagem;
comportamento;
rotina de estudos;
uso de tecnologias;
convivência;
cumprimento de regras.
A escola, por sua vez, precisa:
comunicar;
orientar;
acolher;
ouvir;
informar;
criar oportunidades de participação;
respeitar as diferentes realidades familiares.
A parceria não significa concordar em tudo. Significa dialogar.
29 QUANDO A FAMÍLIA DESAUTORIZA A ESCOLA
Um dos fenômenos mais delicados ocorre quando o estudante percebe que qualquer intervenção escolar será imediatamente contestada em casa. Isso pode gerar um efeito pedagógico negativo. A criança aprende que pode recorrer a outro adulto sempre que for contrariada. Por isso, a família precisa ouvir antes de julgar. Quando um professor relata um problema, isso não significa automaticamente que ele esteja certo. Mas também não significa automaticamente que esteja errado. É necessário investigar. Ouvir o estudante. Ouvir o professor. Ouvir testemunhas quando necessário. Analisar registros. E construir uma resposta educativa.
30 A ESCOLA TAMBÉM PRECISA SABER RECONHECER SEUS ERROS
Defender a autoridade docente não significa afirmar que o professor nunca erra. Professores erram. Gestores erram. Famílias erram. Estudantes erram. Instituições erram. Uma escola democrática precisa ser capaz de reconhecer seus próprios erros. Autoridade verdadeira não depende da infalibilidade. Depende da legitimidade. Um professor que admite: "Eu errei." não perde necessariamente autoridade. Pode, ao contrário, demonstrar maturidade. O problema é quando a escola exige que o professor esteja sempre certo e, ao mesmo tempo, o estudante seja sempre tratado como vítima. Educação exige justiça.
31 UMA NOVA CULTURA DE RESPONSABILIDADE
Talvez seja necessário substituir a cultura da culpabilização por uma cultura da responsabilidade. Culpabilização pergunta: "Quem foi o culpado?" Responsabilidade pergunta: "Quem precisa fazer o quê?" Essa diferença é enorme. Diante da indisciplina: Quem precisa agir? Professor? Gestão? Família? Estudante? Rede de proteção? Todos? Diante da violência: Quem precisa proteger? Quem precisa registrar? Quem precisa encaminhar? Quem precisa acompanhar? Diante da baixa aprendizagem: Quais fatores estão envolvidos? Quais estratégias podem ser modificadas? Que suporte é necessário? Essa abordagem evita simplificações.
32 PROPOSTAS PARA ENFRENTAR A CRISE DA DOCÊNCIA
32.1 Fortalecer a autoridade pedagógica
As escolas precisam construir regras claras, conhecidas por todos e aplicadas com justiça.
32.2 Criar protocolos de proteção ao professor
Situações de ameaça, agressão e violência precisam possuir procedimentos institucionais.
32.3 Fortalecer a participação familiar
Família deve participar antes que o problema se torne uma crise.
32.4 Reduzir a sobrecarga burocrática
O tempo do professor deve ser prioritariamente utilizado para ensinar, planejar e acompanhar aprendizagens.
32.5 Criar espaços de escuta
Professores precisam ter espaços institucionais para discutir dificuldades.
32.6 Investir em formação
Formação deve abordar não apenas conteúdo e metodologia, mas também conflitos, inclusão, tecnologias, comunicação e convivência.
32.7 Trabalhar limites com estudantes
Limites precisam ser compreendidos como parte da formação para a cidadania.
32.8 Desenvolver políticas de saúde docente
Cuidar da saúde do professor não pode acontecer apenas quando ele adoece.
32.9 Valorizar a experiência profissional
Professores experientes precisam ser reconhecidos como produtores de conhecimento.
32.10 Reconstruir o sentido da profissão
É preciso criar condições para que o professor volte a sentir que seu trabalho possui significado.
33 O PROFESSOR PRECISA DE APOIO, NÃO DE CULPA
Quando um professor apresenta sinais de esgotamento, a primeira reação não deveria ser: "Ele precisa ser mais resiliente." É necessário perguntar: "O que está produzindo esse esgotamento?" Essa mudança de pergunta é fundamental. A resiliência individual possui limites. Não se pode exigir que um profissional seja infinitamente resistente diante de condições estruturalmente adversas. É necessário cuidar das pessoas e também modificar as condições que produzem sofrimento.
34 O CHÃO DA ESCOLA PRECISA SER OUVIDO
Muitas decisões educacionais são tomadas distante da sala de aula. Planos são elaborados. Metas são definidas. Indicadores são construídos. Avaliações são aplicadas. Relatórios são produzidos. Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar todas essas decisões: O que está acontecendo no chão da escola? É no chão da escola que o professor enfrenta:
a turma cheia;
o estudante com dificuldade;
o conflito;
o celular;
a família;
a violência;
a inclusão;
a avaliação;
o planejamento;
o cansaço.
Ouvir esse profissional não significa entregar a ele todas as decisões. Significa reconhecer que nenhuma política educacional pode ignorar aqueles que executam diariamente o trabalho pedagógico.
35 CONSIDERAÇÕES FINAIS A crise da docência no século XXI não pode ser explicada por uma única causa. Ela resulta de uma combinação de fatores. Existe uma transformação cultural. Existe uma mudança nas relações familiares. Existe uma nova relação dos estudantes com a autoridade. Existem novas tecnologias. Existe intensificação do trabalho. Existe violência. Existe indisciplina. Existe desvalorização. Existe burocratização. Existe cobrança. Existe sofrimento. Mas também existe esperança. O professor do século XXI encontra-se diante de uma contradição. Nunca se exigiu tanto da escola. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário discutir as condições daqueles que fazem a escola funcionar. O professor precisa ensinar. Mas não pode ser responsabilizado por tudo. A família precisa participar. Mas não pode transferir toda a educação para a escola. O estudante possui direitos. Mas também precisa aprender responsabilidades. A escola precisa ser democrática. Mas democracia não significa ausência de limites. O professor precisa dialogar. Mas diálogo não significa ausência de autoridade. A autoridade precisa ser recuperada. Não a autoridade autoritária. Não a autoridade baseada no medo. Não a autoridade que humilha. Mas a autoridade pedagógica que orienta, organiza, protege e ensina. A escola precisa ser espaço de liberdade. Mas liberdade sem responsabilidade pode transformar-se em desorganização. A família precisa exercer sua função. A escola precisa exercer a sua. O Estado precisa garantir políticas públicas. E a sociedade precisa compreender que educação não é responsabilidade exclusiva de quem está diante do quadro. Talvez uma das maiores injustiças cometidas contra o professor seja exigir que ele seja capaz de resolver aquilo que a própria sociedade não conseguiu resolver. Não é possível exigir que uma única profissão repare todas as fragilidades sociais. A escola pode transformar. Mas não pode fazer milagres. O professor pode orientar. Mas não pode substituir todos os adultos. O professor pode ensinar limites. Mas não pode ser o único responsável pela construção desses limites. O professor pode acolher. Mas não pode carregar sozinho todas as dores dos estudantes. O professor pode incentivar. Mas também precisa ser incentivado. O professor pode dar esperança. Mas também precisa ter esperança. É nesse ponto que Paulo Freire permanece atual. A esperança não significa negar a realidade. Significa acreditar que a realidade não precisa permanecer como está. Por isso, a crise da docência não deve conduzir ao abandono da esperança. Deve conduzir à responsabilidade. Responsabilidade das famílias. Responsabilidade dos gestores. Responsabilidade das políticas públicas. Responsabilidade dos estudantes. Responsabilidade da sociedade. E responsabilidade do próprio professor consigo mesmo. O professor precisa compreender que cuidar de si também é parte da profissão. Ele não precisa ser invencível. Não precisa suportar tudo. Não precisa aceitar desrespeito como parte natural do trabalho. Não precisa carregar sozinho a escola. Ele precisa de uma rede. Uma rede de proteção. Uma rede de apoio. Uma rede institucional. Uma rede familiar. Uma rede social. Porque ninguém educa sozinho. E ninguém deveria adoecer sozinho tentando educar uma sociedade inteira. A crise da docência talvez não seja apenas uma crise do professor. É também uma crise de reconhecimento social do valor da educação. Quando um professor é desrespeitado, não é apenas uma pessoa que sofre. A própria ideia de educação é atingida. Quando um professor é ameaçado, a escola é atingida. Quando um professor é humilhado, a autoridade pedagógica é atingida. Quando um professor abandona a profissão por não suportar mais as condições de trabalho, perde-se experiência, conhecimento e continuidade. Por isso, defender o professor não significa colocá-lo acima do estudante. Significa reconhecer que professor e estudante precisam um do outro para que exista educação. A escola precisa proteger o estudante. Mas também precisa proteger o professor. Precisa ensinar direitos. Mas também deveres. Precisa ensinar liberdade. Mas também responsabilidade. Precisa ensinar diálogo. Mas também respeito. Precisa ensinar autonomia. Mas também limites. E precisa ensinar esperança. Porque, no final, talvez seja essa a maior missão da educação: não convencer as novas gerações de que o mundo está pronto, mas prepará-las para compreender que o mundo pode ser transformado. O professor cansado precisa descansar. O professor desvalorizado precisa ser reconhecido. O professor ameaçado precisa ser protegido. O professor desautorizado precisa encontrar respaldo institucional. E o professor que perdeu o sentido precisa reencontrar uma razão para continuar. Não porque tenha obrigação de suportar tudo. Mas porque ensinar, quando realizado com dignidade, respeito e condições adequadas, continua sendo uma das formas mais profundas de participar da construção do futuro. A esperança do professor não pode ser usada para justificar seu sofrimento. A esperança deve ser utilizada para transformar as condições que produzem esse sofrimento.
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
DUBET, François. O que é uma escola justa? A escola das oportunidades. São Paulo: Cortez, 2008.
ESTEVE, José Manuel. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. Bauru: EDUSC, 1999.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
NÓVOA, António (org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.
PARO, Vitor Henrique. Qualidade do ensino: a contribuição dos pais. São Paulo: Xamã, 2000.
PENTEADO, Regina Zanella; SOUZA, Samuel de. Mal-estar, sofrimento e adoecimento do professor: de narrativas do trabalho e da cultura docente à docência como profissão. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 135-153, 2019.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
VIEIRA, Jerusa da Silva et al. Trabalho e saúde de professoras e professores no Brasil: reflexões sobre trajetórias das investigações, avanços e desafios. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 2019.
Thoughts
-
PermalinkO pedido de protocolos para cada situação deixa-me de pé atrás. Um protocolo novo costuma chegar com um formulário novo, e a 32.4 pede exatamente menos papel. Aposto que a escola recebe o primeiro sem o segundo.
-
PermalinkAs dez propostas do fim estão certas, mas nenhuma diz quem as paga nem onde se corta para as ter. Protocolos de proteção e espaços de escuta custam horas de pessoas, e horas de pessoas são justamente o que as escolas não têm. Sem um orçamento ao lado, a lista fica como intenção.
-
PermalinkDiscordo de tirar o salário do centro. Quando o piso não paga o aluguel, o professor pega três escolas, e aí não sobra tempo de planejar nem cabeça pra autoridade nenhuma. O resto da lista da seção 20 vem depois disso.
-
PermalinkA seção do professor que não é sacerdote me fez pensar nos anúncios de vaga para enfermagem, assistência social e escola, que quase sempre pedem vocação antes de falar de salário. Aposto que muita gente que concorda com o seu artigo inteiro ainda usa essa palavra sem perceber o que ela cobra. Obrigado por publicar um texto desse tamanho aqui!
-
PermalinkO capítulo de Arendt aqui citado é A crise na educação, de 1958, pensado para as escolas americanas. A tese dela é mais dura do que parece: a autoridade cai quando os adultos deixam de responder pelo mundo que entregam aos novos. Isso tira o centro do aluno e põe-no nos adultos, o que dá razão à secção sobre a transferência de responsabilidades.
Related posts
-
O analfabetismo no Brasil
O analfabetismo no Brasil
-
Conclusão do meu TCC (crítica profissional)
Após a análise dos dados, dentro das escolas participantes da pesquisa e pela exposição da opinião dos alunos e professores do ensino médio na rede pública de ensino da zona leste de Joinville com…
-
Domínio de sala de aula
Domínio de sala de aula: quando a responsabilidade da família e do Estado é colocada sobre o professor
-
Educação Infantil é apenas brincar e cuidar?
Educação Infantil é apenas brincar e cuidar?
-
A Terceirização da Gestão e o Ensino Híbrido
As avaliações em larga escala e a padronização digital massiva (como os slides obrigatórios da SEDUC) funcionam como a infraestrutura técnica necessária para que essa transição ocorra no futuro.
-
Palestrantes que falam sobre educação
Palestrantes que falam sobre educação, mas não conseguem sustentar dez minutos dentro de uma sala de aula
-
Educação sexual e gênero
Educação sexual e gênero: diversidade, prevenção, família, escola, direitos e respeito às minorias
-
Aprovação automática: avanço pedagógico ou ilusão escolar?
Aprovação automática: avanço pedagógico ou ilusão escolar?
A CRISE DA DOCÊNCIA NO SÉCULO XXI: ENTRE O CANSAÇO, O NÃO RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DO PROFESSOR, O SENTIDO DE LECIONAR E A ESPERANÇA