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O analfabetismo no Brasil

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O analfabetismo no Brasil

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O analfabetismo no Brasil

Por: Professor Psicopedagogo Institucional e Clínico - Edson Carlos de Sousa Leal

Introdução

O analfabetismo ainda constitui um dos principais desafios sociais e educacionais do Brasil. Embora o país tenha apresentado avanços importantes nas últimas décadas, milhões de brasileiros ainda não dominam a leitura e a escrita. O problema não se limita à capacidade de decifrar palavras: está relacionado às oportunidades de participação social, ao acesso ao trabalho, à autonomia e ao exercício da cidadania.

A Constituição Federal de 1988 estabelece que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família”, devendo contribuir para o desenvolvimento da pessoa, para a cidadania e para a qualificação profissional. Dessa forma, combater o analfabetismo não é apenas uma questão educacional, mas também uma responsabilidade social e política.

O cenário atual do analfabetismo brasileiro

De acordo com os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE, referentes a 2024, a taxa de analfabetismo da população brasileira de 15 anos ou mais caiu para 5,3%, contra 6,7% em 2016. Apesar da redução, o problema continua marcado por fortes desigualdades regionais.

A Região Nordeste apresenta uma situação particularmente preocupante: em 2024, sua taxa de analfabetismo foi de 11,1%, aproximadamente o dobro da média nacional. Os estados com as maiores taxas foram Alagoas (14,2%) e Piauí (13,8%), seguidos por Maranhão, Paraíba, Ceará e outros estados nordestinos.

É importante diferenciar maior taxa de maior número absoluto de pessoas analfabetas. Estados muito populosos podem possuir grande quantidade de pessoas analfabetas mesmo apresentando uma taxa proporcional menor. O Censo 2022, por exemplo, contabilizou 11.403.801 pessoas de 15 anos ou mais não alfabetizadas no Brasil, equivalentes a 7% dessa população. Assim, quando se analisa a quantidade absoluta, estados populosos, como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, também assumem grande importância no enfrentamento do problema. Já quando se considera a proporção da população, o Nordeste concentra os índices mais elevados.

Principais causas

O analfabetismo brasileiro possui causas históricas e sociais. Entre elas está a desigualdade socioeconômica, que dificulta o acesso e a permanência na escola. Muitas crianças e adolescentes precisam abandonar os estudos para trabalhar, ajudar no sustento familiar ou cuidar de familiares.

Outro fator importante é a desigualdade regional. Durante décadas, determinadas regiões brasileiras tiveram menor acesso a escolas, professores, infraestrutura e políticas educacionais. O próprio IBGE destaca que o acesso ao direito à alfabetização não ocorreu no mesmo período em todas as regiões do país, evidenciando a forte desigualdade regional.

A pobreza também está diretamente relacionada ao problema. Famílias em situação de vulnerabilidade podem enfrentar dificuldades com transporte, alimentação, material escolar e acesso às tecnologias. Além disso, a distância entre a residência e a escola, principalmente em áreas rurais, pode dificultar a frequência escolar.

Outro aspecto é a própria trajetória educacional dos adultos. Grande parte dos analfabetos está concentrada nas faixas etárias mais velhas. Isso significa que o combate ao problema exige não apenas garantir que crianças permaneçam na escola, mas também oferecer oportunidades para que jovens, adultos e idosos possam aprender ao longo da vida.

Consequências do analfabetismo

As consequências do analfabetismo ultrapassam o ambiente escolar. Uma pessoa que não sabe ler e escrever encontra maiores dificuldades para acessar informações, compreender documentos, utilizar determinados serviços públicos, acompanhar notícias, lidar com tecnologias e exercer plenamente seus direitos.

No mercado de trabalho, a baixa escolaridade pode limitar as oportunidades profissionais e dificultar o acesso a empregos que exigem determinadas competências. Dessa forma, o analfabetismo pode contribuir para a manutenção de ciclos de pobreza e desigualdade.

Também existem consequências sociais e psicológicas. A pessoa analfabeta pode sentir vergonha ou insegurança em situações cotidianas que exigem leitura e escrita, como preencher um formulário, ler uma placa, utilizar um aplicativo ou assinar documentos.

Nesse sentido, o problema não deve ser tratado como uma deficiência individual. O analfabetismo é também resultado de desigualdades históricas e da falta de oportunidades educacionais. A responsabilidade por sua superação, portanto, deve ser compartilhada pelo poder público e pela sociedade.

O papel da Educação de Jovens e Adultos

Uma das principais estratégias para enfrentar o analfabetismo entre a população adulta é fortalecer a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que a EJA é destinada às pessoas que não tiveram acesso ou continuidade dos estudos na idade própria e a define como instrumento de educação e aprendizagem ao longo da vida.

A legislação também determina que sejam consideradas as características, os interesses e as condições de vida e trabalho dos estudantes. Isso é fundamental porque muitos alunos da EJA são trabalhadores e precisam conciliar estudo, emprego e responsabilidades familiares.

A escola, portanto, precisa ser acolhedora e desenvolver metodologias relacionadas à realidade dos estudantes. Alfabetizar um adulto não significa simplesmente ensinar letras e palavras, mas possibilitar que ele compreenda e participe de maneira mais autônoma do mundo em que vive.

Como afirma Paulo Freire:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.

(FREIRE, 1989).

Essa concepção demonstra que o processo de alfabetização deve partir das experiências e dos conhecimentos que o estudante já possui, relacionando o aprendizado escolar às situações concretas de sua vida.

O que pode ser feito para mudar essa realidade?

A redução do analfabetismo exige políticas públicas permanentes e articuladas. Em primeiro lugar, é necessário garantir a permanência das crianças e dos adolescentes na escola, combatendo a evasão e oferecendo condições adequadas de aprendizagem desde os primeiros anos.

Também é fundamental ampliar e fortalecer a EJA, com horários flexíveis, escolas próximas das comunidades, transporte, alimentação escolar e materiais pedagógicos adequados. A própria legislação prevê ações para favorecer o acesso e a permanência do trabalhador na escola.

Outra medida importante é investir na formação e valorização dos professores, especialmente daqueles que trabalham com alfabetização e educação de adultos. Professores preparados conseguem desenvolver práticas pedagógicas mais adequadas às diferentes necessidades dos estudantes.

É igualmente necessário ampliar o acesso à tecnologia e à inclusão digital. Atualmente, saber ler e escrever está cada vez mais relacionado à capacidade de utilizar celulares, aplicativos, serviços digitais e outras ferramentas tecnológicas. Portanto, alfabetização e inclusão digital devem caminhar juntas.

Além disso, políticas de combate à pobreza precisam estar associadas às políticas educacionais. Quando uma família possui condições dignas de alimentação, moradia, transporte e trabalho, aumentam as possibilidades de que crianças permaneçam na escola e adultos consigam retornar aos estudos.

Conclusão

O analfabetismo no Brasil é uma realidade que não pode ser explicada por uma única causa. Ele resulta de desigualdades econômicas, sociais, regionais e educacionais construídas historicamente. Embora os indicadores demonstrem uma evolução positiva, a taxa nacional chegou a 5,3% em 2024, milhões de brasileiros ainda permanecem privados de uma condição essencial para o exercício pleno da cidadania.

Os dados do IBGE mostram que o Nordeste continua sendo a região mais afetada proporcionalmente, com destaque para Alagoas e Piauí, que apresentaram as maiores taxas em 2024. Entretanto, o problema também precisa ser enfrentado nos estados mais populosos, onde a quantidade absoluta de pessoas analfabetas pode ser expressiva.

Mudar essa realidade exige mais do que criar campanhas temporárias. É necessário garantir uma educação pública de qualidade desde a infância, combater a evasão escolar, fortalecer a EJA, investir nos profissionais da educação e criar condições para que os adultos possam estudar sem abandonar o trabalho e suas responsabilidades familiares.

Em síntese, combater o analfabetismo significa ampliar oportunidades e reduzir desigualdades. Como estabelece a Constituição, a educação é um direito de todos. Portanto, garantir que todos possam aprender a ler e escrever é também garantir dignidade, autonomia, participação social e cidadania.

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Presidência da República.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

IBGE. Síntese de Indicadores Sociais 2025. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Dados da PNAD Contínua 2024.

IBGE. Censo Demográfico 2022: Educação. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Thoughts

  • Ovid

    A separação entre taxa e número absoluto mudou quem eu imagino do outro lado disso. Pra mim era sempre cidade pequena do interior, e pelo Censo boa parte desses 11,4 milhões está em bairro de metrópole, onde a escola fica a dez minutos e mesmo assim ninguém entra. Você tem mais textos sobre educação publicados por aqui?

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  • dsiqueira67

    Você põe a vergonha como consequência, e aqui do meu lado ela funciona como causa também. Conheço adulto que sabe onde fica a escola, tem como chegar, e não vai pra vizinha não descobrir. Verba nenhuma resolve isso.

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