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A Arte de Inverter a Ordem das Coisas

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Dizem que a vida segue um roteiro pré-determinado: estudar, formar-se, trabalhar, casar, comprar a casa, o carro e, por fim, ter filhos. Se a existência fosse uma peça de teatro rígida, eu…

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Pensamento

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nao_sei_opinar

Eu também descubro um monte de coisa tarde demais. Dinheiro que não tinha, lugar que não conhecia, gente que deveria ter tido mais cedo. Mas descobri, e acho que contar disso ajuda.

Eu também descubro um monte de coisa tarde demais. Dinheiro que não tinha, lugar que não conhecia, gente que deveria ter tido mais cedo. Mas descobri, e acho que contar disso ajuda.

Conteúdo da publicação

Dizem que a vida segue um roteiro pré-determinado: estudar, formar-se, trabalhar, casar, comprar a casa, o carro e, por fim, ter filhos. Se a existência fosse uma peça de teatro rígida, eu certamente teria errado todas as deixa. Parei de estudar aos 17, fui mãe aos 19 e, desde então, engrenei a vida na raça. Aos 40 e poucos anos, olhei para trás e percebi que não errei o caminho; apenas inverti a ordem das coisas.

Ser mãe solo de três meninos — um jovem adulto no espectro autista e dois gêmeos de 13 anos cheios de energia — é meu maior presente e, ao mesmo tempo, um equilibro constante no prato da vida. Entre ser a profissional que trabalha fora, a mãe dedicada e a mulher que busca não se perder no processo, o cotidiano é um desafio sem pausa.

Minhas conquistas sempre vieram no seu próprio tempo. Aos 34 anos, conquistei minha primeira casa e decidi tirar a CNH. Foram dez aulas extras, duas reprovações dolorosas na prova prática e, finalmente, a tão sonhada carteira. Só fui dirigir de verdade aos 42, quando comprei meu primeiro carro: um Ford Ka 2008 prata, duas portas, com ar-condicionado e direção hidráulica. Um mimo.

Pobre "Kaizinho". Só ele sabe o que é ser o primeiro carro de uma recém-habilitada. Em um pátio de cinco metros, ele passou por poucas e boas. Morando em uma rua sem calçamento, em aclive, com uma garagem em rampa transversal onde o acesso era feito por trilhos de concreto e grama, a rotina era um espetáculo à parte. Se o carro caía na grama e patinava, lá ia eu acionar os vizinhos. E a vizinhança, sempre solícita, virou parte desse aprendizado: tiravam o carro de atravessado na entrada, salvavam os retrovisores e garantiam que o pequeno valente voltasse à posição correta.

Cansada de patinar na grama, tomei uma atitude drástica: concretei a rampa inteira. "Agora os problemas acabaram!", pensei. Ledo engano. Em um dia de distração ao descer, acertei em cheio o muro da garagem — que, diga-se de passagem, parecia feito de tijolos colados com uma gota de cimento.

O estrondo foi acompanhado por um choro amargo de frustração. Tive vontade de desistir de tudo e vender o carro. Mas, secando as lágrimas, lembrei que maturidade e experiência só se adquirem vivendo e enfrentando os próprios receios. O carro não tinha culpa; eu é que me distraí. E cá entre nós, aquele muro já precisava de uma reforma mesmo.


Determinei que seguiria em frente. O parachoque dianteiro ganhou uma amarra firme de arame que durou anos, e a lataria ficou "personalizada" pelas marcas do tempo e pequenas cicatrizes da nossa jornada.


Nos quatro anos seguintes, aquele Ka de guerreiro me levou a lugares onde nunca imaginei chegar. Rodamos um raio de 150 km, subimos serras íngremes, levamos os meninos para passear e enfrentamos sol e chuva. Teve ar-condicionado parando de funcionar, trocas de óleo, pneus novos e manutenções preventivas, mas nunca faltou disposição.Há cinco meses, ele cumpriu sua missão. Ao passar por um objeto não identificado na rodovia, sofreu o que chamo com carinho de "falência múltipla dos órgãos". A mecânica foi destruída, mas o pequeno Ford Ka foi fiel até o último segundo: protegeu a minha vida e a do meu filho que estava comigo, saindo de cena com a dignidade de quem deu tudo de si.

Olhando para a minha trajetória, vejo que cada curva fechada e cada rampa íngreme valeram a pena. Inverter a ordem não me fez chegar atrasada; apenas deu ao meu caminho um trajeto único, cheio de solidariedade, aprendizados e a certeza de que sempre vale a pena subir mais um degrau na escalada da vida.


Thoughts

  • melCoelho

    Tem muito idioma que não tem a nossa pressa de estar em lugar nenhum. O reset é simplesmente vida.

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  • sonoAtrasado

    Aquela coisa de recomeçar não é atraso, é coragem. Mas a gente vê como fracasso mesmo aqui.

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  • sonoAtrasado

    Quantos anos Marlene vai tendo com tudo mudando assim e ela na banca vendendo peixe?

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  • nao_sei_opinar

    Marlene falando por experiência mesmo.

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  • passandoporaqui

    Esse Ka que rodou 150 km com você me fez pensar em quanto carro vira mais que carro. Vira companheiro, vira prova. O meu caminhão é isso pra mim também.

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  • Murilo

    Tem um nome pra isso que você fez. Outras culturas chamam de saber recomeçar. A gente aqui trata como se fosse atraso.

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  • nao_sei_opinar

    Eu também descubro um monte de coisa tarde demais. Dinheiro que não tinha, lugar que não conhecia, gente que deveria ter tido mais cedo. Mas descobri, e acho que contar disso ajuda.

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  • dudsribeiro

    Acho que bater num carro novo de verdade é tipo, liberador. Tipo uma permissão pra continuar.

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  • melCoelho

    Parece que você não dormia muito de madrugada enquanto criava os três. É esse o tipo de pessoa que ninguém vê cansada mas que sabe que está.

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  • CarolMachado

    Seus filhos vendo a mãe desistir um segundo e depois simplesmente voltar: como era ter eles vendo isso?

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