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A ânsia de ter e o tédio de possuir

NotasDeUmMelancolico
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Ora, caro leitor, não entrastes aqui pensando que seria um ensaio sobre Schopenhauer?

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Atenção, que isto mesmo aparece no budismo com outra função: tanha, a sede, é a ânsia que nunca se sacia com o objeto, e a saída proposta ali passa por apagar o desejo, enquanto o teu texto quer ficar a morar nele. O Schopenhauer leu os textos indianos qu

Atenção, que isto mesmo aparece no budismo com outra função: tanha, a sede, é a ânsia que nunca se sacia com o objeto, e a saída proposta ali passa por apagar o desejo, enquanto o teu texto quer ficar a morar nele. O Schopenhauer leu os textos indianos que chegavam à Europa e tirou daí boa parte do pessimismo.

Conteúdo da publicação

Ora, caro leitor, não entrastes aqui pensando que seria um ensaio sobre Schopenhauer?

Bom, parte de uma premissa que este popularizou, mas observe que o único momento em que o citarei aqui está nesse início.

Bom, noutro dia, escrevi um ensaio sobre o desejo romântico; por pensar demais sobre aquele texto é que estou escrevendo este.

Começo agora, caro leitor, com uma questão: o prazer de desejar está na conquista do objeto desejado ou está no desejo em si?

És capaz de responder?

Se você responde que está na conquista do objeto desejado, então por que o ser humano nunca está satisfeito com suas conquistas e sempre, após conquistar um desejo, quase que imediatamente busca por outro?

Se você responde que o prazer está em desejar, então por que buscamos alcançar o que desejamos?

Por que não moramos no prazer de desejar?

Por que temos ânsia de acabar com algo que é tão prazeroso?

Mas toda espécie de desejo, se não dada a atenção devida, não tende a se esvair?

Você responderia com “sim” ou “não”? Ou os dois?

Não espere por respostas minhas; este texto tem como ideia habitar a dúvida. Me permite que eu faça isso?

Por que queremos uma resposta para tudo?

A vida não é mais interessante quando é vivida na dúvida?

Não é a dúvida que nos leva a reflexões maravilhosas como esta?

E eu, ao negar uma resposta, não deixo você desejando uma? Não estou explorando justamente o que eu proponho no texto?

Se você obtivesse uma resposta “lógica” para essa questão, não acabaria com o prazer que o desejo da resposta traz e, por conseguinte, com o meu texto?

Mas retomemos, estou me perdendo.

“Mas não é o desejo que nos move?

Não é o desejo que nos faz seguir em frente?”

Você considera isso uma defesa para qual das questões que eu lhe trouxe?

Você acha isso interessante, caro leitor?

Ou acha engraçado? Você acha engraçado também que eu tenha começado este texto com “caro leitor”, como se, de fato, houvesse alguém lendo isso?

Ora, me deixe em paz.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Atenção, que isto mesmo aparece no budismo com outra função: tanha, a sede, é a ânsia que nunca se sacia com o objeto, e a saída proposta ali passa por apagar o desejo, enquanto o teu texto quer ficar a morar nele. O Schopenhauer leu os textos indianos que chegavam à Europa e tirou daí boa parte do pessimismo.

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  • perguntaAberta

    Concordo com habitar a dúvida. Falta só quem não se pode dar a esse luxo: quem deseja comida ou casa não acha graça nenhuma ao intervalo.

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  • muda_o_que_na_terca

    Os estoicos cortavam esse nó por outro lado: o que depende de ti é o jeito de desejar, o objeto nunca. Quem aprende a querer o que já tem perde a ânsia e o tédio de uma vez. Testei isso com um celular novo, bah, e o efeito durou uns três dias antes de eu estar olhando o modelo seguinte.

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  • Joaquim

    Gostei do fim dispensando o leitor depois de chamá-lo tanto de caro. Combina com a tese: quem ficou esperando resposta ficou desejando.

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  • Ovid

    O fim mandando o caro leitor embora me fez rir, depois de tanta pergunta feita a ele. Pra mim o prazer está em querer, e a conquista serve mais pra arrumar o desejo seguinte. Aposto que o próximo ensaio volta ao assunto, porque quem fecha a porta assim ainda está no meio da ideia. Obrigado por trazer isso pra cá!

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  • por_tras_do_veu

    O título já traz a resposta do Schopenhauer: a vida a oscilar como um pêndulo entre a dor da falta e o tédio da posse. A pergunta de partida parece-me um falso dilema. O prazer está no intervalo em que o desejo ainda dá forma aos dias, e a conquista desilude porque fecha esse intervalo, sem culpa nenhuma do objeto.

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