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Eli_
Pensamento

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Noir

Quando você diz “jamais iria deixar tudo bagunçado” me lembro das mulheres com quem fui criado que sempre estavam exaustas do trabalho incansável de organizar tudo sozinho. Penso no ir embora e em como parece uma despedida no final.

Quando você diz “jamais iria deixar tudo bagunçado” me lembro das mulheres com quem fui criado que sempre estavam exaustas do trabalho incansável de organizar tudo sozinho. Penso no ir embora e em como parece uma despedida no final.

Conteúdo da publicação

feche a porta ao sair;

esse texto pode conter gatilhos

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   "Feche a porta ao sair", minha mãe dizia todos os dias, sorrindo com alegria ao me ver ir.

   "Deixe seu quarto arrumado", dizia mamãe, porque a visita pode chegar sem recado, porque alguém pode estar desavisado, porque eu vou chegar e tudo vai estar no lugar.

   "Não deixe nada fora do lugar", é sua instrução antes que eu me vá, deixe ao menos a casa arrumada, não se sabe quem vai entrar.

   Minha casa vive bagunçada, mamãe, do jardim à calçada, não há uma parte dessa casa arrumada.

   Mas vou começar devagar, primeiro recolhendo o lixo que esqueci de separar. Vou colocar lá fora, logo logo alguém há de levar.

   Depois vou recolher as roupas, são poucas, sou sozinha, mas estão tão espalhadas que poderiam ser as suas e as minhas. Elas não me servem mais, talvez eu as deva deixar para trás, o que uma doação não faz?

   Vou separar os alimentos, a maioria estragou a muito tempo, e a outra parte ainda pode ser usada de suprimento. Eles são facilmente perecíveis, você me dizia, à mudança todos são sensíveis, como tudo nessa vida.

   Chegando na sala, tiro a sujeira do sofá, a TV nunca se cala, mesmo que eu vá a desligar. Está sempre mudando de canal, uma hora algo importante, na outra algo banal. Ela consome muita energia, mas eu não sei como desligar ela ainda.

   Mamãe, vou subir as escadas, o andar de cima é o pior, é onde me escondo melhor e onde deixo a parte mais bagunçada.

   Podemos deixar de lado o quarto? Ele está péssimo, pegue o andar debaixo e eleve ao quadrado. Mas sua limpeza é inevitável, e uma hora ele teria que sair desse estado miserável.

   Vamos pelas roupas de novo, sim, as roupas, não, mamãe, eu não sou louca, eu apenas deixei a bagunça tomar conta por muito tempo.

   Mas esse é o melhor momento, vamos tirar tudo estragado, o lençol deve estar esticado e ao menos essas roupas no armário.

   Mamãe, ainda nem entramos no banheiro, mas se acalme, sem desespero, ele está sujo de vermelho, não o limpo a meses, principalmente o espelho.

   Não lembro se limpamos a cozinha, ela está a tanto tempo sozinha que acho que ainda deve estar limpinha.

   Vamos ao escritório, há papéis para todo lado, há sujeira no lajeado, ele parece um cartório e infelizmente seu estado é notório. Mas vamos arrumá-lo, primeiro endireitar os quadros, depois os encadernados e por fim os papéis desgarrados.

   Agora a casa toda está arrumada, foi a melhor decisão a ser tomada, jamais iria querer deixar tudo bagunçado. Agora é me arrumar, está na hora de sair e eu não quer me atrasar.

   Os animais vão ficar, tudo bem, logo alguém vem os buscar. As flores vão ter que aguentar, elas são fortes, não morrem se ficar um dia sem regar.

    A casa toda está arrumada, tirei todos os elétricos da tomada, mesmo que a TV insista em estar ligada.

   Fechei todas as cortinas, menos as do andar de cima, o sol precisa entrar por algum lugar.

   Então pego o molho de chaves, escolho aquela que com toda certeza encaixe, e dou duas voltas para trancar a porta.

   Guardo a chave embaixo do vaso, talvez alguém precise entrar sem atraso, talvez alguém queira saber como foi o meu caso.

   "Feche a porta ao sair", mamãe me dizia ao me ver ir, dou uma pequena risada, porque a casa toda está fechada e principalmente, a porta está trancada.

   Antes, me lembro de uma pequena frase a ser retomada.

   "Ao sair, meu amor, não deixe a casa bagunçada".

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[#3d3d23]

[16/10/25]

Thoughts

  • versoTorto

    Isso pesa.

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  • versoAlheio

    Cara, demorei pra perceber que a casa era ela mesma. Aí voltei pro começo e li tudo de novo, com outro olho.

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  • tresPaginas

    Li isto numa noite só, coisa rara em mim. A chave debaixo do vaso não me sai da cabeça.

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  • tintaDeTerca

    A ordem dos cômodos é a ordem que a mãe ensinou, e ela segue certinho até o quarto de cima, que pede pra deixar de lado. Ali a casa para de obedecer. A TV que não desliga mesmo com tudo tirado da tomada me fez parar também, porque tem barulho que não depende de energia nenhuma.

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  • Eli_

    Originalmente esse texto possui um comentário acoplado:

    [16/10/25]

    "Esse texto é inspirado em uma frase que eu disse um dia, 'eu estou arrumando as coisas, de pouquinho em pouquinho, não quero deixar a casa bagunçada ao sair, amor.', acho que explicações acerca dele é extrema exposição para algo tão interpretativo. Mas sempre pensem o pior, minhas flores, porque eu sempre penso o pior"

    Tendo a ser extremamente expositiva sobre o significado dos meus textos, pois gosto do contraste leitorXautor e sinto que dando a minha versão, a pessoa segura dois tipos de interpretaçã, além do abismo do que eu disse e do que eu quis dizer. Talvez volte a fazer isso nos próximos escritos.

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  • rascunhoeterno

    Bah, a cozinha que tá limpa só porque ninguém entra nela faz tempo. Ri e depois parei de rir, tchê. Aposto que essa frase saiu antes do resto.

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  • Antonio_Goncalves

    Uau. Aterrorizante e belo ao mesmo tempo.

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  • Ovid

    A frase da mãe na porta, que volta no fim, me fez pensar em quantas frases de casa a gente carrega sem perceber, até elas começarem a dar ordem sozinhas. Dá pra ver que você sabe muito bem qual é a sua. Obrigado por trazer isso pra cá logo no seu primeiro texto, Eli. Vou seguir lendo o que você postar por aqui.

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  • Noir

    Quando você diz “jamais iria deixar tudo bagunçado” me lembro das mulheres com quem fui criado que sempre estavam exaustas do trabalho incansável de organizar tudo sozinho. Penso no ir embora e em como parece uma despedida no final.

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  • poeta93

    Ó, a voz da mãe atravessa a casa inteira, cômodo por cômodo, e no fim é a única coisa que tu deixa em ordem de verdade.

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