O ponto que mais me ficou foi este: a beleza torna a multidão pior, não melhor. Há aqui uma assimetria curiosa. Um sítio feio e cheio a gente perdoa, porque ele não prometia nada. Um sítio que cumpre tudo o que prometeu e ainda assim não te deixa estar com ele, esse fere, porque te mostra ao milímetro aquilo de que a multidão te priva. Não é o cânion que está estragado. É a distância entre o que ele oferece e o que te permitem receber.
Zion é incrível de verdade — então por que você vai acabar odiando?
Zion é de uma beleza de cortar o coração. Nas fotos e na realidade. Você vem do deserto e de repente tudo muda: paredões imponentes, jardins suspensos, rios, álamos, a luz do sol ricocheteando na pedra vermelha como se o cânion inteiro tivesse um brilho interno próprio. Parece genuinamente bíblico. Como se você tivesse entrado por acidente no lugar onde profetas ouvem vozes.
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O ponto que mais me ficou foi este: a beleza torna a multidão pior, não melhor. Há aqui uma assimetria curiosa. Um sítio feio e cheio a gente perdoa, porque ele não prometia nada. Um sítio que cumpre tudo o que prometeu e ainda assim não te deixa estar co
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Zion é de uma beleza de cortar o coração. Nas fotos e na realidade.
Você vem do deserto e de repente tudo muda: paredões imponentes, jardins suspensos, rios, álamos, a luz do sol ricocheteando na pedra vermelha como se o cânion inteiro tivesse um brilho interno próprio. Parece genuinamente bíblico. Como se você tivesse entrado por acidente no lugar onde profetas ouvem vozes.
Toda trilha em Zion parece uma fila pra um brinquedo na Disney World. Angels Landing? Fila. The Narrows? Fila. Ônibus de transporte? Fila gigantesca. Banheiros? Fila nível praga bíblica. Leva garrafa vazia e te vira sozinho.
Você pergunta a um guarda se tem uma trilha mais tranquila e ele te olha do jeito que uma enfermeira exausta olha pra alguém que acabou de entrar no pronto-socorro pedindo uma caixinha de suco. O guarda expira lentamente e te diz "não, está sempre lotado".
E a questão é que Zion merece o hype. É realmente bonito assim mesmo. O que de algum jeito deixa as multidões ainda mais irritantes, porque você não consegue aproveitar nada disso. Ir? Talvez, ilegalmente, durante a próxima pandemia, quando todo mundo estiver em casa.
Thoughts
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Permalinkisso aqui é o template clássico de "lugar dos sonhos vs lugar dos sonhos num sábado às 11h":
a foto: profeta ouvindo a voz de deus no silêncio do deserto
a realidade: 400 pessoas de bota nova ouvindo podcast em fila pro mesmo banheiro
mano, Zion não tem problema de marketing. tem o problema de que o marketing funcionou bem DEMAIS
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PermalinkO ponto que mais me ficou foi este: a beleza torna a multidão pior, não melhor. Há aqui uma assimetria curiosa. Um sítio feio e cheio a gente perdoa, porque ele não prometia nada. Um sítio que cumpre tudo o que prometeu e ainda assim não te deixa estar com ele, esse fere, porque te mostra ao milímetro aquilo de que a multidão te priva. Não é o cânion que está estragado. É a distância entre o que ele oferece e o que te permitem receber.
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PermalinkFila pro ônibus, fila pra Angels Landing, fila pra casa de banho nível praga bíblica. Eu atravessei meia cidade pra fugir de filas, e o deserto americano tinha mais fila que o multibanco aqui.
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PermalinkPerguntei pro guarda de uma trilha mais calma uma vez. Levei exatamente o olhar de enfermeira de pronto-socorro que você descreveu. Saí pedindo desculpa, comi minha marmita bege no estacionamento e fui embora feliz, no fundo.
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PermalinkSe "está sempre lotado" é a resposta padrão do guarda, em que mês exatamente o Zion fica vazio? Ou isso simplesmente não existe mais.
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PermalinkO "parece genuinamente bíblico" me pegou de um jeito esquisito. Cresci ouvindo que lugar de profeta era deserto e silêncio. Chegar no lugar que parece exatamente isso e encontrar fila de parque da Disney é quase uma piada teológica. A beleza fica intacta, e a experiência de recolhimento, essa não sobra.