Fiquei preso na última linha, 'o ruído de verdade sempre esteve em nós'. Dessas que a gente carrega a semana inteira.
Você sabe por que o Claude se chama Claude?
Passaram-se mais de setenta anos. A tecnologia ficou absurda. Temos o canal mais perfeito da história nas mãos. E mesmo assim, nunca houve tanto ruído.
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Fiquei preso na última linha, 'o ruído de verdade sempre esteve em nós'. Dessas que a gente carrega a semana inteira.
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Eu uso o Claude quase todos os dias. Converso, peço, discuto, faço brainstorm. E até dias atrás, nunca tinha me perguntado da coisa mais óbvia: por que esse nome? A resposta me fez parar.
Claude é uma homenagem a Claude Shannon — um matemático americano que a maioria das pessoas nunca ouviu falar, mas que mexe com a vida de todo mundo, todos os dias. Shannon é conhecido como o pai da Teoria da Informação. Foi ele quem, em 1948, transformou um problema aparentemente simples numa ciência: como transmitir uma mensagem de um ponto a outro com a menor perda possível. Em outras palavras: emissão e recepção, com o mínimo de ruído. Esse cara provou, com matemática, que toda comunicação enfrenta ruído. Que existe sempre algo no meio do caminho tentando corromper a mensagem entre quem fala e quem ouve. O telefone, o rádio, a internet, o WhatsApp — tudo que você usa pra se comunicar hoje se apoia no que ele formulou.
Mas, calma aí! Shannon não criou a Teoria da Comunicação que estudei em jornalismo. Aquela do emissor e receptor da mensagem. E da interpretação dela com base em históricos pessoais. Ele criou a base matemática. Ele cuidou do canal. Os que vieram depois (McLuhan e Watzlawick) foram cuidar do sentido, da relação, daquilo que uma equação não alcança. É, agora foi pro lado pessoal.
No livro que estou lançando no próximo mês, A Máquina que Pedia Desculpa, passei o livro inteiro analisando esses tropeços à luz da Teoria da Comunicação. Watzlawick, Escola de Palo Alto, a tal "página dois", a camada da relação que existe por trás de toda mensagem.
Só que eu nunca tinha me dado conta de uma coisa: a própria ferramenta com quem eu converso, com quem eu aprendo tanto, tem o nome do avô conceitual de tudo aquilo que eu estudei na faculdade. O Claude se chama Claude por causa do homem que deu origem à ciência, o embrião matemático do que depois viria a ser a "minha" emissão e recepção de mensagem.
Não sei se isso é coincidência. Mas é aqui que eu queria chegar.
Shannon provou, lá em 1948, que dá pra reduzir o ruído. Que existe uma forma de fazer a mensagem chegar mais limpa do outro lado. A mensagem do rádio, sem interferência. To telefone, sem chiados. Passaram-se mais de setenta anos. A tecnologia ficou absurda. Temos o canal mais perfeito da história nas mãos. E mesmo assim, nunca houve tanto ruído.
No recado mal escrito que gera briga. No áudio de três minutos que não diz nada. No grupo de família que vira campo de guerra por uma frase mal interpretada. No prompt preguiçoso que culpa a máquina pelo próprio despreparo. A gente tem o canal mais limpo de todos os tempos — e insiste em sujá-lo.
O ruído que eu aprendi na faculdade, nunca esteve no fio. Esse, era o de Shannon. O ruído de verdade, sempre esteve em nós.
Thoughts
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PermalinkFiquei preso na última linha, 'o ruído de verdade sempre esteve em nós'. Dessas que a gente carrega a semana inteira.
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PermalinkSó para acrescentar ao que trazes: o artigo do Shannon, de 1948, chama-se 'A Mathematical Theory of Communication', e logo na abertura ele avisa que os aspetos semânticos da mensagem são irrelevantes para o problema de engenharia. Pôs o sentido de lado de propósito. Por isso a distinção que fazes no fim tem base real: o ruído dele nunca foi o do significado, era mesmo outra coisa. E a homenagem, já agora, está confirmada, não é folclore de internet.
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PermalinkConcordo com quase tudo, mas fico a matutar: e se o problema não for sujarmos um canal limpo? Reduzir o ruído no fio baixou tanto o custo de mandar mensagem que passámos a mandar tudo, até o que não devia sair. A abundância é que virou ruído. O Shannon deu-nos largura de banda a mais para a nossa falta de cuidado.
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