"Eu não escrevi esse livro. Eu o libertei." Essas duas frases abrem o prefácio do meu livro. Escrevi sem pensar duas vezes, porque era exatamente o que eu sentia. Aquilo não foi produzido. Simplesmente saiu.
Semana passada, assisti ao trailer de I Play Rocky, filme que estreia em novembro nos cinemas e conta a história real de como Sylvester Stallone, um ator falido em 1975, escreveu o roteiro de Rocky em três dias e recusou uma fortuna pra vendê-lo, porque só aceitava se ele mesmo interpretasse o personagem. Em uma cena do trailer, ele diz: "Eu coloquei meu coração e minha alma na página. Se eu não estiver disposto a viver o que eu escrevi, então qual é o sentido?". Parei, voltei. Vi de novo. Fiquei olhando pra tela.
Sylvester Stallone nos bastidores de 'Rocky - Um Lutador';
Anthony Ippolito no set de 'I Play Rocky' — Foto: Reprodução
Porque é a mesma coisa que eu escrevi no prefácio. Dita de outro jeito, em outra língua, cinquenta anos antes — mas é o mesmo sentido. Ele disse "se eu não vivo o que escrevi, não tem sentido". Eu disse "não escrevi, libertei". Os dois falando de um texto que não é encomendado, notícia ou algo fake embalado e descartável. Tem gente que escreve pra entregar. E tudo bem. Nada de errado nisso. Isso é legítimo, e eu faço isso também, todo dia, em outros contextos.
Mas existe outra forma de escrever. Aquela que sai de você e continua viva, dando frio na barriga a cada vez que é relida. Que não encerra seu ciclo na publicação. Pelo simples fato dessa existir mesmo sem audiência. Ela faz parte de quem você é.
Quando você escreve sobre seguir em frente, siga. Quando escreve sobre não desistir, tente de verdade. Desistir não é escolha. E dói, cansa. Mas é a única alternativa.
O Stallone tinha cento e poucos dólares na conta. Vendeu o cachorro que amava, pra comer. Ofereceram uma fortuna pelo roteiro dele, com a condição de outro ator estar no papel principal. Charles Bronson, Clint Eastwood, nomes gigantes. Ele negou. A história era sobre um sujeito que ninguém acreditava, e não podia ser ele o primeiro a justamente não acreditar. E isso tem nome: amor. Pela linha, a página e a vida.
E eu entendo isso na pele. Escrevi um livro nessa pegada, com personagens que são símbolos disso. Noites viradas, sem editora, sem garantia, sem ninguém sequer perguntando como estava a evolução. Nada. O livro está pronto. Ele precisava existir. Pra quem? Pra mim! Eu precisava escrever e não perceber que estava falando, muitas vezes, de mim mesmo. E continuar vivendo através desses parágrafos.
A diferença de escrever pela entrega fica cristalina: as linhas surgem de lugares diferentes. As que vêm do coração ficam eternizadas.
Às vezes, num pedaço de papel rasgado ou em um livro de ficção sobre dor, quer vira amor. E claro, às vezes vai parar em roteiro de filme.
E no roteiro da sua vida. Inegociável. Em forma de sentimento.