Um conto que ninguém lê não fracassou pela metade. Ele não aconteceu. A história é uma coisa que só termina no outro, na cabeça de quem leu, e enquanto isso não ocorre você tem um arquivo, não um conto. Digo isso porque vejo gente séria, gente que escreve bem, enterrar o próprio trabalho num site pessoal como quem guarda relíquia, e depois estranhar o silêncio.
Faço a conta simples. Você publica um conto no seu domínio, bonito, seu, com seu nome no rodapé. Quantas pessoas passam ali por semana? Três, cinco, o teu primo. O mesmo conto postado onde já existe uma plateia reunida, gente que chegou para ler ficção, encontra dezenas de olhos que não vieram por você e ficaram pela história. A diferença ali não é de qualidade. É de porta de entrada.
Sei o que essa ideia contraria. A gente foi criado para achar que o valor está na posse: o teu espaço, o teu controle, a tua marca. E há algo digno nisso, não vou fingir que não. Mas a ficção é velha o bastante para lembrar como sempre funcionou. O aedo não construía o próprio salão e esperava que Ítaca viesse bater na porta. Ele ia até onde os homens já estavam reunidos, no banquete, na praça, e ali cantava. A história viajava na boca dos outros porque começava onde os outros já se juntavam.
O contra-argumento mais forte é o da dependência. Publicar na casa alheia é ficar sujeito às regras dela, ao algoritmo, ao dia em que a plataforma fecha. É verdade e não é pouco. Mas um conto lido na casa dos outros entrou em alguém; um conto intocado no teu castelo não entrou em ninguém. A plataforma pode cair amanhã, e ainda assim aquela leitura já foi feita, já cumpriu o que devia. O teu site perfeito e vazio não fez trabalho nenhum.
Então decide o que você quer. Se é o troféu do domínio próprio, guarda o conto lá e admira. Se é leitor, um leitor que fecha a aba pensando na tua história, leva o conto para onde a plateia já respira. Hoje, para ficção, distribuição vale mais que posse. A casa a gente constrói depois, quando já tem quem venha visitar.