— Como que se esquece um grande amor?
— Não sei se esquece.
— Então como faz?
— Acho que não faz. Acho que aprende a viver com a lembrança.
— Mas eu não quero lembrar. Quero acordar amanhã e não sentir mais nada. Não quero lembrar da voz, do sorriso, dos lugares, das coisas que a gente fazia.
— Eu sei.
— Não, você não sabe. É horrível. Às vezes eu estou bem e, do nada, alguma coisa me leva até ela. Uma música, um cheiro, uma frase… e parece que eu volto para o começo.
— Eu sei porque já passei por isso.
— E passou?
— Não completamente.
— Então não adiantou?
— Adiantou. Só não da maneira que eu esperava.
— Como assim?
— Eu achava que superar seria esquecer. Um dia eu percebi que ainda lembrava dela, mas já não precisava voltar.
— E a saudade?
— Continua existindo.
— E não dói?
— Às vezes dói. Mas é uma dor diferente. Antes eu sentia saudade e queria procurar. Hoje eu sinto saudade e deixo passar.
— Parece triste.
— É triste.
— Então qual é a parte boa?
— A parte boa é perceber que uma lembrança pode continuar sendo importante sem continuar machucando.
— E você ainda ama?
— Talvez. Mas hoje eu entendo que amar alguém não significa precisar continuar com ela.
— Então você nunca esqueceu?
— Não.
— E conseguiu seguir?
— Consegui.
— Como?
— Um dia de cada vez.
— Só isso?
— Só isso.
— Eu queria que fosse mais fácil.
— Eu também queria.
— Quanto tempo leva?
— Não sei.
— E se eu nunca conseguir?
— Vai conseguir.
— Como você tem tanta certeza?
— Porque um dia você vai perceber que passou uma tarde inteira sem pensar nela.
— E depois?
— Depois vai acontecer de novo.
— E quando eu perceber?
— Talvez você nem fique feliz.
— Por quê?
— Porque vai entender que está começando a esquecer justamente aquilo que jurou que nunca conseguiria esquecer.
— Isso não é meio cruel?
— É.
— Então talvez esquecer não seja o que eu quero.
— O que você quer?
— Acho que só quero lembrar sem doer.
— Então você não precisa esquecer um grande amor.
— Preciso aprender a deixá-lo no lugar onde ele pertence.
— E onde é esse lugar?
— No passado.
— Mesmo que ainda exista amor?
— Principalmente quando ainda existe.