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Uma máscara e a indecisão

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Pensamento

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tiacoruja

Caraca, essa vontade de ser descoberta quando alguém vê que você toca ou fotografa. Aposto que quem mais te surpreendeu com isso foi justo quem você menos esperava, um tio, alguém da escola.

Caraca, essa vontade de ser descoberta quando alguém vê que você toca ou fotografa. Aposto que quem mais te surpreendeu com isso foi justo quem você menos esperava, um tio, alguém da escola.

Conteúdo da publicação

É um texto antigo meu mais talvez valhe a pena ler

Talvez eu só queira ser escolhida

Eu gosto de parecer rebelde.

Gosto do cabelo raspado nas laterais, dos risquinhos na sobrancelha, da cara de quem não leva desaforo para casa. Gosto quando alguém me olha e pensa que eu sou maloqueira, difícil, talvez até um pouco problema. Gosto de fazer certas coisas só porque sei que minha mãe vai odiar.

É engraçado, porque talvez eu tenha construído uma imagem de alguém que não precisa de ninguém.

Mas, no fundo, talvez eu só queira muito ser escolhida.

Eu guardo mais do que falo. E talvez esse seja um dos motivos pelos quais gosto tanto de livros: eles dizem aquilo que eu provavelmente não diria. Gosto de música porque, de algum jeito, nela eu consigo me entender. Algumas músicas parecem colocar em palavras coisas que eu nem sabia que estavam dentro de mim.

E ultimamente eu tenho me afastado.

Não aconteceu de uma vez. Eu simplesmente fui ficando. Um pouco mais longe dos amigos, um pouco mais longe da família, um pouco mais atrás da minha própria barreira. Todo mundo percebeu. Todo mundo perguntou. E eu nunca soube explicar, porque como explicar alguma coisa que nem você sabe exatamente quando começou?

Então eu me mantenho ocupada.

Pintura. Violão. Libras. Fotografia. Escola. Academia. Talvez guitarra algum dia.

Faço tantas coisas que às vezes parece que estou tentando não deixar espaço para pensar.

Porque quando tudo fica silencioso, talvez eu escute coisas que ainda não sei responder.

Tenho tantos planos e nenhuma certeza.

Quero dinheiro. Quero minha própria casa. Às vezes imagino um apartamento enorme, alto, bonito, com uma sacada grande e uma vista que me faça parar por alguns segundos. Outras vezes penso em uma casa, porque gosto do espaço, da sensação de ter lugar para tudo.

Penso nos 18.

Será que vou trabalhar?

Será que vou fazer faculdade?

Será que vou passar na PM?

Será que vou continuar tocando?

Será que vou conseguir tudo aquilo que imagino?

São tantos quereres e tão poucos saberes.

E talvez seja isso que mais assuste: perceber que estou crescendo sem receber as respostas junto.

Também queria ser a favorita de alguém.

Às vezes olho para minha família e sinto que existem pessoas que ocupam um lugar mais especial do que eu. E talvez por isso eu goste tanto quando alguém descobre alguma coisa que eu faço. Quando percebem que eu sei tocar. Que eu faço fotografia. Que eu leio. Que eu estou aprendendo alguma coisa nova.

Talvez eu goste de ser descoberta.

Talvez eu queira que alguém olhe para mim e pense:

“Eu não sabia que ela era assim.”

Porque por trás da menina que parece não se importar, existe alguém que se importa bastante.

Alguém que quer carinho.

Que quer alguém por perto.

Que quer ser lembrada.

Que quer sentir que, em algum lugar, alguém pensou nela primeiro.

Talvez seja por isso que eu imagine tanto um amor. Não necessariamente porque eu precise de alguém para me completar, mas porque existe uma parte minha cansada de ser forte o tempo inteiro.

Eu quero alguém que fique.

Alguém que tenha certeza.

Alguém diante de quem eu não precise parecer rebelde, independente ou invencível.

Mas talvez eu ainda esteja aprendendo que ser amada não significa ser a favorita de todo mundo.

Eu não preciso vencer uma competição por atenção.

Não preciso ser a mais interessante, a mais bonita, a mais rebelde ou a mais lembrada.

Talvez eu só precise encontrar pessoas diante das quais eu possa ser inteira.

A menina do cabelo raspado.

A que gosta de parecer maloqueira.

A que coloca uma música para tentar entender o próprio coração.

A que quer uma guitarra, uma casa bonita e uma vida grande.

A que guarda sentimentos porque ainda está tentando descobrir o nome deles.

A que se escolhe.

E, apesar de tudo isso, a que ainda quer muito ser escolhida por alguém.

Talvez eu ainda não saiba exatamente quem vou ser aos 18.

Talvez eu não saiba onde vou morar, o que vou estudar, onde vou trabalhar ou quem vai estar ao meu lado.

Mas talvez eu não precise saber.

Porque, por enquanto, ainda estou escrevendo.

E talvez essa seja a parte mais bonita:

eu ainda não sei como termina a história.

Thoughts

  • tiacoruja

    Caraca, essa vontade de ser descoberta quando alguém vê que você toca ou fotografa. Aposto que quem mais te surpreendeu com isso foi justo quem você menos esperava, um tio, alguém da escola.

    Permalink
  • Ovid

    Esse final, de que ainda está escrevendo e não sabe como termina a história, ganha outro peso sabendo que é um texto antigo seu. Aposto que algumas daquelas perguntas sobre os 18 já têm resposta hoje e outras continuam abertas, e me fez pensar que dava um segundo texto só com a menina de agora respondendo a de antes.

    Permalink
  • DUDONA

    Uai, essa lista de pintura, violão e Libras parece a agenda da minha mais velha, que enche a semana de coisa. Lá em casa a gente descobre o que ela sente pela música que toca alto no quarto, então a parte da música me fez rir aqui. Você tem mais textos sobre a menina do cabelo raspado?

    Permalink

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