Ao longe, fico a te observar; de outro setor, as prateleiras te vejo organizar.
Ao longe, acompanho seu andar pelos corredores, fico estático em meu lugar, escondido entre pessoas, esperando você passar só pra dizer olá.
Apetrechos no cabelo, a forma de andar, no seu jeito de falar, na forma de se expressar... Ao longe, sua presença sequestra a minha atenção. Te acompanho com olhares e movimentos com limitação.
O brilho dos seus olhos combina com o seu sorriso, só queria uma chance de falar contigo e expressar tudo o que eu sinto.
Pela sua perspectiva, sou apenas um desconhecido cercado por borrões saturados, exaustos, cinzentos e deprimidos.
Invisível, estou atrás de cortinas feitas de carne e osso ambulantes; eles gritam, cospem e humilham, são impolidos e arrogantes.
Estou distante, pensando numa maneira de me aproximar, mas o medo de que minhas amarras profundas me façam gritar pode te assustar, te apavorar. Minha única escolha é ficar distante. Se eu tivesse apenas uma chance... Eu penso a todo momento: e se eu tivesse uma chance?
Você se aproxima, meu coração dispara feito uma britadeira sem controle. Uma força invisível esmaga a minha traqueia e me proíbe de me pronunciar, até de respirar. Vozes na minha cabeça gritam para eu me afastar; minhas pernas agem sozinhas, andam até você sumir da minha vista.
Covarde, palavras escorrem dos meus olhos de uma forma silenciosa. De um lado, uma voz me diz para ser forte e enfrentar aquilo que não dá pra ser restringido; porém, o outro lado diz: "você é um desconhecido".
Talvez seja o destino, ou apenas uma fase difícil. O tempo não espera, então eu repito: só uma chance de um momento contigo.