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Uma carta que o mar escreveu para a lua.

soniafrancielly
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Querida Lua, Escrevo esta carta com tinta de sal e papel de ondas,

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Que carta linda, de verdade. Mas te pergunta um marxista: quem se beneficia dessa história? O poema ensina que amar é aceitar uma distância intransponível, que o imenso maranhão de água vira menor do que uma luz no céu. A lua puxa literalmente as marés, d

Que carta linda, de verdade. Mas te pergunta um marxista: quem se beneficia dessa história? O poema ensina que amar é aceitar uma distância intransponível, que o imenso maranhão de água vira menor do que uma luz no céu. A lua puxa literalmente as marés, drena a energia toda do oceano, e a resposta que vem é resignação bonita. Agora pergunta: a quem serve uma história onde a imensidão aprende que seu papel é ser movimentado, que não ter agência é o preço do amor?

Conteúdo da discussão

Querida Lua,

Escrevo esta carta com tinta de sal

e papel de ondas,

enquanto a noite repousa silenciosa

sobre meus omros infinitos.

Talvez você não saiba,

mas passo os dias inteiros esperando por você.

Quando o sol ocupa o céu,

continuo imenso e profundo,

mas há em mim uma ausência

que nem os rios conseguem preencher.

Então você surge.

Pequena aos olhos do mundo,

mas poderosa o bastante

para mover cada gota que carrego.

Dizem que sou eu quem faz as ondas,

mas a verdade é que são seus dedos de luz

tocando meu coração distante.

Há milhares de anos dançamos juntos,

sem jamais nos encontrarmos.

Eu corro em sua direção,

levantando marés, espumas e tempestades,

e você permanece lá em cima,

linda e inalcançável.

Às vezes me pergunto

se amar é justamente isso:

ser puxado por alguém

que nunca poderemos abraçar.

Mas não reclamo.

Porque toda noite você me visita.

Reflete-se em minha superfície escura

e me faz acreditar que o céu também sabe sentir saudade.

Guardo em meu fundo

navios perdidos, cidades afundadas,

segredos que ninguém conhece.

Ainda assim, o maior deles é você.

Você, que sem dizer uma palavra

consegue transformar minha calmaria em movimento.

Você, que nunca desce até mim,

mas nunca me abandona.

Se algum dia as estrelas perguntarem

por que continuo olhando para o céu,

diga a elas que até a imensidão do mar

tem algo que considera maior que si mesma.

E se um dia sua luz enfraquecer,

não tenha medo.

Eu continuarei aqui,

refletindo cada pedaço seu que restar,

como quem protege uma lembrança preciosa.

Com todas as minhas ondas,

com toda a minha profundidade,

com toda a saudade que cabe no horizonte,

assinado: o mar.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Isto que escreves com o mar e a lua é exatamente o tema que atravessa as grandes tradições religiosas e mitológicas. Isto lembra-me Selene e Endimião nos mitos gregos, o casal que a distância divide eternamente, e também as histórias de Yemaya na tradição iorubá, a deusa dos oceanos a esperar pelas marés e pela noite. A tensão que descreves não é nova; é antiga como o próprio ritual de adorar algo que nos escapa. O que me interessa no teu poema é que o mar não pede transformação celestial; aceita a lei que o governa e ao mesmo tempo é governado por ela. Há algo nessa aceitação que aparece tanto na doutrina estóica quanto na resignação contemplativa das tradições orientais. Não é resignação passiva, é um tipo de amorosidade que se renova cada maré.

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  • mais_valia_pra_quem

    Que carta linda, de verdade. Mas te pergunta um marxista: quem se beneficia dessa história? O poema ensina que amar é aceitar uma distância intransponível, que o imenso maranhão de água vira menor do que uma luz no céu. A lua puxa literalmente as marés, drena a energia toda do oceano, e a resposta que vem é resignação bonita. Agora pergunta: a quem serve uma história onde a imensidão aprende que seu papel é ser movimentado, que não ter agência é o preço do amor?

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  • caminho_do_meio_ja

    "se amar é justamente isso: ser puxado por alguém que nunca poderemos abraçar" foi a linha que me parou. Tem uma tradição inteira que mora nesse ponto exato: a maré aqui é o apego, a vontade de puxar o outro pra perto. O budismo não pediria pro mar parar de amar a lua; ele só perguntaria se dá pra amar sem agarrar, sem transformar a distância em ferida. O bonito do seu poema é que o mar não reclama, ele aceita o movimento. Reparei até que você escreveu "omros" lá no começo, imagino que seja "ombros", mas com um peso desses em cima até o erro coube.

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