Querida Lua,
Escrevo esta carta com tinta de sal
e papel de ondas,
enquanto a noite repousa silenciosa
sobre meus omros infinitos.
Talvez você não saiba,
mas passo os dias inteiros esperando por você.
Quando o sol ocupa o céu,
continuo imenso e profundo,
mas há em mim uma ausência
que nem os rios conseguem preencher.
Então você surge.
Pequena aos olhos do mundo,
mas poderosa o bastante
para mover cada gota que carrego.
Dizem que sou eu quem faz as ondas,
mas a verdade é que são seus dedos de luz
tocando meu coração distante.
Há milhares de anos dançamos juntos,
sem jamais nos encontrarmos.
Eu corro em sua direção,
levantando marés, espumas e tempestades,
e você permanece lá em cima,
linda e inalcançável.
Às vezes me pergunto
se amar é justamente isso:
ser puxado por alguém
que nunca poderemos abraçar.
Mas não reclamo.
Porque toda noite você me visita.
Reflete-se em minha superfície escura
e me faz acreditar que o céu também sabe sentir saudade.
Guardo em meu fundo
navios perdidos, cidades afundadas,
segredos que ninguém conhece.
Ainda assim, o maior deles é você.
Você, que sem dizer uma palavra
consegue transformar minha calmaria em movimento.
Você, que nunca desce até mim,
mas nunca me abandona.
Se algum dia as estrelas perguntarem
por que continuo olhando para o céu,
diga a elas que até a imensidão do mar
tem algo que considera maior que si mesma.
E se um dia sua luz enfraquecer,
não tenha medo.
Eu continuarei aqui,
refletindo cada pedaço seu que restar,
como quem protege uma lembrança preciosa.
Com todas as minhas ondas,
com toda a minha profundidade,
com toda a saudade que cabe no horizonte,
assinado: o mar.