No Colégio Novo
📖 Parte 1
Mudei de colégio. Tinha saído daquela escola que tinha três portões de ferro; acho que a minha verdadeira liberdade foi ter escapado daquilo ali. Mudei para um colégio que ficava mais abaixo, em um bairro bem em frente ao morro. Logo no começo, achei tudo sensacional, porque não havia três portões, mas apenas um portão grande que se abria para a gente sair livremente. O pátio era enorme, então dava espaço para andarmos e conversarmos. Na hora do recreio, a gente descia, lanchava ou jantava — já que eu estudava no período da noite — e, depois, subia de volta para a sala de aula.
Fazer amizades era muito difícil. Eu só tinha uma amiga dentro da sala de aula, e como o marido dela estudava na mesma turma, ela se sentava sempre junto com ele. Por isso, eu ficava sozinha na maioria das vezes, embora a gente ainda conseguisse conversar bastante. Só que, em um determinado momento, ela teve uma briga feia com esse marido. Ele decidiu que queria parar de estudar e, de forma autoritária, a forçou a sair do colégio também, não permitindo que ela terminasse o ano letivo.
Acabei ficando completamente sozinha naquele colégio enorme; a sensação de vazio era constante. Eu sofria de todas as formas, pois ela era minha única amiga ali dentro. A sala vivia cheia, mas ninguém me apoiava ou me acolhia. Até que comecei a gostar de um garoto da turma. Ele era incrível: muito legal e o mais inteligente da sala. Nós trocávamos muitos olhares e conversávamos bastante; eu realmente achava que estávamos nos conhecendo e que daríamos certo. De repente, fui pega de surpresa quando ele assumiu um namoro com outra garota da nossa sala. Fiquei chocada, pois ela era muito criticada pelos outros colegas por ter uma liberdade sexual muito grande. Lembro-me até de vê-la tomando anticoncepcional em plena sala de aula. Na época, eu ficava de boca aberta com aquilo, mas, pensando bem, ela era apenas uma garota prevenida.
Pouco tempo depois, esse garoto teve que mudar de sala e de bairro. Ele voltou para uma região bem distante do Rio de Janeiro; na verdade, foi embora da nossa cidade para morar onde sua família vivia. No seu último dia, houve uma despedida coletiva. Ele abraçou a todos e, quando chegou a minha vez, surpreendeu-me ao pedir desculpas. Ele disse: "Me desculpa por não ter sido tão presente na sua vida, o amigo que você merecia". Eu apenas respondi: "Não, tudo bem". O tempo passou, mas, anos depois, acabei descobrindo que ele havia falecido.
Eu não guardava mágoa ou raiva dele; a escolha tinha sido dele, então eu não carregava nenhum ressentimento. Quando ele me pediu desculpas por ter se afastado, não levei aquilo muito a sério na época. Eu não imaginava que aquela seria, de verdade, uma despedida. Uma despedida para sempre. E foi.