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Última carta para Campainha

s_escarceu
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Campainha, minha flor, já faz um tempo que não te escrevo. Não te escrevo com esperança de que me leia, mas, ainda assim, te escrevo — e já te escrevi.

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tintaDeTerca

A parte de parecer tranquila pra todo mundo e não ser muralha nenhuma me pegou. Tem gente que só por ser quieta já leva fama de forte, e ninguém vem perguntar como anda. Aposto que quem convive com você vai se surpreender se um dia ler isso, porque a calm

A parte de parecer tranquila pra todo mundo e não ser muralha nenhuma me pegou. Tem gente que só por ser quieta já leva fama de forte, e ninguém vem perguntar como anda. Aposto que quem convive com você vai se surpreender se um dia ler isso, porque a calma por fora engana bem.

Conteúdo da publicação

Campainha, minha flor, já faz um tempo que não te escrevo. Não te escrevo com esperança de que me leia, mas, ainda assim, te escrevo — e já te escrevi.

Já é outubro. Há pouco tempo estávamos em fevereiro, esse mês que jamais vou esquecer. A gente sempre tem um mês, um dia, que nos marca. E fevereiro, assim como julho, me marcou.

Achei que era meu fim depois que fui embora. Como uma dependente, tive a sensação de que perdi um pedaço de mim. Chorei, me odiei, apaguei nossos registros, te escrevi, me odiei, me odiei. Me lamentei tanto. Achei que esse era o amor que merecia. Tentei te odiar, decidi te esperar, ignorando tua fala. Me perdi, comecei a me procurar.

Ainda não sei o que sou, mas sei um pouco do que perdi. Perdi a noção do tempo. Parecia que o tempo todo estive parada e, novamente, era fevereiro. Não sei quando voltei a sorrir. Quando as músicas pararam de cantar teu nome. Nossa pequena história. A última vez em que quis te escrever. A última vez em que quis parar de me bater.

Eu sempre fui dependente. Sempre tive medo de perder o controle e escolhia me entregar. Todas as vezes, mergulhei com medo de me encontrar. Mesmo prometendo não me deixar levar. Mas sempre fui dependente, e isso era uma droga.

Acho que você nunca notou. Nem eu notava. Sempre pareci tão tranquila, mas estava em colapso. Você me acalmava, e eu sou grata.

Não consigo te odiar, nem tenho motivos. Você me machucou, como é próprio do ser humano, fiquei sujeito às flechas. Eu te amei, todos os dias, todas as vezes que te falei. Pensei que morreria com tua falta, que nunca mais amaria. O dramático sentimento de quando se está na lama.

Sempre me lembro de ti quando relembro os primeiros encontros. Cada gesto, cada toque, cada sorriso, cada afeto. Fevereiro agora tem teu cheiro. Julho também.

De vez em quando, ainda penso em como seria recomeçar de outro jeito. Mas entendi que o meu para sempre acabou ali. Não tem mais espaço aqui. Ainda procurei, eu juro que procurei. Demorei e entendi.

Ao contrário do que pensam de mim, eu não sou forte. Não levanto rápido e, apesar de parecer, não sou muralha. Eu senti tua falta. Senti muito. Te escrevi várias vezes.

E hoje te digo: sou grata por todas as coisas boas que você me fez e entendi o que, hoje, você se tornou para mim.

Texto autoral

Thoughts

  • Ovid

    Fevereiro e julho com cheiro de alguém. Isso me fez pensar em como o calendário guarda as pessoas mesmo depois que a gente decide seguir em frente. Dá pra ver que esta carta foi escrita já com outubro na janela, olhando pra trás com mais calma do que nos meses que ela conta. Obrigado por trazer ela pra cá!

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  • tintaDeTerca

    A parte de parecer tranquila pra todo mundo e não ser muralha nenhuma me pegou. Tem gente que só por ser quieta já leva fama de forte, e ninguém vem perguntar como anda. Aposto que quem convive com você vai se surpreender se um dia ler isso, porque a calma por fora engana bem.

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