Depois daquela queda eu já esperava mais pancada, e o que veio foi cura, colo e brincadeira. Primeiro o desespero na borda da fenda, depois a luz morna fechando as costelas, e só então a carta chegando pra estragar a paz. Aposto que a Umbra apronta alguma antes de eles chegarem no Altar.
Tsugimon: glória e ruína
Capítulo 11
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Depois daquela queda eu já esperava mais pancada, e o que veio foi cura, colo e brincadeira. Primeiro o desespero na borda da fenda, depois a luz morna fechando as costelas, e só então a carta chegando pra estragar a paz. Aposto que a Umbra apronta alguma
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Capítulo 11
O eco do desabamento ainda vibrava nas paredes de pedra quando o silêncio fúnebre engoliu a superfície.
Tenten estava de joelhos diante da fenda escura que havia tragado Akashi, com as mãos trêmulas pressionadas contra o próprio rosto. As lágrimas desciam livres, misturando-se à poeira e à fuligem que cobriam sua pele. O choro era abafado, um misto de pânico e revolta contida que rasgava sua garganta. Ao lado dela, Tsuki encarava a escuridão do abismo com um olhar estático, o peito subindo e descendo em lufadas curtas, o choque ainda travando suas reações.
Segundos se arrastaram como horas até que Tenten engoliu o soluço com força. Ela enxugou o rosto com as costas da mão manchada de terra, deixou escapar um arquejo trêmulo e virou-se para a companheira, com os olhos vermelhos brilhando em pura determinação.
— Chega de chorar — a voz de Tenten saiu áspera, mas firme, cortando o ar pesado da montanha. Ela se pôs de pé com dificuldade, apoiando-se em uma rocha. — Ficar aqui lamentando não vai trazê-lo de volta e nem vai impedir que ele morra lá embaixo. Se a gente não fizer nada, vamos perdê-lo para sempre. Temos que dar um jeito de encontrá-lo.
Tsuki piscou, o transe quebrando-se enquanto assentia lentamente com a cabeça, a cor voltando ao seu semblante.
Foi então que, ao dar um passo para afastar os escombros da borda, o olhar de Tenten recaiu sobre uma fenda lateral na rocha, parcialmente oculta por raízes retorcidas e uma cortina de fumaça densa que exalava do ventre da montanha. Era uma abertura estreita, mas profunda, serpenteando para o interior inexplorado da terra.
Tenten apontou o queixo na direção do buraco negro, a respiração pesada marcando o ritmo de sua decisão.
— Olha ali... — ela murmurou, a voz carregando um misto de temor e urgência. — Aquela entrada... Deve ser por onde ele caiu ou para onde foi arrastado. Pode ser a única maneira de descer, segui-lo e salvar o meu namorado.
O cheiro de terra úmida, fumaça e o calor suave de uma energia reconfortante foram as primeiras coisas que alcançaram os sentidos de Akashi.
Ele piscou pesadamente, lutando contra o peso de suas pálpebras. A escuridão da cúpula subterrânea deu lugar a uma claridade fraca, filtrada por frestas de rocha acima. O braço que antes estava congelado e dormente agora latejava com uma dor maçante, mas o formigamento da cicatrização já corria por sua pele.
Movendo a cabeça com esforço, ele sentiu um peso macio e familiar apoiado em suas pernas. Tenten estava com a cabeça em seu colo, os cabelos despenteados e os olhos ainda inchados de tanto chorar, mas respirando de forma calma e constante. Bem ao seu lado, ajoelhada sobre os escombros, Tsuki concentrava o brilho suave de suas mãos diretamente sobre o peito machucado de Akashi, fechando as últimas fissuras em suas costelas com uma luz morna.
— Tsuki... Tenten...? — a voz de Akashi saiu como um arranhão seco, quase inaudível.
Tsuki ergueu o rosto de imediato, os olhos marejados de alívio brilhando na penumbra. Tenten sobressaltou-se, levantando o tronco com pressa e desabando em seguida para abraçar o tronco dele, o corpo tremendo de novo, mas desta vez de puro
— Você acordou... Seu idiota, seu imbecil, seu cabeça dura! — Tenten soluçou, enterrando o rosto no ombro dele, apertando-o com força, com medo de que ele desaparecesse.
— Como... como vocês chegaram até aqui? — Akashi murmurou, franzindo a testa enquanto tentava erguer o braço pesado. — O caminho estava...
Tsuki balançou a cabeça levemente, enxugando uma lágrima solitária com o dorso da mão suja de fuligem, enquanto cortava a magia de cura.
— Isso fica para depois, Akashi — disse Tsuki, a voz embargada, mas firme. — O importante agora é que você está vivo.
Tenten ergueu o rosto do ombro dele, fungando enquanto olhava fixamente nos olhos de Akashi, com a culpa estampada em cada traço de sua expressão.
— Me desculpa... — a voz dela saiu quebrada, um sussurro doloroso. — A culpa foi nossa... Nós deixamos você sozinho, fizemos você carregar tudo isso e sofrer tanto naquele inferno... Por nossa causa você quase morreu...
Tsuki abaixou a cabeça, o peso do arrependimento refletido no silêncio que se seguiu. As lágrimas voltaram a verter dos olhos das duas, um choro contido de quem havia encarado a possibilidade real de perder a pessoa que mais amavam.
Akashi sentiu um aperto no peito que não vinha dos ferimentos físicos. Com um gemido abafado pela dor, ele ergueu a mão boa e, com os dedos trêmulos, tocou o rosto de Tenten, enxugando de leve as lágrimas em sua bochecha. Em seguida, esticou o braço até Tsuki, puxando a cabeça dela para mais perto.
Ele se esforçou para erguer o tronco, ignorando a queimação nos músculos, e deu um beijo suave na testa de Tenten, e logo depois outro na bochecha de Tsuki.
— Ei... olhem para mim — Akashi falou baixo, mas com uma convicção serena que cortou o desespero delas. Um sorriso fraco, porém genuíno, desenhou-se em seus lábios. — Não foi culpa de nenhuma de vocês. Passou. O monstro já era. O importante agora é que vocês estão aqui, sãs e salvas comigo. Está tudo bem.
O calor abafado da cúpula subterrânea parecia diferente agora, menos opressor e muito mais próximo de um refúgio. Enquanto Tenten ainda se mantinha encolhida, com o rosto escondido no colo de Akashi, deixando escapar soluços baixos e abafados, ele olhou ao redor, fitando os túneis escuros que se estendiam para cima.
— E agora? Como... como a gente faz para sair daqui debaixo? — Akashi perguntou, a voz ainda rouca pela exaustão e pelos golpes que levara da hidra.
Tsuki, que continuava ajoelhada ao lado deles ajeitando os curativos improvisados, suspirou profundamente, traçando com o olhar o caminho íngreme por onde elas haviam descido. Ela colocou a mão carinhosamente sobre o ombro dele, ponderando as palavras antes de responder.
— Nós sabemos o caminho de volta, Akashi. Não se preocupe com a rota — disse Tsuki, com um tom de voz calmo, embora ainda carregado de fadiga. Em seguida, o semblante dela endureceu levemente com uma ponta de severidade médica e cuidado: — Mas você não vai a lugar nenhum agora. Os seus ferimentos ainda são muito sérios. Aquela criatura quase destruiu seu corpo por dentro, e vai demandar bastante tempo de descanso e magia para cicatrizar direito. Se tentarmos subir agora, você vai colapsar antes do primeiro túnel.
Abaixo da cintura de Akashi, Tenten deu um pequeno muxoxo abafado contra o tecido da calça dele. Sentindo o corpo dela tremer levemente com o resto das lágrimas, Akashi esboçou um sorriso fraco e cansado. Ele ergueu a mão boa, afagando os cabelos desgrenhados de Tenten com um carinho suave, enquanto desviava o olhar para Tsuki.
Mesmo com a fuligem cobrindo a pele, as roupas rasgadas e o cenário sombrio de um ossário ancestral ao redor, Akashi sentiu uma onda de conforto inexplicável invadir seu peito.
— Sabe... — Akashi murmurou, com um brilho terno e brincalhão no olhar, quebrando a tensão pesada do ambiente. — Parando para pensar agora... vocês duas estão absolutamente lindas. Mesmo cobertas de poeira e com cara de choro.
Tsuki corou instantaneamente, desviando o olhar para o lado com um meio sorriso envergonhado, enquanto Tenten fungava pesadamente, erguendo um pouco o rosto para encará-lo com os olhos vermelhos e uma expressão de falsa indignação.
— E... — Akashi continuou, suspirando aliviado enquanto encostava a cabeça na rocha atrás de si, apertando de leve as duas garotas — ...parece loucura, mas este lugar imundo e quente de repente não parece mais tão assustador. Afinal, agora eu tenho a melhor companhia do mundo comigo.
Trinta minutos haviam se passado desde a conversa, o tempo medido apenas pelo gotejar lento da água nas pedras e pelo ritmo gradual com que a energia de Tsuki repousava o corpo de Akashi.
A exaustão física e o alívio de estar com as garotas o puxaram para um sono profundo. Mas, na penumbra de sua mente, o repouso durou pouco. A escuridão ao seu redor dissolveu-se de repente, substituída por um vazio denso e estático onde flutuava um pergaminho antigo — a carta misteriosa que ele guardava desde o início de sua jornada.
As dobras do papel se abriram sozinhas e, de dentro delas, uma voz emergiu.
Não era uma projeção fria ou distante. Era uma voz real, sussurrada diretamente em sua consciência com um tom estranhamente familiar, um eco que arranhava memórias antigas de Akashi como se pertencesse a alguém que ele conhecia intimamente.
— Vocês não podem mais demorar para chegar ao Altar dos Sagrados, Akashi — a voz sussurrou, carregada de uma urgência sombria. — A besta que vocês derrotaram era apenas um peão. Ela já devorou o poder de um dos Sagrados... e não vai parar até consumir o de todos os outros. O verdadeiro terror vai acordar em breve. Mas não tema... em breve, voltaremos a lutar juntos.
— O qu—
Akashi sobressaltou-se, abrindo os olhos de jofre e puxando o ar com violência, o corpo inteiro tencionado pelo susto.
— Ora, olha só quem resolveu voltar do mundo dos sonhos — a voz da Umbra zombou bem na sua orelha. A silhueta translúcida da raposa de sombras estava empoleirada logo acima de seu peito, fitando-o com os olhos brilhantes estreitados em puro julgamento. — Dormindo no trabalho, Akashi? E com que audácia! Fui checar sua mente e descubro que você andou passeando por planos alheios, conversando com cartas sussurrantes. Por acaso me trocou por um pedaço de papel velho, seu traidor?
Ainda respirando acelerado pelo sobressalto, Akashi ignorou o sarcasmo felino da Umbra e virou o rosto para o lado.
A imagem que encontrou suavizou o ritmo de seu coração. Tsuki e Tenten dormiam profundamente ali ao seu lado, exaustas, com as cabeças apoiadas confortavelmente e as respirações sincronizadas no ritmo calmo da paz recém-conquistada.
Observando as duas na penumbra, a lembrança do aviso da carta ecoou em sua mente como um alarme frio. O tempo estava acabando, e o perigo real sequer havia começado.
Soltando um suspiro longo e pesado, Akashi ajeitou a cabeça de volta contra a pedra, fechando os olhos por mais um instante, mas sem conseguir apagar a convicção que queimava em seu peito: ele precisava acelerar as coisas, antes que o mundo desabasse de vez sobre eles.
Thoughts
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PermalinkA culpa das duas dura menos de um minuto: pedem desculpa, ele diz que passou, e ninguém volta ao assunto. Ficam a dever uma conversa sobre o terem deixado sozinho, e duvido que ela não regresse quando o perigo apertar outra vez.
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PermalinkDepois daquela queda eu já esperava mais pancada, e o que veio foi cura, colo e brincadeira. Primeiro o desespero na borda da fenda, depois a luz morna fechando as costelas, e só então a carta chegando pra estragar a paz. Aposto que a Umbra apronta alguma antes de eles chegarem no Altar.
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PermalinkA raposa ralha com ele por causa do papel velho, mas aquilo é ciúme puro. Dormiu trinta minutos e já lhe foram remexer no sono.
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PermalinkA voz do pergaminho diz que voltam a lutar juntos, e isso é bem mais do que ajudar de longe. Se ela sabe que a besta era só um peão, sabe também quanto tempo falta até ao Altar?
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PermalinkUai, o Akashi acorda com a cabeça dela no colo e a primeira coisa que faz é enxugar o rosto das duas. Gente machucada cuidando de gente machucada, é sempre assim mesmo. Fiquei com essa cena o capítulo inteiro.
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PermalinkA carta se abrindo sozinha dentro do sono dele e dizendo que em breve voltam a lutar juntos muda o tamanho de tudo, ainda mais com a besta sendo só um peão. Aposto que essa voz é alguém que o Akashi já conheceu e vai aparecer em carne e osso lá pelo Altar. Fiquei curioso pra ver a cara da Umbra nesse dia.
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PermalinkA Tenten levantou primeiro e já puxou as duas pra dentro da fenda, ó. Eu ainda ia estar sentada na borda pensando no assunto.
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