Carregando…

Tsugimon: glória e ruína

jao_victor
Pública 2 conversas 9 pensamentos 28 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Capítulo 1

Em séries

In groups

Pensamento

Pensamento

HoracioMelo

O clima desse capítulo é pesado. A gente sente que algo vai explodir logo, e aquela carta é só o sinal. Tá tensa a leitura mesmo.

O clima desse capítulo é pesado. A gente sente que algo vai explodir logo, e aquela carta é só o sinal. Tá tensa a leitura mesmo.

Conteúdo da publicação

Capítulo 1

A claridade da alvorada cortava as frestas da janela de madeira, mas o brilho que prendia a atenção de Akashi vinha de sua própria palma. A carta prateada pulsava com uma energia suave, iridescente, exalando um calor reconfortante que parecia desmentir o pesadelo gélido que acabara de viver. Ele mal teve tempo de assimilar o peso físico daquele objeto improvável antes que o som de passos apressados ecoasse no corredor de tábuas gastas da estalagem.

Antes que pudesse raciocinar, a porta do quarto abriu-se num solavanco.

— Akashi? Menino, acorda! O sol já passou da curva do morro e o café vai esfriar na mesa! — a voz firme e calorosa de Elena cortou o ar do quarto.

Por puro instinto de sobrevivência, num movimento rápido demais para os próprios pensamentos, Akashi fechou o punho com força, abafando o brilho da carta, e enfiou a mão debaixo do travesseiro enquanto se sentava bruscamente na cama, respirando fundo para disfarçar o peito ainda acelerado.

Elena parou no batente da porta, apoiando as mãos na cintura, com um avental de tecido rústico amarrado à cintura e os olhos carregados daquela preocupação maternal de quem conhecia cada tropeço do filho. Ela o analisou por um segundo, percebendo o suor que ainda brilhava em sua testa e a palidez no rosto dele.

— Você tá com uma cara péssima. Teve outro daqueles pesadelos de novo? — perguntou ela, a dureza na voz suavizando-se em pura empatia.

— Não... quer dizer, foi só uma noite mal dormida, mãe — Akashi respondeu, tentando manter a voz firme enquanto sentia a borda metálica da carta pressionada contra o colchão, logo atrás de suas costas. — Eu já tô descendo para tomar o café.

— Não demora. A mesa tá posta — Elena disse, balançando a cabeça em sinal de rendição antes de dar meia-volta e descer as escadas, deixando o cheiro de pão recém-assado e café coado flutuando pelo ar.

Assim que os passos da mãe sumiram no andar de baixo, o alívio durou meio segundo. A imagem do céu purpúreo, das armaduras estilhaçadas e, acima de tudo, de Tsuki e Tenten caídas entre os escombros invadiu sua mente com a força de um soco. O peso daquela visão o sufocou. Não dava para esperar. Sair correndo para a cozinha e fingir que nada estava acontecendo era impossível.

Akashi puxou a carta debaixo do travesseiro, guardando-a apressadamente no bolso interno do casaco, e saltou da cama. Calçou as botas às pressas, sem sequer amarrar os cadarços direito, e disparou para fora do quarto, ignorando os chamados confusos de Elena lá de baixo enquanto cruzava a porta da estalagem direto para a rua de terra da vila.

O vento frio da manhã bateu em seu rosto, mas ele não diminuiu o passo. Suas pernas o levaram em disparada pelas ruas estreitas de pedra, cortando caminho por entre as casas rústicas até avistar o destino.

No topo da colina que dominava a paisagem local, erguia-se o refúgio delas.

O lugar não era uma construção comum de habitação ou um quartel da Guilda; tratava-se de uma antiga igreja de pedra cinzenta, cujos arcos góticos e vitrais coloridos resistiram ao tempo, tendo sido adaptados há anos como lar e base improvisada para as duas garotas. Era ali, entre paredes que outrora guardavam preces e silêncio, que Tsuki passava horas catalogando pergaminhos antigos e Tenten transformava o altar sagrado em uma área de treino para manutenção de equipamentos.

Com o coração batendo na garganta, Akashi subiu os degraus desgastados de pedra da entrada, empurrou pesadamente as portas de madeira maciça e cravou os olhos no interior iluminado pela luz dos vitrais, desperate por apenas uma coisa: ver se elas estavam bem.

O eco do baque pesado das portas de madeira batendo contra as paredes de pedra da antiga igreja reverberou pelo santuário. O cheiro de cera de vela antiga, pergaminho mofado e o ferro frio das ferramentas de manutenção misturava-se no ar fresco da manhã.

A nave central, outrora destinada a altares e orações, havia sido completamente reconfigurada. Mesas de madeira rústica cobertas por mapas desdobrados, pilhas de livros de história e diagramas anatômicos de Tsugimons ocupavam o espaço onde ficavam os bancos dos fiéis.

Ao ouvir o estrondo da porta, duas silhuetas sobressaltaram-se entre os escombros da bagunça organizada.

Sentada sobre uma bancada de pedra próxima ao altar principal, Tsuki tinha os cabelos presos de qualquer maneira por um pedaço de corda, óculos de leitura escorregando na ponta do nariz e um pergaminho semi-enrolado na mão esquerda. Ela piscou, surpresa com a invasão, os olhos analíticos de repente arregalando-se ao ver a expressão pálida e o peito arfando de Akashi.

Do outro lado, perto de uma lareira improvisada onde afiava a lâmina de uma manopla, Tenten levantou-se num salto ágil, largando a ferramenta com um som metálico seco no chão de pedra.

— Akashi? — a voz de Tenten saiu cortante, misturando irritação por ter tomado um susto com uma ponta imediata de alarme. Ela deu dois passos rápidos para a frente, cruzando os braços. — O que deu em você? Bateu a cabeça na cama? Você apareceu aqui parecendo que viu um fantasma... ou pior, que correu uma maratona sem botas.

Tsuki já havia descido da bancada, os papéis deslizando por entre seus dedos enquanto se aproximava com passos firmes, o cenho franzido em uma expressão de profunda preocupação. Ela conhecia o namorado tempo suficiente para saber que o jeito desajeitado dele nunca era à toa.

— Ela tem razão, Akashi — Tsuki falou, a voz mais calma, mas com os olhos fixos nos dele, examinando cada detalhe do seu rosto pálido e o suor ainda preso na testa. — Você tá respirando fundo demais. Aconteceu alguma coisa na estalagem? Outro pesadelo?

O choque gélido daquela visão na igreja — a lembrança vívida da armadura estilhaçada, do sangue e do silêncio frio de um futuro onde elas não resistiram — colidiu violentamente contra a imagem viva, pulsante e inteira das duas paradas bem ali na sua frente.

A armadura invisível que Akashi tentava manter para parecer forte ruiu em uma fração de segundo.

Os olhos dele arderam, e um soluço abafado escapou por entre seus lábios enquanto as lágrimas começavam a descer livremente por seu rosto. Antes que Tsuki ou Tenten pudessem processar a invasão dramática, Akashi deu os passos que faltavam e fechou os braços ao redor das duas, puxando-as para um abraço desesperado, apertado, como se temesse que, ao soltá-las, elas fossem se transformar em poeira e cinzas.

— Ei, ei! Calma, respira... — Tenten murmurou, o susto inicial evaporando na mesma hora, substituído por um sobressalto de preocupação genuína. Os braços fortes dela imediatamente envolveram as costas de Akashi, retribuindo o aperto com força. — O que foi? O que aconteceu? A gente tá aqui, olha pra gente.

Tsuki, colada do outro lado, levantou as mãos para segurar o rosto dele, os dedos delicados enxugando as lágrimas quentes que molhavam suas bochechas. A expressão analítica dela deu lugar a uma vulnerabilidade profunda, o coração apertado ao ver o rapaz que ela amava desmoronar daquela maneira.

— Akashi, amor, fala com a gente — Tsuki pediu, a voz sussurrada, recheada de um carinho incondicional. — Foi um pesadelo? Foi de novo aquele sonho?

Apoiado no ombro das duas, Akashi respirou fundo, tentando conter o tremor nos lábios enquanto começaba a limpar o rosto com as costas da manga do casaco. Com a voz ainda embargada, ele foi soltando o fôlego e desabafando tudo, gesticulando de forma atropelada.

— Eu vi... Eu vi vocês lá fora, caídas... — a voz dele falhou, as palavras saindo cortadas pelo choro recente. — O céu estava purpúreo, tudo destruído. Tinha uma criatura... algo que não existe em nenhum livro, em nenhum registro. Ela queria consumir tudo. E vocês... vocês estavam no chão, feridas, a um passo de...

Tenten o puxou um pouco para trás, olhando direto em seus olhos com firmeza, mas com o peito ofegante pela gravidade do que ouvia. Tsuki segurou a mão dele, entrelaçando os dedos nos de Akashi para ancorá-lo de volta à realidade daquele santuário de pedra.

— Era só um pesadelo, Akashi. Só um sonho ruim — Tenten tentou convencer, embora houvesse um peso estranho na convicção das próprias palavras diante do desespero dele.

— Não era só um sonho, Tenten... — Akashi balançou a cabeça, sentindo o relevo da carta misteriosa guardada no bolso interno de seu casaco queimar contra o seu peito. — Ele deixou isso comigo.

Enquanto isso, a quilômetros dali, o sol da manhã já banhava a fachada rústica da casa onde Elena limpava a bancada da cozinha, os pensamentos vagando longe. O cheiro de café fresco subia do bule de barro, mas a xícara do filho continuava intacta e intocada sobre a mesa de madeira.

Ela parou o pano no ar, suspirando fundo enquanto olhava para o corredor vazio que levava à porta da frente, por onde Akashi disparara minutos antes.

A orelha atenta de mãe não deixava passar nada: as noites mal dormidas, o suor frio com que o menino acordava com frequência cada vez maior, os sobressaltos no meio da madrugada e aquele olhar perdido, como se estivesse vivendo em dois mundos ao mesmo tempo.

Elena cruzou os braços, apoiando o quadril na beirada da pia, e olhou para o marido, que arrumava algumas ferramentas de marcenaria perto da janela.

— Amor... você não acha que tá acontecendo alguma coisa com o Akashi? — ela perguntou, a voz carregada de uma apreensão silenciosa. — Ele anda estranho demais nas últimas semanas. Pálido, assustado... parece que carrega o mundo nas costas e não quer dividir com a gente.

O homem pausou o martelo, erguendo o olhar para a esposa com o cenho franzido pela preocupação.

— Ele é jovem, Elena. Tá naquela fase de querer correr o mundo, caçar, achar o próprio rumo...

— Não é só isso, e você sabe — Elena o interrompeu, balançando a cabeça com um misto de culpa e dúvida que a incomodava por dentro. Ela soltou um suspiro pesado, passando as mãos pelo avental. — Sabe... às vezes eu fico me perguntando se eu fiz certo em apoiar tudo isso. Se permitir que ele fosse morar tão perto daquela igreja, se envolver daquele jeito... Quer dizer, namorar duas meninas ao mesmo tempo, carregar essa rotina maluca com a Tsuki e a Tenten... Será que eu não tô deixando o meu filho assumir um peso grande demais pra idade dele? Será que foi uma boa ideia?

Thoughts

  • PatriciaNeves

    Aquela parte da igreja me pegou fundo. Gente desesperada a procurar respostas que só o tempo tem.

    Permalink
  • Oliviamar

    A carta não vem sozinha. Tem mais coisa que ele ainda não sabe, tenho certeza.

    Permalink
  • Nal

    Gostei muito dessa volta. Quando a gente acha que acabou é que começa mesmo.

    Permalink
  • LeandroPocas

    Eu também ia correr procurar se acordasse assim. Aquele desespero do Akashi indo pra igreja, entendo bem.

    Permalink
  • HoracioMelo

    O clima desse capítulo é pesado. A gente sente que algo vai explodir logo, e aquela carta é só o sinal. Tá tensa a leitura mesmo.

    Permalink
  • Ovid

    Esse capítulo tem a virada que funciona: quando ele acorda, quando vai pra igreja, quando a carta chega. Cada movimento é o certo na hora certa. O jogo muda quando aparece uma verdade que ele não sabia que precisava saber. Vai postar a continuação?

    Permalink
  • Gal

    Que tensão! 😰

    Permalink