Capítulo 2
O silêncio dentro da antiga igreja parecia mais leve agora, dissipado pelo calor do abraço e pela presença firme das duas. Akashi recuou um passo, enxugando as últimas lágrimas da bochecha com as costas da mão, sentindo a respiração finalmente voltar ao ritmo normal.
Ele olhou para Tsuki, cujos olhos claros ainda brilhavam com uma preocupação contida, e depois para Tenten, que cruzava os braços com uma expressão que misturava alívio e uma impaciência protetora.
— Tá bem, o susto já passou — Tenten pigarreou, quebrando a tensão com um meio sorriso, embora os olhos continuassem atentos. — Mas você vai ter que pagar um lanche bem reforçado na praça hoje para compensar o meu coração quase saindo pela boca, ouviu?
Tsuki deu um leve empurrãozinho de leve no ombro de Tenten, contendo um sorriso.
— Não começa, Tenten. Deixa ele respirar. Ele acabou de dizer que trouxe algo real.
Akashi assentiu, sentindo o relevo da carta guardada no bolso interno de seu casaco. Com um gesto firme, ele levou a mão até lá dentro e retirou o objeto, revelando-o sob a luz dourada do sol que atravessava os altos vitrais da igreja.
A carta prateada repousava sobre a sua palma, pulsando com uma iridescência suave, quase viva. Uma energia morna, de tom psíquico e puro, começou a irradiar dali, preenchendo o espaço ao redor com um zumbido sutil que parecia acalmar os sentidos.
Tsuki deu dois passos à frente, os olhos arregalados de puro fascínio intelectual. Ela estendeu a mão, parando os dedos a milímetros da superfície, sem ousar tocar.
— Isso... isso não é uma carta comum da Guilda. O padrão de energia... tem uma frequência psíquica e de luz que eu nunca vi em nenhum tomo antigo — murmurou ela, completamente hipnotizada, ajustando os óculos no rosto. — Akashi, onde você conseguiu isso?
— Foi no sonho... ou melhor, no segundo sonho — Akashi respondeu, a voz ainda baixa, encarando a carta com um misto de reverência e cautela. — Eu encontrei uma versão futura de mim mesmo lá. Alguém que perdeu tudo, lutando contra aquele monstro. Foi ele quem me entregou isso, dizendo que precisamos mudar o futuro antes que o ciclo feche.
Tenten cruzou os braços novamente, encarando o objeto brilhante com um ceticismo saudável, mas com o cenho franzido pela gravidade das palavras dele.
— Uma versão sua do futuro? Tá legal, o seu nível de estresse com os estudos e as caçadas tá começando a criar dimensões paralelas na sua cabeça — Tenten resmungou, embora houvesse uma nota de preocupação sincera em seu tom. Ela se aproximou mais, encostando o ombro no de Akashi para sentir o calor dele de perto. — Mas... brilha bonito, tenho que admitir. E esquenta o ar ao redor.
A proximidade repentina, o cheiro familiar do perfume delas e a onda de alívio por estarem todos ali, inteiros e salvos, fizeram o peito de Akashi se aquecer de uma forma que ele não esperava. O peso do apocalipse parecia um pouco mais distante quando olhava para as duas.
Sem dizer uma palavra, Akashi virou-se primeiro para Tsuki. Com um sorriso suave, ele segurou o queixo dela delicadamente com a mão livre e depositou um beijo calmo e demorado em seus lábios.
Tsuki pisocou duas vezes, surpresa pelo gesto repentino no meio daquela conversa técnica sobre o fim do mundo. O rosto dela, normalmente tão controlado e analítico, tingiu-se de um tom carmesim imediato. Ela desviou o olhar para o lado, as bochechas queimando, enquanto ajeitava a gola da blusa com dedos trêmulos, tentando recuperar a compostura acadêmica.
— A-Akashi! Do nada? — Tsuki gaguejou baixinho, pigarreando logo em seguida e disfarçando ao olhar fixamente para um pergaminho em branco na mesa. — Quer dizer... a análise da carta exige foco, e... e você não pode sair fazendo isso assim.
Antes que Tsuki conseguisse se esconder atrás dos próprios livros, Akashi virou-se com um sorriso travesso para Tenten.
A caçadora de linha de frente, que estava rindo da vergonha da namorada, travou na mesma hora quando viu os olhos de Akashi se voltarem para ela.
— Opa, calma aí, o show não foi... — Tenten tentou recuar um passo, mas já era tarde.
Akashi fechou o espaço entre eles e a puxou pela cintura, colando um beijo rápido e firme em seus lábios.
Tenten arregalou os olhos em um sobressalto genuíno. A vermelhidão subiu instantaneamente por seu pescoço até as pontas das orelhas. Ela deu um leve empurrão no peito de Akashi, meio sem graça, as bochechas ardendo enquanto tentava manter a pose durona de sempre.
— Tá doido?! Na frente dos... dos livros? Da mesa? De tudo?! — Tenten resmungou, cobrindo o rosto com as costas da mão, embora um sorriso inevitável estivesse escapando pelo canto de sua boca. — Você virou um abusado mesmo, né?
Tsuki, ainda com o rosto corado, olhou de relance para Tenten e depois para Akashi, balançando a cabeça com um meio sorriso divertido, enquanto o calor daquele momento afastava de vez os fantasmas da noite anterior.
— Bom... — Tsuki pigarreou, tentando retomar o controle da situação enquanto escondia o sorriso envergonhado. — Já que temos uma prova física de que o futuro está batendo à nossa porta... acho melhor pararmos de enrolar e descobrirmos que tipo de Tsugimon mora dentro dessa carta de luz.
Tsuki deu um passo à frente, ajustando a postura enquanto olhava para a carta prateada que Akashi ainda segurava. O calor daquele objeto parecia pulsar em sintonia com a respiração dele, mas quando o rapaz tentou canalizar sua energia interna para forçar o despertar do Tsugimon, nada aconteceu. A luz deu apenas um lampejo fraco antes de se apagar, como uma brasa sob uma lufada de vento frio.
— Não vai ser tão simples assim, né? — Akashi murmurou, franzindo a testa enquanto sentia o vazio familiar de quem ainda não possuía um vínculo firmado.
— É claro que não — Tenten deu um passo à frente, estalando os dedos com um sorriso confiante e desafiador. Ela fechou os olhos por um segundo, buscando a sintonia profunda com sua essência de caçadora de linha de frente. — Um Tsugimon de luz e uma carta daquela magnitude não respondem a caprichos. Se você quer que ele te escute, precisa mostrar que aguenta o tranco no campo de batalha. Quer ver como se faz de verdade?
Antes que Akashi pudesse responder, Tenten liberou sua energia. Uma lufada de ar quente varreu a antiga igreja, e padrões de armadura com relevos que lembravam chamas e escamas metálicas cobriram seu corpo em um flash de luz brilhante. A armadura robusta e agressiva da linha de frente transformou sua postura, exalando uma força física palpável.
Ao lado dela, Tsuki respirou fundo. O ar ao redor da garota distorceu-se com um brilho prateado e reflexivo. Em suas mãos, em vez de tomos ou cajados tradicionais de suporte, materializaram-se duas adagas curtas de lâminas translúcidas, esculpidas como cristais de gelo e energia vital. A armadura esguia e espelhada da Classe Ladino/Suporte moldou-se ao seu corpo, dando-lhe uma agilidade fantasmagórica.
— Minha vez de mostrar, Akashi — a voz de Tsuki saiu ligeiramente alterada, ecoando com uma ressonância dupla, fria e acolhedora ao mesmo tempo.
Para demonstrar sua mecânica única, Tenten deu um salto rápido para a frente, cortando o ar com um golpe simulado de punho contra um tronco de madeira usado para treino, cortando a própria pele de raspão de propósito para testar a agilidade. Uma linha de sangue apareceu em seu braço.
Em uma fração de segundo, antes mesmo de o sangue pingar, Tsuki desvaneceu em um borrão prateado. Ela surgiu ao lado de Tenten. Com um movimento preciso e gracioso de suas duas adagas, ela deslizou a lâmina não contra a amiga, mas levemente através da aura vital de Tenten. Em vez de ferir, a adaga absorveu o excedente de energia do ambiente e redirecionou um fluxo de luz esmeralda diretamente para o corte no braço de Tenten, fechando a ferida instantaneamente com um brilho reconfortante.
Tsuki recuou, girando as adagas com destreza, o olhar sério, mas com um canto de boca sorrindo.
— É assim que eu opero — Tsuki explicou, desativando o brilho das lâminas por um instante. — Eu corto a estagnação, ferir o inimigo drena o campo, e o fio da minha adaga sela a ferida dos meus parceiros. O suporte não precisa ficar de braços cruzados na retaguarda.
Akashi encarou as duas, maravilhado com a força e a sincronia que elas tinham. Ele olhou para a própria palma vazia, onde a carta continuava silenciosa. Ele sabia que o seu momento de brilhar — e de despertar o seu verdadeiro poder — exigiria muito mais do que apenas vontade. Exigiria sangue, suor e o fogo de uma batalha real.
Enquanto a luz das adagas de Tsuki ainda desvanecia no ar, o chão da antiga igreja tremeu levemente, respondendo à energia que as duas caçadoras haviam liberado.
— Uma armadura e adagas são só a metade do laço, Akashi — Tenten disse, abrindo um sorriso confiante enquanto estendia a mão para o lado.
Com um clarão em tons de âmbar e brasa, o ar ao redor dela se adensou. Do meio de partículas de fogo e faíscas que saltavam do chão de pedra, materializou-se Pyra, o Tsugimon de linha de frente de Tenten. Era uma criatura de grande porte, com uma silhueta que lembrava um felino blindado de escamas grossas e crina vulcânica, exalando um calor intenso que fez a temperatura da sala subir na mesma hora. Pyra soltou um ronco grave, encostando a cabeça pesada no ombro de Tenten em um gesto de pura cumplicidade e força bruta.
— Esse grandão aqui não serve só para fazer volume — Tenten riu, afagando a carapaça quente do Tsugimon. — Quando a gente entra em campo, ele absorve o impacto dos golpes mais pesados enquanto eu abro o caminho na base da pancada.
Ao ver isso, Tsuki deu um passo à frente, erguendo a mão esquerda com elegância. Onde sua energia prateada tocava o chão, pequenos cristais de luz estelar brotavam entre as pedras.
De dentro de uma névoa suave e prateada, emergiu Silph, o Tsugimon de suporte de Tsuki. Diferente da imponência feroz de Pyra, Silph era uma criatura esguia, de formas fluidas e etéreas, lembrando uma raposa mística com caudas longas que pareciam feitas de puro tecido estelar e energia de cura. Quando Silph flutuou ao lado de Tsuki, uma aura de calmaria e vigor instantaneamente tomou conta do ambiente, suavizando o calor forte que Pyra exalava.
— Silph não foi feito para linha de frente — Tsuki explicou, enquanto o Tsugimon encostava o focinho luminoso em sua bochecha. — Ele amplifica a minha percepção e estabiliza o fluxo de energia vital. É graças a ele que minhas adagas conseguem canalizar a cura com precisão, mesmo no meio do caos de uma luta.
Akashi observou os dois Tsugimons imponentes ao lado de suas namoradas. O contraste entre a ferocidade flamejante de Pyra e a serenidade cortante de Silph mostrava exatamente por que aquele trio era tão equilibrado.
Ele olhou para a carta prateada de luz e mente que guardava no bolso, sentindo o pulso sutil dela contra seu peito. O meu momento vai chegar — pensou. Quando a hora certa bater, eu e meu Tsugimon vamos estar prontos.Depois que Tenten desativou a armadura de fogo e Pyra recolheu-se em um brilho quente para descansar, Akashi tentou mais uma vez.
Ele segurou a carta de luz e mente entre os dedos, fechou os olhos e tentou canalizar toda a sua vontade, buscando qualquer centelha de sintonia que pudesse forçar o Tsugimon lendário a se manifestar. Mas o resultado foi frustrante: a carta apenas emitiu um pulso morno e preguiçoso, recusando-se a abrir o portal do vínculo. Nenhuma armadura surgiu. Nenhuma sombra ou luz o cobriu.
Akashi soltou o ar em um suspiro derrotado, guardando a carta de volta no bolso com um misto de frustração e ansiedade.
— Deixa para lá. Por enquanto, parece que ela só gosta de fazer bonito, mas não quer trabalhar — Akashi resmungou, dando um sorriso sem graça para as duas.
Tsuki, desativando suas adagas e recolhendo o etéreo Silph, deu um tapinha consolador no ombro dele.
— As coisas mais raras do mundo não obedecem à força bruta, Akashi. Quando for a hora certa, ela vai responder.
— Exato! E quer saber de uma coisa? Toda essa demonstração me deu uma fome dos infernos — Tenten declarou, passando o braço pelo pescoço de Akashi e puxando-o para perto com um sorriso largo. — Você não tinha falado que sua mãe tinha posto café na mesa? Vamos lá antes que o Pyra coma tudo o que tiver pela frente.
Poucos minutos depois, o trio cruzou a porta da casa de Akashi.
Assim que pisaram na cozinha, o clima mudou de figura. O cheiro maravilhoso de pão caseiro e café coado ainda pairava no ar, mas a atmosfera estava densa, cortante. Elena estava em pé perto da pia, secando as mãos no avental com força excessiva, enquanto seu pai, sentado à ponta da mesa de madeira, encarava a xícara fumegante com uma seriedade impassível.
Os olhos de Elena recaíram imediatamente sobre os três — especialmente no modo como Tenten e Tsuki estavam perto de Akashi, com a cumplicidade escancarada no brilho dos olhos delas. O silêncio que se instalou na sala fez o estômago de Akashi dar um nó.
— Bom... bom dia, mãe. Pai — Akashi cumprimentou, pigarreando para quebrar o gelo.
Elena abriu a boca para dizer algo — provavelmente questionando o horário, o sumiço matinal ou a dinâmica daquele trisal que ainda tirava o sono dela —, mas antes que pudesse disparar qualquer sermão maternal, o pai de Akashi ergueu a mão, pedindo silêncio com um gesto firme.
O velho carpinteiro levantou o olhar, cravando os olhos escuros e experientes diretamente no filho. Ele analisou a postura de Akashi, o volume sutil do casaco onde a carta estava guardada e a determinação silenciosa que agora parecia brilhar no rosto do rapaz.
O café seguiu seu curso sob um clima tenso, com poucas palavras trocadas, o tilintar das xícaras de ágata preenchendo o espaço enquanto Elena trocava olhares preocupados com o marido. Ninguém ousava tocar no assunto dos pesadelos ou do perigo lá fora.
Mas quando a última xícara foi apoiada sobre a mesa de madeira, o pai de Akashi respirou fundo, empurrou a cadeira para trás com um rangido seco e levantou-se. Ele caminhou até um velho armário de carvalho no canto da sala, destrancou uma gaveta oculta e de lá tirou um estojo de couro antigo, pesado e desgastado pelo tempo.
Voltando à mesa, ele colocou o estojo diante de Akashi e o abriu, revelando um artefato ancestral que emitia uma energia sombria e sólida.
O pai de Akashi o encarou fixamente, com uma gravidade que fez o ar ao redor parecer mais pesado:
— Filho... já passou da hora de você largar as fantasias e encarar o mundo de verdade. Está na hora de lhe dar o seu primeiro Tsugimon de verdade, e você finalmente sair na sua caçada.