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Tsugimon: glória e ruina

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Capítulo 3

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HoracioMelo

Li este de manhã cedo, antes das sete, como os outros. Fiquei foi com a mãe dele à porta, a ver o filho partir e a não dizer nada.

Li este de manhã cedo, antes das sete, como os outros. Fiquei foi com a mãe dele à porta, a ver o filho partir e a não dizer nada.

Conteúdo da publicação

Capítulo 3

O estojo de couro rústico abriu-se com um estalido abafado, revelando uma relíquia que parecia desafiar a própria luz da cozinha.

Sobre o forro de veludo escuro, repousava uma carta de invocação ancestral, amarelada pelo tempo, mas gravada com inscrições prateadas e runas estelares que pareciam orbitar o próprio papel. Não era uma carta comum comprada na Guilda ou encontrada em expedições; era a herança mais guardada da família de Akashi, passada de geração em geração em silêncio, sem que nenhum dos antecessores jamais tivesse conseguido fazê-la romper o selo e despertar.

Tsuki e Tenten mantiveram-se em silêncio ao lado de Akashi, observando o artefato com os olhos arregalados, sentindo a densa energia de sombras e espaço que emanava dali.

O pai de Akashi pousou uma mão calejada sobre a tampa do estojo, encarando o filho com uma seriedade solene que Elena acompanhava com o fôlego preso, os olhos marejados de apreensão.

— Essa linhagem nunca pertenceu aos campos de batalha comuns, Akashi — o pai começou, a voz grave ecoando pela cozinha silenciosa. — Essa carta veio com os nossos antepassados. Diz a lenda que ela escolhe apenas quem carrega o peso do invisível. Tentaram despertá-la por gerações, mas ela sempre permaneceu em silêncio. Até hoje. Você carrega algo inquieto dentro de si, filho. E chegou a hora.

Akashi sentiu o coração disparar no peito. Ele olhou para o estojo e, instintivamente, levou a mão até o bolso interno do casaco, sentindo o calor e o pulso da carta prateada de luz que o futuro eu havia lhe dado. Havia uma estranha ressonância silenciosa entre a carta ancestral que seu pai trouxera e a carta mística que ele guardava.

Com as mãos levemente trêmulas, Akashi estendeu os dedos e tocou a superfície da carta antiga.

Assim que sua pele fez contato, a carta não emitiu o fogo bruto de Pyra ou a calmaria estelar de Silph. Em vez disso, a luz da cozinha pareceu ser sugada para dentro do papel. A carta brilhou com uma penumbra prateada, e uma fumaça fria e densa começou a espiralar para fora dela, desenhando volutas no ar como poeira estelar na calada da noite.

O piso de madeira da casa estalou, e de dentro das sombras projetadas pelo fogão e pelas paredes, uma silhueta começou a tomar forma.

De início, apenas dois olhos de um azul-lunar penetrante abriram-se no escuro. Em seguida, a criatura emergiu com uma elegância felina e silenciosa. Era uma raposa de proporções esbeltas e letais, cuja pelagem era de um preto profundo e brilhante, absorvendo a luz ao redor como a mais pura penumbra. Ao redor do seu pescoço, uma densa gola de pelos de um branco-prateado impecável formava o desenho perfeito de uma lua minguante, e as pontas de sua cauda longa tremulavam como fios de prata pura que cortavam o tecido do espaço.

A raposa lunar deu um passo gracioso para a frente, emitindo um som suave, quase como o ronronar de um felino misturado ao sibilar do vento noturno. Ela olhou para Akashi, inclinando a cabeça com uma curiosidade milenar, antes de caminhar calmamente e encostar o focinho frio contra a palma da mão dele.

O laço estava selado. O Ladino da família havia escolhido seu mestre.

O pai de Akashi soltou um suspiro pesado, cruzando os braços, enquanto Elena cobria a boca com as mãos, chocada e orgulhosa ao mesmo tempo. Tsuki abriu um sorriso analítico e fascinado, e Tenten soltou uma risada abafada de pura empolgação.

— Pois bem — o pai concluiu, apontando para a porta da frente, onde o sol da manhã finalmente vencia a cerração do vale. — O seu Tsugimon escolheu você. Agora pegue suas cartas, chame suas parceiras, e vá cumprir o seu destino fora daqui. Sua caçada começou.Akashi olhou para a raposa prateada e negra encostada em sua mão, sentindo a textura macia da gola lunar e o pulso frio daquela energia sombria. Mas, antes que pudesse absorver completamente o peso de ter um Tsugimon legítimo, uma ficha caiu em sua mente. Ele olhou para o próprio corpo, depois para o pai, e arqueou uma sobrancelha.

— Espera aí... Pai, calma lá. Você tá me mandando para a caçada agora, mas cadê a minha armadura? A Tenten tem a couraça de fogo, a Tsuki tem os reflexos estelares... Eu fico como? Vou para o campo de batalha de casaco e coragem? — Akashi perguntou, gesticulando para as próprias roupas civis.

O pai de Akashi cruzou os braços, esboçando um meio sorriso irônico sob a barba grisalha.

— A carta escolheu o portador, mas a vestimenta e o domínio do espaço dependem inteiramente do seu alinhamento com a criatura, moleque. Aprenda a se mover nas sombras primeiro; o resto o campo de batalha ensina — retrucou o velho carpinteiro, dando de ombros.

Elena, ainda tentando processar o choque de ver o filho prestes a partir para o perigo, deu um passo à frente com os olhos brilhando de curiosidade e preocupação maternal, estendendo a mão para se aproximar da criatura.

— Meu Deus... ela é linda, mas tem um olhar tão arisco... Deixa eu ver de perto, filho... — murmurou Elena, aproximando os dedos com cuidado.

Ao lado dela, Tenten deu um passo à frente, rindo e erguendo a mão para coçar a orelha da raposa.

— É, deixa eu ver essa belezinha de perto também, vai...

Basta um segundo.

Assim que os dedos de Elena e Tenten quase tocaram a pelagem negra, a raposa lunar emitiu um som agudo e cortante. Em um borrão de fumaça e trevas, a criatura simplesmente desapareceu do lado de Akashi e reapareceu de forma agressiva e imediata bem na altura do ombro dele, com os pelos eriçados, as presas à mostra e um roncado feroz escapando da garganta.

Ela olhou fixamente para Elena, Tenten e Tsuki com olhos semicerrados e brilhantes, emitindo um rosnado baixo e intimidador que dizia claramente: ninguém além do meu dono chega perto.

Tenten recuou um passo num sobressalto, arregalando os olhos e erguendo as mãos em rendição com um sorriso incrédulo.

— Opa! Calma aí, sua bolsinha de pulgas estressada! Eu só queria fazer carinho!

Elena levou a mão ao peito, dando um passo para trás assustada com a atitude hostil da fera.

— Nossa... que bicho arisco! Tem certeza que isso vai te proteger, Akashi, e não arrancar o seu braço dormindo?

Tsuki, mantendo a postura analítica mesmo com o susto, ajeitou os óculos e observou a possessividade da criatura com um meio sorriso divertido.

— Fascinante... Ela tem um vínculo territorial extremamente restrito. Pelo visto, o Akashi vai ter trabalho para socializar com a própria parceira.

Akashi suspirou, sentindo a raposa lunar se enroscar levemente ao redor de seu pescoço, agora um pouco mais calma por estar colada a ele, mas ainda mantendo as orelhas em pé e encarando as três mulheres com desconfiança mortal.

— É... parece que ela não foi muito com a cara de ninguém além de mim — Akashi murmurou, ajeitando o casaco e sentindo o peso da carta antiga e da nova companhia. Ele olhou para o horizonte onde a cerração se abria, depois para suas parceiras e para seus pais na porta de casa. O chamado da caçada havia começado de vez.O silêncio que se seguiu à partida iminente foi preenchido apenas pelo som do vento batendo nos beirais da casa. Trinta minutos depois, no pequeno quarto de Akashi, a atmosfera de despedida deu lugar a uma tensão elétrica, sufocante e completamente diferente de tudo o que haviam vivido até ali.

As caixas de suprimentos e as bandagens de viagem jaziam esquecidas em um canto do colchão desarrumado. A raposa lunar, agora rebatizada instintivamente por Akashi como Umbra, descansava com uma elegância altiva sobre a viga de madeira do teto, os olhos azuis e brilhantes fitando a cena de cima, como uma sentinela sombria que tolerava a presença alheia apenas por respeito ao mestre.

No centro do quarto, o espaço era curto demais para a intensidade do momento.

Tenten estava encostada contra a parede de cal, com os braços cruzados numa tentativa falha de manter a postura durona, mas o rubor intenso que tingia suas bochechas e o modo como mordia o lábio inferior denunciavam o nervosismo. Apenas a alguns passos de distância, Tsuki ajustava distraidamente a gola da blusa, os olhos claros desviando-se para o chão de madeira enquanto as pontas de suas orelhas queimavam em um vermelho vivo. Estar ali, trancadas no quarto de Akashi sob o pretexto de organizar o equipamento antes da estrada, parecia subitamente carregar uma carga infinitamente mais pesada do que qualquer confronto com Tsugimons.

— Sabe... — Tenten começou, a voz saindo um pouco mais baixa e rouca do que o habitual, tentando quebrar o silêncio que pesava no ar. — Se a gente demorar mais dez minutos para sair, sua mãe vai subir aqui com um porrete para garantir que a gente só tá empacotando poções.

Akashi deu um passo à frente, fechando o espaço que restava entre eles. O cheiro de metal, pólvora e ervas medicinais misturava-se ao calor dos corpos. Ele estendeu a mão, os dedos roçando levemente a bochecha de Tsuki, que fechou os olhos por um segundo, cedendo ao toque com um suspiro trêmulo, antes de puxá-la para perto pela cintura. No mesmo instante, a outra mão de Akashi envolveu a nuca de Tenten, puxando-a para junto de si em um abraço coletivo que desarmou qualquer resquício de ironia que a caçadora ainda tentasse manter.

O fôlego de Tenten sumiu quando os lábios de Akashi encontraram os dela em um beijo profundo e urgente, um contraste direto com a calmaria matinal. Ao lado, Tsuki arqueou o corpo contra o abraço, cedendo ao calor do momento com um gemido abafado, as mãos firmes segurando a lapela do casaco dele como se temesse que o mundo desabasse e os levasse dali.

A urgência da partida, o medo latente da visão do apocalipse, o peso das cartas ancestrais e a intensidade de um amor forjado no fio da navalha fundiram-se em um único impulso.

As fronteiras entre o quarto rústico, o medo do futuro e a realidade de um mundo prestes a ruir evaporaram na penumbra daquele espaço restrito, enquanto o tempo lá fora parecia parar, deixando para trás apenas o calor dos corpos e o som abafado das respirações entrelaçadas até que a manhã desse lugar à decisão inadiável de partir.

Thoughts

  • HoracioMelo

    Li este de manhã cedo, antes das sete, como os outros. Fiquei foi com a mãe dele à porta, a ver o filho partir e a não dizer nada.

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  • soleioanoite

    A ressonância entre a carta antiga do pai e a carta prateada que o Akashi guarda no bolso ficou martelando na minha cabeça. Aposto que as duas são a mesma carta em tempos diferentes.

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  • Ovid

    Cheguei neste capítulo sem conhecer os anteriores e mesmo assim entrei fácil na história. A cena que ficou comigo foi a Umbra sumindo e reaparecendo no ombro do Akashi, rosnando pra todo mundo que chegava perto. Adorei que o bicho escolheu o dono e já veio com temperamento próprio. Vai postar o capítulo 4 por aqui?

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  • romanceNasCostas

    A Umbra rosnando pra Elena e pra Tenten quando elas foram só fazer carinho, isso já me contou o resto da história. Bicho ciumento não muda, ele só arruma companhia. Aposto que quem vai domar essa raposa vai ser a Tsuki, com aquela paciência de quem observa antes de encostar.

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