O Joel passou dias comendo aquele cadeado devagar com a mistura. Aposto que o fogo termina o serviço e a portinha dos fundos é por onde os dois saem.
Teoria nº 30: Equação da Identidade Falsa
Pensamento
O Joel passou dias comendo aquele cadeado devagar com a mistura. Aposto que o fogo termina o serviço e a portinha dos fundos é por onde os dois saem.
Conteúdo da publicação
Segunda-feira, 04 de maio de 2026
Enquanto Augusto se aproximava, eu dava passos leves para trás. Prendo a respiração, vou recuando até encostar no canto da parede, me abaixo e fico completamente imóvel.
— Que estranho... — diz Augusto, confuso, olhando ao redor com desconfiança.
— Tá escutando fantasmas agora? — debocha Joel.
— Desde que entrei na mansão, estou com a sensação de que alguém está me seguindo — diz Augusto, cerrando os olhos.
— Acho que isso é falta de um psiquiatra — retruca Joel, frio.
— Cala essa boca — rosna Augusto, irritado, enquanto caminha em direção ao elevador.
Solto um suspiro aliviado.
Mas, de repente, meu celular começa a tocar.
Antes que eu consiga reagir, Augusto se vira bruscamente e corre na minha direção.
— Te peguei! — grita ele, me agarrando no ar.
Reajo por instinto. Acerto um golpe certeiro em seu estômago e, em seguida, um soco forte em seu rosto, fazendo-o cair no chão. Corro desesperadamente até o elevador, aperto o botão para subir, mas, antes que a porta se feche, Augusto a segura com força.
Ele tateia o ar, até finalmente me alcançar.
— Ah... você está aqui — diz, com um sorriso cruel, puxando-me para fora do elevador.
Faço força para me soltar, e o tecido da capa se rasga. Em segundos, volto a ficar visível.
— Ariel? — diz Augusto, chocado ao me ver.
Ele me arremessa contra a parede de vidro.
— Ariel... é você mesmo? — diz Joel, em choque.
Viro o rosto na direção dele e consigo esboçar um leve sorriso.
— Então você é o "fantasma" que estava me seguindo — diz Augusto, com um sorriso cínico.
Tento me levantar rapidamente, mas ele ergue a mão, me interrompendo.
— É melhor nem pensar nisso — completa, sacando uma arma da cintura.
— Por favor, não machuca ele — implora Joel, desesperado.
— Como você me descobriu? — questiona Augusto, incrédulo.
— As suas pernas — respondo, com a voz firme.
— Como assim? — pergunta ele, confuso.
— Faltou uma coisa para você copiar — diz Joel, puxando a barra da própria calça e revelando a prótese.
— Você tem a perna amputada... — murmura Augusto, chocado. — Então é por isso que você ficava me provocando para ter relações íntimas com o Ariel.
— Joel... — digo, incrédulo, encarando-o.
— Desculpa, estrela da cozinha, mas era o único jeito — responde ele. — Assim que você visse as duas pernas dele, ia desconfiar.
Augusto ri, nervoso.
— Então seus amiguinhos também desconfiam de mim? — questiona.
— Não... eu não disse nada a ninguém — respondo.
— Então foi por isso que você ficou estranho assim que viu minhas pernas — diz Augusto, em choque. — Mas me diga... quem te deu essa capa?
— O Rafael me mostrou hoje de manhã. Depois disso, tive a ideia de te seguir — digo, firme. — Pedi a capa emprestada.
— Por que você não contou nada para o Wei e o Rafael? — pergunta Joel, frustrado.
— Fiquei com medo de eles me acharem maluco... mas, pensando melhor agora, eu me arrependo — respondo, com a voz carregada de frustração.
De repente, meu celular começa a tocar novamente.
O som ecoa alto demais naquele espaço fechado.
— Me dá isso — ordena Augusto, esticando a mão.
Ele se aproxima devagar, a arma apontada para mim. Em um movimento rápido, enfia a mão no meu bolso e arranca meu celular.
— Olha só... é a vovó — debocha, com um sorriso cruel.
Antes que eu consiga reagir, ele arremessa o aparelho no chão.
O celular se despedaça em vários pedaços.
— Não! — grito, desesperado, encarando os cacos no chão.
— Amanhã eu decido o que faço com você — diz Augusto, frio.
Em seguida, ele levanta a arma e a usa como um bastão, acertando um golpe violento na minha cabeça.
Abro os olhos devagar e a primeira coisa que vejo é o Joel. Estou dentro do laboratório, deitado no chão, com a cabeça apoiada em suas coxas. Uma dor latejante pulsa na minha cabeça.
— Amor... você está bem? — pergunta Joel, aflito, assim que percebe que acordei.
— Ai... minha cabeça — murmuro, levando a mão até o local da pancada. — Está tudo girando...
Tento me sentar, mas ele me segura com cuidado.
— Calma... fica assim um pouco — diz, passando a mão pelos meus cabelos, com um carinho que faz meu peito apertar.
— Eu senti tanto a sua falta... — diz Joel, com a voz trêmula, antes de me puxar para um abraço.
— Eu também... — respondo, chorando, enterrando o rosto em seu peito.
— Você se arriscou demais vindo aqui — diz ele, preocupado, segurando meu rosto com as duas mãos. — Por que não contou nada aos nossos amigos?
— Mas eu contei... tudo isso foi um plano nosso — digo, com convicção — Eu só não queria dizer nada na frente daquele maluco. Tive medo de ele tentar fazer algo contra o Wei ou o Rafael.
— Ver o seu rosto... mesmo assim, meio embaçado... já me alivia — diz Joel, deslizando os dedos pela minha bochecha com extremo cuidado.
— Eu tenho uma coisa pra você — digo, com um sorriso.
— O quê, amor? — pergunta ele, curioso.
— Fecha os olhos — peço, levando a mão ao bolso.
Joel obedece, confiando em mim sem hesitar.
— Pode abrir agora — digo, depois de tirar a caixinha, pegar os óculos e colocá-los delicadamente em seu rosto.
— Perfeito... — diz ele, sorrindo ao me encarar. — Seu rosto fica ainda mais lindo refletido nessas lentes.
Ele se inclina e deposita um beijo delicado em meus lábios, como se tivesse medo de me quebrar.
— Você está com fome, amor? — pergunta, puxando a bandeja para perto.
— Só um pouquinho — respondo.
Nós começamos a comer ali mesmo, sentados no chão.
— Toma, estrela da cozinha — diz Joel, levando a colher até a minha boca.
— Come você também, amor — digo, pegando a colher e levando até os lábios dele.
Depois de comermos, ficamos juntinhos. Joel me abraça por trás, encaixando meu corpo no dele, e apoia o queixo em meu ombro. Sinto seu coração batendo calmo, em contraste com o caos ao nosso redor.
— Lembra quando você se declarou pela primeira vez para mim? — digo, olhando para ele. — Naquela vez, na biblioteca.
— Você quer falar sobre o Henrique e a hipnose, né? — diz Joel, com convicção.
— Então você já sabe? — pergunto, chocado.
— O Augusto me contou tudo — responde Joel, enquanto faz carinho no meu cabelo.
— Não sabia que o Augusto era fofoqueiro — digo, revirando os olhos.
— Eu sempre soube que você me amava... pelo jeito que a gente se olhava, pela forma como agia — diz Joel, com um sorriso.
— Você tinha razão. O meu amor estava trancado dentro de mim — digo, tocando o peito. — Ele não surgiu do nada.
— O doutor Montenegro é um invejoso mesmo — diz Joel, com rancor na voz. — Não sei por que ele sempre implicou comigo desde a época da escola.
— Agora ele vai pensar duas vezes antes de te provocar de novo — digo, com um leve sorriso.
— O maldito do Augusto está destruindo a minha imagem — diz Joel, pensativo. — Não sei para quantas pessoas vou ter que me desculpar por causa do comportamento desse "eu" infeliz.
— Então vai se preparando, porque a lista é longa — digo, pensativo.
— Amor, eu quero te mostrar uma coisa — diz Joel, levantando-se com cuidado.
Ele me conduz até os fundos do laboratório. Ali, há uma pequena porta de metal, presa por um cadeado grande, antigo e visivelmente corroído. O ferro está opaco, cheio de manchas alaranjadas e pequenas fissuras.
— Eu não sei o que existe por trás dessa porta — diz Joel, sério. — Mas essa é a minha única esperança de sair daqui.
Ele se abaixa e pega alguns frascos e recipientes improvisados.
— O que você pretende fazer? — pergunto, curioso.
— Desde que fui trancado aqui, venho usando uma mistura química para enfraquecer o metal do cadeado — explica Joel, colocando os produtos no chão com cuidado. — É um processo lento, mas constante.
Ele pega dois frascos transparentes e começa a misturar os líquidos. Um cheiro ácido se espalha pelo ar.
— Essa solução provoca uma reação de oxidação acelerada — continua. — Basicamente, ela "come" o ferro por dentro, criando microfissuras.
— E a bateria? — pergunto, enquanto observava ele arrancar da capa.
— Com a ajuda dessa bateria, consigo acelerar o processo — diz Joel, conectando alguns fios improvisados ao cadeado. — A corrente elétrica aquece o metal e intensifica a reação química. Quanto mais quente o ferro fica, mais rápido ele se desgasta.
— Quanto tempo falta para esse cadeado ceder? — pergunto, apreensivo.
— Com a bateria funcionando bem... talvez dois ou três dias — responde ele, enquanto espalha a mistura sobre o cadeado com um pincel improvisado. — Sem isso, levaria semanas.
— E o que tem atrás dessa porta? — pergunto, olhando para a pequena passagem.
— Eu não faço ideia — diz Joel, encarando o metal como se pudesse atravessá-lo com o olhar. — Mas se eles se deram ao trabalho de trancar com um cadeado desse tipo, deve existir uma saída.
De repente, escuto um barulho. O elevador está descendo.
— Tem alguém vindo — diz Joel, desesperado, enquanto tenta esconder rapidamente os produtos químicos.
— Eu pensei que ele só viesse amanhã — digo, sentindo o coração disparar.
— Vem, Ariel, vamos — diz Joel, segurando minha mão e me puxando para a frente do laboratório.
A porta é destrancada. Quando se abre, vejo quem é. Doutor Prado. Só de encará-lo, a raiva toma conta de mim.
— Como você teve coragem de fazer isso com o Joel? — grito, furioso.
— Eu sinto muito... — diz ele, de cabeça baixa. — O Augusto me obrigou a fazer tudo isso.
— Eu não acredito que você deixou aquele louco te manipular! — berro.
— Eu também me faço essa pergunta todos os dias — responde, com a voz pesada.
— Então faça a coisa certa. Liberta a gente — digo, sem desviar o olhar.
Doutor Prado se aproxima do vidro e pousa a mão sobre ele.
— É exatamente por isso que eu vim — diz ele, respirando fundo. — Eu vou libertar vocês.
— Sério, doutor? — pergunta Joel, chocado.
— Sim, doutor Martins. Está na hora de pôr um fim nessa loucura — afirma ele.
De repente, o barulho do elevador ecoa novamente. Meu estômago se revira.
É o Augusto.
— Filho... — sussurra doutor Prado, visivelmente assustado.
— O que o senhor veio fazer aqui? — questiona Augusto, confuso.
— Eu vim soltar esses dois — responde doutor Prado, com firmeza.
— O senhor só pode estar brincando — diz Augusto, incrédulo.
— Eu preciso fazer o que é certo, filho — insiste doutor Prado.
— Quer me ver atrás das grades? Com a vida destruída? — grita Augusto, tomado pelo ódio.
— Precisamos pagar pelo que fizemos — diz o pai, com a voz embargada.
— O senhor nunca me apoiou em nada! — explode Augusto. — Me obrigou a cursar Física, sabendo muito bem que esse nunca foi o meu sonho!
— Eu sei... eu errei muito com você — diz doutor Prado, aproximando-se. — Mas ainda há tempo de consertar as coisas.
Ele toca o ombro do filho.
— Tarde demais! — grita Augusto enquanto agarra o pescoço do pai com força.
— Filho... — tenta dizer doutor Prado, enquanto luta por ar.
— Por favor, não faz isso! — grito, desesperado.
— Augusto, não se transforme em um monstro! — berra Joel, socando o vidro.
Augusto não nos ouve. Seus olhos estão vazios. Frios.
Ele aperta ainda mais o pescoço do pai, até o corpo dele ceder e cair no chão.
O silêncio é sufocante.
— Tenha bons sonhos, papai — diz Augusto, friamente, enquanto termina de estrangulá-lo.
— Você é um monstro! — grito, horrorizado.
— Um monstro? Jamais — diz Augusto, arrastando o corpo do pai até o elevador. Sem demonstrar qualquer piedade, ele o joga para dentro. — Vamos acabar com isso.
Ele retorna trazendo um galão.
— O que você vai fazer? — pergunta Joel, desesperado.
— O final do doutor Prado foi trágico — diz Augusto, enquanto posiciona o galão sobre um pequeno buraco. Ele começa a despejar o líquido. É gasolina. — Morto pelo próprio assistente.
Meu coração dispara.
— Você está completamente louco! — grito.
— Obrigado por matar o meu pai — diz Augusto, encarando Joel com um olhar frio. — A partir de amanhã, serei apenas a vítima... e o herdeiro.
— Você acha mesmo que vai sair impune? — diz Joel, com a voz carregada de raiva.
— Claro que vou — debocha Augusto. — Afinal, eu estou no seu corpo. Amanhã vão encontrar o cadáver do meu pai, e as digitais serão as suas, não as minhas.
Ele espalha gasolina por todo o laboratório. O cheiro forte invade o ar, tornando a respiração pesada.
— O doutor Martins surtou, matou meu pai... e o próprio namorado — diz ele, acendendo um fósforo entre os dedos.
— Por favor, não faz isso — implora Joel, com a voz quebrada.
— Tarde demais.
Augusto solta o fósforo.
O fogo se espalha, subindo pelas paredes e consumindo tudo ao redor. Augusto corre até o elevador.
— Tchauzinho — diz, acenando, enquanto a porta se fecha lentamente diante das chamas.
Corro até o banheiro, mas não há água em lugar nenhum.
— Ele cortou o abastecimento — diz Joel, em desespero.
O calor aumenta. A fumaça começa a arder nos olhos.
— O que a gente vai fazer? — digo, em pânico, enquanto o abraço com força.
As chamas avançam, engolindo o chão à nossa frente. Damos passos para trás, encurralados.
O fogo está cada vez mais perto.
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PermalinkO Joel passou dias comendo aquele cadeado devagar com a mistura. Aposto que o fogo termina o serviço e a portinha dos fundos é por onde os dois saem.
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PermalinkAi meu Deus, o pai desce pra fazer o certo, admite que errou com o filho, e o Augusto aperta o pescoço dele assim mesmo. Esse menino eu já não salvo mais não, viu.
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Segunda-feira, 04 de maio de 2026