A pista tava no Rex desde o capítulo passado: quem copia o rosto não copia a lembrança, e o Augusto precisa mandar mensagem lá pra baixo toda vez que o Wei joga verde. O Joel preso virou o dicionário dele.
Teoria nº 29: A Falha da Cópia Perfeita
Pensamento
A pista tava no Rex desde o capítulo passado: quem copia o rosto não copia a lembrança, e o Augusto precisa mandar mensagem lá pra baixo toda vez que o Wei joga verde. O Joel preso virou o dicionário dele.
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Segunda-feira, 04 de maio de 2026
Passei a manhã inteira ignorando as mensagens do falso Joel. Ele chegou até a me ligar de outro número, pedindo desculpas pelo seu comportamento. Ignorei e desliguei na cara dele.
Wei e Rafael disseram que vão encontrar um jeito de coletar material para fazer o teste de DNA. Já é horário de almoço, e os dois vieram comer aqui em casa. Estamos sentados à mesa, comendo.
— Aquele cara definitivamente não é o Joel! — diz Rafael, incrédulo, passando a mão pelo cabelo.
— Acredita em mim agora? — digo, encarando os dois, com o coração apertado.
Wei solta um suspiro pesado, ainda visivelmente abalado.
— A gente passou a manhã inteira jogando verde — diz ele, chocado. — Contamos situações que nunca aconteceram... e ele confirmou todas, sem nem hesitar.
— Em certas ocasiões, fazíamos perguntas que só o verdadeiro Joel saberia responder — completa Wei, agora mais sério. — Mas o falso Joel sempre mudava de assunto... e, logo depois, mandava mensagem para alguém. Pouco tempo depois, ele já aparecia com a resposta certa.
Sinto um frio percorrer minha espinha.
— Isso quer dizer o quê? — pergunto, com a voz mais baixa.
Rafael cruza os braços, pensativo, antes de responder:
— Quer dizer que ele está mantendo contato com o Joel verdadeiro.
— O Joel deve estar sendo mantido em cativeiro — diz Wei, com firmeza, embora com o olhar tenso.
— A gente precisa fazer alguma coisa... — digo, desesperado, sentindo a urgência crescer dentro de mim.
Rafael assente com a cabeça.
— A gente já conseguiu material do falso Joel.
Wei completa, olhando para mim com seriedade:
— Agora... é só esperar o resultado.
— Não podemos ficar parados. E se esse louco estiver fazendo mal ao meu doutor? — digo, apreensivo.
— Eu tenho um plano — diz Rafael, enquanto tira algo da mochila. É uma capa transparente, parecida com uma capa de chuva.
— Melhor não... isso vai ser muito perigoso — diz Wei, apreensivo.
— E essa capa de chuva? — pergunto, confuso.
— Isso não é uma capa de chuva — diz Wei, esticando o material até quase tocar o chão.
— Então o que é isso? — questiono.
— O nome científico é Manto de Refração Óptica Ativa, ou MROA — diz Rafael, empolgado. — Mas eu prefiro chamar de capa de invisibilidade do Harry Potter.
— Você está dizendo que essa coisa deixa alguém invisível?! — digo, surpreso.
— Sim. A NASA mandou essa capa recentemente para testarmos — explica Wei.
— É sério mesmo? — pergunto, tocando o material, que parece frio e estranho.
— Eu vou te mostrar — diz Rafael, levantando-se.
Ele veste a capa, coloca um relógio no pulso e ajusta algumas configurações. Em segundos, seu corpo começa a se distorcer... até desaparecer completamente.
— Maneiro, né? — escuto apenas a voz empolgada de Rafael vindo do nada.
— Mas... como isso é possível? — digo, incrédulo.
— Vou explicar — diz Wei, respirando fundo. — Essa capa é feita de um metamaterial com índice de refração variável. Em vez de refletir ou absorver a luz, ela a curva ao redor do corpo.
— Curva a luz...? — pergunto, impressionado.
— Exatamente — continua Wei. — A luz que deveria bater no Rafael é desviada e reconduzida para trás dele, como se o espaço estivesse dobrando. Para quem olha de fora, é como se ele simplesmente não estivesse ali.
— O relógio controla isso — completa Rafael, ainda invisível. — Ele ajusta a frequência eletromagnética do material em tempo real, compensando movimento, sombra e até calor corporal.
— Ou seja — diz Wei — aos olhos humanos e às câmeras comuns, ele se torna invisível. Mas o efeito não dura muito e exige muita energia.
— A bateria dura exatamente entre vinte e cinco e vinte e seis horas — diz Rafael, enquanto volta a ficar visível.
— Com isso, vou poder seguir o falso Joel sem que ele perceba — digo, esperançoso.
— Ariel... é melhor eu fazer isso — diz Rafael, preocupado.
— Não. Sou eu quem tem que fazer — respondo, firme. — Eu vou tomar cuidado. Vou seguir o falso Joel até a casa dele.
— Já está na hora de irmos para o laboratório — diz Wei, olhando para o relógio.
— Eu vou segui-lo assim que ele sair do laboratório — digo, determinado.
— Não se esqueça de que saímos às dezessete horas — lembra Rafael, enquanto me entrega a capa.
Wei e Rafael vão para o laboratório pouco depois. Quando o horário se aproxima, sigo para a frente da universidade. Vou discretamente até o carro do Joel e coloco um rastreador bem escondido. Em seguida, atravesso a rua e entro na lanchonete em frente. Peço um café e me sento à mesa. Antes disso, coloco um óculos escuro para não ser reconhecido.
Fico ali por alguns minutos, observando a universidade de forma discreta. Não demora muito até Wei e Rafael saírem. Pouco tempo depois, Joel aparece. Assim que o carro dele dobra a esquina, chamo um táxi e sigo atrás.
Consulto o rastreador, mas algo está errado. Esse não é o caminho da casa do Joel.
Então... para onde ele está indo?
Essa rua é familiar.
Peraí... essa é a rua da casa do doutor Prado.
Exatamente como eu suspeitava.
O carro para em frente ao portão da mansão. Meu coração acelera. Desço na esquina, olhando rapidamente para os lados. Coloco a capa... e, em segundos, meu corpo desaparece no ar.
Invisível.
Corro na direção do portão, passando por ele no exato momento em que começa a se fechar. Por pouco.
Joel estaciona o carro com tranquilidade e entra na mansão, como se nada estivesse fora do lugar. Eu o sigo de perto, prendendo a respiração a cada passo, tomando cuidado para não fazer o menor ruído.
A sala está iluminada.
E o doutor Prado está lá.
— Até que enfim, filho — diz ele.
Filho?
Meu corpo trava por um segundo.
Como assim... filho?
Por que ele chamou o Joel de filho?
Um frio percorre minha espinha.
— Vou sair para curtir — diz Joel, com desdém.
— Vai voltar tarde? — pergunta o doutor Prado, observando-o com atenção.
— Vou. Não me espera. Vou encher a cara e pegar umas gatinhas — responde Joel, dando de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Meu estômago se revira.
— Mas e o Ariel? — questiona o doutor Prado.
Joel revira os olhos, impaciente.
— O "namoradinho" do Joel está se fazendo de difícil. Não quer me satisfazer.
— Não diga isso tão alto. Alguém pode escutar — repreende o doutor Prado, olhando ao redor, cauteloso.
Joel apenas solta um riso baixo.
— Preciso da fórmula R.E.F.L.E.X — diz ele, direto.
— Está na geladeira do escritório — responde o doutor Prado, sem hesitar.
— Tá bom, então — diz Joel, já se virando e seguindo pelo corredor.
Eu vou logo atrás.
Invisível.
Atento a cada movimento, a cada som, a cada detalhe.
Assim que ele abre a porta do escritório, deslizo para dentro antes que ela se feche... silencioso como uma sombra.
O falso Joel caminha até a geladeira, pega um pequeno frasco e bebe o líquido de uma só vez.
Meu olhar é atraído para a mesa.
Há uma pasta ali.
Na capa, em letras frias e técnicas, está escrito:
PROJETO REFLEX
De repente, uma curiosidade enorme toma conta de mim.
— Preciso de um banho — diz o falso Joel, cheirando a própria camisa.
Assim que ele sai do escritório, me aproximo rapidamente, pego a pasta e a abro.
— Pera aí... mas o que é isso? — digo, chocado, enquanto viro as páginas.
PROJETO REFLEX
REFLEX - Reconstructive Epigenetic Facial Expression
Nome científico completo da fórmula:
Solução de Reprogramação Epigenética Morfofacial Temporária (SREMT-REFLEX)
Classificação:
Biofármaco experimental de reconfiguração epigenética parcial
Desenvolvido em colaboração com a NASA - Divisão de Engenharia Humana e Biotecnologia Aplicada
Descrição Científica da Fórmula Reflex
A Fórmula Reflex é um composto bioativo avançado criado para alterar temporariamente a aparência externa de um indivíduo, tornando-o fisicamente semelhante a outra pessoa específica, com base em material genético previamente coletado.
Importante:
A Reflex não cria uma cópia perfeita. Ela atua apenas em tecidos biologicamente regeneráveis, respeitando limites estruturais do corpo humano.
Como a Fórmula Funciona
A Reflex atua em dois níveis principais, e possui restrições claras:
1️⃣ Reprogramação Epigenética Superficial
A fórmula altera temporariamente a expressão de genes ligados a:
Formato do rosto
Traços faciais
Tom e textura da pele
Estrutura muscular superficial
Essas alterações ocorrem sem modificar o DNA original - apenas os genes ativos.
2️⃣ Limitações Estruturais da Fórmula
A Reflex NÃO CONSEGUE copiar:
❌ Amputações
❌ Ausência de membros
❌ Cicatrizes profundas ou marcas corporais permanentes
❌ Comprimento exato do cabelo
Isso acontece porque:
Amputações exigiriam reconstrução óssea e neural completa, algo biologicamente impossível sem engenharia regenerativa avançada.
Cicatrizes são tecidos fibrosos estáveis e não respondem à reprogramação epigenética.
O crescimento capilar não pode ser acelerado ou encurtado com precisão.
➡️ Por isso, o usuário da fórmula precisa ajustar manualmente o corte de cabelo para se aproximar da aparência do indivíduo copiado.
Duração do Efeito
O efeito da Fórmula Reflex dura aproximadamente três horas.
Após esse período, a reprogramação epigenética começa a falhar.
Para manter a aparência, é necessário ingerir uma nova dose a cada três horas, sem exceções.
Caso a dose não seja renovada:
O corpo começa a retornar à forma original
Observações Confidenciais
Uso contínuo pode causar perda de identidade corporal.
O cérebro começa a ter dificuldade em reconhecer o próprio corpo.
Em testes avançados, alguns usuários passaram a acreditar que eram a pessoa copiada.
Pego meu celular com as mãos trêmulas e começo a tirar fotos das páginas.
Então esse é o segredo para aquele impostor parecer com o Joel...
Mas quem é ele?
Peraí.
O doutor Prado o chamou de filho.
Não... não pode ser.
Será que esse cara é o Augusto?
Fico completamente chocado com a possibilidade.
Meu olhar percorre o escritório até parar em uma caixinha de óculos sobre a estante. Vou até lá rapidamente, pego-a e abro.
— Mas... esses são os óculos do Joel... — sussurro, atônito, analisando cada detalhe.
Fecho a caixinha e a guardo no bolso.
De repente, ouço a porta se abrindo.
Congelo.
É o falso Joel.
Ele entra carregando uma bandeja com comida. Meu coração dispara. Dou passos lentos para trás, com cuidado extremo para não fazer barulho.
Ele passa a mão pela estante, tateando, até tocar em algo.
Clique.
A parede ao lado se abre silenciosamente, revelando um elevador oculto.
Prendo a respiração.
O elevador se abre, e o falso Joel entra. Aproveito o instante e vou atrás dele, me encolhendo no canto, invisível. Um frio intenso percorre meu corpo, como se a qualquer momento eu fosse descoberto.
O elevador para.
As portas se abrem.
Ele sai.
Eu saio logo em seguida.
O falso Joel caminha até uma porta de ferro e a abre. No instante em que vejo o que há do outro lado, meu coração quase para.
É o Joel.
O verdadeiro Joel.
Ele está preso dentro de um laboratório, visível através de paredes e portas de vidro.
— Trouxe sua comidinha mais cedo, porque agora vou sair e não sei que horas volto — diz o falso Joel, colocando a bandeja por uma pequena abertura na porta.
— Pelo jeito, você vai farrear — responde Joel, sério, pegando a comida.
— Vou pegar umas gatinhas — diz o impostor, ajeitando o cabelo no reflexo do vidro.
Joel se aproxima do vidro, com os olhos carregados de ódio.
— Até quando você vai ficar usando o meu corpo? — grita, esmurrando o vidro com força. — Augusto, você é desprezível!
— Eu vou usar até quando eu quiser! — berra o falso Joel.
Meu estômago revira.
Augusto.
Então é você mesmo.
Dou alguns passos para trás, completamente em choque.
Mas, sem querer, piso em algo.
CRAC.
O som ecoa alto demais.
— O que foi isso? — pergunta Augusto, virando-se lentamente na minha direção.
Começo a recuar, meu coração está martelando no peito.
Augusto caminha em minha direção.
Coloco as mãos sobre a boca, tentando conter a respiração.
Ele se aproxima.
Cada passo mais perto.
Cada segundo mais sufocante.
E, naquele instante, tenho a certeza de uma coisa:
Se ele me descobrir...
Eu não saio vivo desse lugar.
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