Fiquei com o Diego rindo do outro lado da linha depois de entender a gaveta errada, esse tipo de estagiário existe em todo escritório e a Sam vai sentir falta dele em Solares, aposto. A cidade que ela odeia e o tio de moletom já me fizeram querer o capítulo 2. Seguindo a série desde aqui :)
SEM EVIDÊNCIAS - CAPÍTULO 1 - SAMANTHA Sensível
— Pizza congelada!
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Pensamento
Fiquei com o Diego rindo do outro lado da linha depois de entender a gaveta errada, esse tipo de estagiário existe em todo escritório e a Sam vai sentir falta dele em Solares, aposto. A cidade que ela odeia e o tio de moletom já me fizeram querer o capítu
Conteúdo da publicação
— Pizza congelada!
Era tudo o que tinha na minha geladeira nessa manhã de sexta-feira.
Fazia semanas que eu não conseguia comprar comida de verdade para deixar ali e preparar quando precisasse. Minha rotina estava tão bagunçada que nem percebi a geladeira ficando vazia.
Parabéns, Sam.
Nota zero.
Tirei o pedaço de pizza que estava mais duro que o chão e comecei a procurar a lixeira, que, aparentemente, eu também não fazia ideia de onde tinha deixado.
Era nesses momentos que ficava aliviada por não ter amigos, não tenho o risco deles descobrirem a confusão que era a minha vida, começando pela bagunça no meu pequeno apartamento que ainda faltavam muitas prestações.
Meu celular começou a tocar.
Uma música melodiosa que eu adorava até duas semanas atrás.
Eu deveria ter escutado meu chefe Daniel quando ele disse que jamais se escolhe uma música favorita como toque do celular.
Agora eu odiava a música.
Odiava a mim mesma por ter escolhido.
E me odiava um pouco mais por ainda não ter trocado.
Atendi no quarto toque, ainda segurando a pizza em uma das mãos. Nem consegui olhar direito para a tela, mas já tinha quase certeza de quem era.
Diego.
O estagiário novo que meu chefe tinha arranjado.
Muito simpático.
Muito educado.
E muito devagar.
Diego fazia mais perguntas do que uma criança descobrindo que o mundo existia.
— Alô.
Bastou ouvir o “bom dia” arrastado do outro lado para saber que ele estava completamente desesperado.
— Senhorita, eu não encontrei o documento que precisamos repassar na reunião de hoje.
— Como assim você não achou? Estava na terceira gaveta do arquivo.
Silêncio.
Pelo barulho que vinha do outro lado da linha, Diego devia travar uma verdadeira batalha na sala de arquivos à procura do relatório de serviços do mês que eu havia deixado, muito organizadamente, guardado ainda ontem.
Não era uma reunião tão importante, mas o escritório onde eu trabalhava ainda não era grande nem influente o suficiente no mercado para se dar ao luxo de perder documentos.
Ser contadora exigia tanto de uma pessoa que, às vezes, eu pensava seriamente em desistir de tudo e voltar para a cidade onde nasci.
Então me lembrava do quanto odiava aquele lugar.
E concluía que preferia morrer trabalhando.
Eu tinha levado Diego até aquela sala no dia anterior e mostrado exatamente em qual gaveta o documento estava.
No dia anterior, Diego assentira a cada explicação, com aquela expressão atenta de bom funcionário que agora começava a parecer uma grande mentira.
Talvez devesse ter deixado na minha mesa, mas havia informações sigilosas ali. Apenas eu, Daniel e Diego sabíamos daqueles dados, por isso achei mais seguro guardar o relatório no arquivo ao qual somente nós três tínhamos acesso.
Daniel desconfiava de que Maria, sua secretária, estava repassando informações de clientes e fornecedores para outro escritório de contabilidade. Mas, sem provas, não podia simplesmente demiti-la.
Para ele.
Porque, se dependesse de mim, com motivo ou sem motivo, Maria já estaria no olho da rua.
Junto com Diego.
Minha cabeça começou a latejar.
A vontade de massagear as têmporas aumentava a cada segundo, mas minhas mãos estavam ocupadas, então voltei à importante missão de procurar a lixeira.
Eu nem acreditava que já começaria o dia daquele jeito.
O barulho do outro lado da linha cessou.
Então ouvi novamente a voz desanimada de Diego.
— Eu não encontrei, senhorita.
Sinceramente, até o “senhorita” saindo da boca dele estava começando a me irritar.
Revirei os olhos e finalmente encontrei a lixeira próxima ao início da escada.
Pelo menos uma notícia boa.
Aproximei-me e joguei fora a pizza.
— Diego, olha para a sala. Você está olhando?
Perguntei porque, naquele momento, eu já não tinha certeza de que ele conseguiria acompanhar nem mesmo uma instrução simples.
— Sim, senhorita.
Respirei fundo.
— É a terceira gaveta à direita.
Silêncio.
Ele parecia procurar.
— Não tem arquivo nessa parte da sala, senhorita.
Fechei os olhos.
— É à direita do arquivo, Diego. Não à direita da sala.
Uma risada abafada surgiu do outro lado.
Ele tinha entendido errado.
E agora estava rindo.
Como um imbecil.
— Senhorita, encontrei!
A resposta saiu rápida, carregada de entusiasmo.
Eu até poderia ter ficado feliz por ele.
Mas, naquele momento, minha vontade era jogá-lo na lixeira junto com a pizza.
— Tudo bem, Diego. Mas, por favor, presta mais atenção da próxima vez.
Peguei a bolsa que estava pendurada no cabideiro e segui em direção à porta.
— Eu já estou saindo.
Destranquei a fechadura.
— Daqui a pouco chego por aí.
Quando abri a porta, meu tio estava do outro lado, com a mão erguida, prestes a bater.
— Tio Heitor?
— Senhorita...
A voz de Diego ainda vinha do celular.
— Diego, preciso desligar.
Encerrei a ligação sem esperar resposta.
Meu tio estava sério.
Sério demais.
— Podemos entrar?
Apenas assenti.
Ainda estava surpresa por vê-lo ali.
Entramos, e foi então que me lembrei da bagunça em que a casa estava naquela manhã.
Ótimo.
Eu deveria ter sugerido o café ali perto.
Mas já era tarde.
Já estávamos na sala.
Indiquei o sofá para ele sentar e me sentei no outro sofá.
Meu tio olhou para baixo, aparentemente perdido, como se procurasse as palavras certas. Só então percebi que vestia um moletom amarrotado. O cabelo estava bagunçado, o rosto cansado.
Eu queria perguntar o que estava acontecendo.
Mas senti as palavras presas no fundo da garganta.
Eu já tinha vivido aquela cena antes.
— Querida...
A voz dele saiu quase como um sussurro.
Não me chama de querida.
Por favor.
Aquilo já doía.
— Aconteceu uma coisa ontem.
Meu coração afundou.
Um leve tremor começou nas minhas mãos, cruzadas sobre as pernas.
Eu não conseguia dizer uma palavra.
E, pelo olhar dele, percebi que sabia exatamente o motivo.
— A Sonia foi encontrada morta.
Aquela pequena sensação de conforto que normalmente existe antes de uma tragédia, quando ainda não sabemos que ela chegou...
Eu não tive.
No instante em que vi meu tio parado diante da minha porta, eu já sabia que alguma coisa havia acontecido.
Só não sabia com quem.
— Por que o senhor está aqui?
Eu deveria perguntar como Sonia morreu. Talvez até chorando por ela ou querendo saber como estavam seus pais.
Mas meu tio estava na minha casa, me olhando daquele jeito perdido.
Se ele tivesse apenas telefonado para me avisar, eu teria aceitado aquilo com muito mais naturalidade.
Alguma coisa na morte de Sonia o fizera vir pessoalmente.
— Eu vim buscar você.
O tom dele não deixava muito espaço para discussão. Eu poderia argumentar o quanto quisesse, mas um “não” certamente não seria aceito.
Porque aquilo nunca era apenas sobre uma pessoa morta em Solares.
No fundo, eu já sabia.
Não era difícil adivinhar.
Eu só não queria ouvir. Não queria saber. Queria continuar na mais completa ignorância.
Era isso que eu fazia desde que saí de Solares.
Mesmo assim, decidi ser teimosa.
— Por quê?
Eu também já sabia a resposta para aquela pergunta.
— Sua avó pediu.
Acertei de novo.
Baixei os olhos.
— Eu não quero voltar, tio.
Só então percebi que minha voz também havia se transformado num sussurro.
Era assim que eu me sentia perto da minha família. Como se tivesse quinze anos outra vez, cercada pelos mesmos olhares cheios de pena.
Eu me orgulhava de ser alguém que as pessoas costumavam subestimar à primeira vista por ser nova demais para uma função tão importante no escritório.
Agora, porém, tudo aquilo parecia reduzido a algumas boas linhas em um currículo — um currículo que seria descartado.
Porque era exatamente isso que aconteceria se eu voltasse para Solares.
— Eu sei querida, mas é necessário. — ele hesitou por um instante. — Sua avó está de cama e quem sabe não é nada demais e você poderá voltar para a sua vida.
Balancei a cabeça em negação.
Se não fosse nada como ele supunha, então ele nem deveria ter vindo me buscar pra início de conversa.
— Eu não quero essa vida.
Meu tio não respondeu.
Acho que nem ele desejaria aquilo para alguém, muito menos para alguém da própria família. Mas, às vezes, a gente não escolhe certas coisas.
Às vezes, a gente nasce com uma responsabilidade que, mais cedo ou mais tarde, encontra um jeito de dominar tudo.
Levantei e encarei meu tio.
— Vou fazer uma ligação e separar algumas roupas.
Ele assentiu.
Seria perda de tempo dizer que não e fazer birra. Eu era adulta agora e, infelizmente, isso significava que não podia simplesmente bater o pé e dizer “não quero”.
Eu sabia que esse dia chegaria em algum momento. Ainda assim, por egoísmo ou talvez pura ingenuidade, continuei acreditando que outra pessoa apareceria para ocupar o meu lugar quando fosse preciso.
— Obrigado, querida. Eu sinto muito.
Obrigado?
Sua expressão piorou.
Era aquele olhar amaldiçoado de compaixão que eu tanto odiava.
O olhar de alguém que sabe que a pessoa diante dele ainda vai sofrer muito mais.
Thoughts
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PermalinkFiquei com o Diego rindo do outro lado da linha depois de entender a gaveta errada, esse tipo de estagiário existe em todo escritório e a Sam vai sentir falta dele em Solares, aposto. A cidade que ela odeia e o tio de moletom já me fizeram querer o capítulo 2. Seguindo a série desde aqui :)
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PermalinkO tio Heitor na porta com a mão levantada me travou junto com a Sam. Cadáver em Solares, avó de cama, uma responsabilidade que ela nasceu com e ninguém explica: aí eu entendi que o problema de verdade da história mora naquela cidade, muito mais do que na Sonia. Adorei a Maria já plantada com o Daniel desconfiando dela logo no capítulo 1, aposto que esse fio some por um tempo e volta pra cobrar. Cê tem leitora pro capítulo 2, uai.
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