Olha, reparei que a única pessoa com nome inteiro na história é a Maria dos Santos Silva, e só na boca do delegado. O João é da Couve, o casal nem nome tem. Quem dá nome aqui é a polícia.
São Ninguém
Pensamento
Olha, reparei que a única pessoa com nome inteiro na história é a Maria dos Santos Silva, e só na boca do delegado. O João é da Couve, o casal nem nome tem. Quem dá nome aqui é a polícia.
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A tarde caía para fazer surgir a noite, quando aquele homem pequeno e corpulento andava mancando pelo seu quintal. Puxava as couves já murchas com a mão direita, e colocava no cesto segurado pela esquerda.
O quintal, um campo grande de terra com alguns espaços de grama verde. Coberto em sua maior parte pela plantação de couve-folha, de um verde escuro vivo. O homem se chamava João, ou ao menos era o que ele lembrava do seu nome e o modo como o chamavam na vizinhança: João da Couve.
Ele entrou em sua casa para guardar o que havia colhido, completamente coberto de suor, ofegante e buscando seguir a trilha usual para encontrar a lamparina. Riscou o fósforo, acendeu a lâmpada a óleo, levando para a sala. Acendeu mais uma vela e sentou-se em sua poltrona, puxando o livro pesado de capa grossa de couro preto para si. Abrindo, contemplou a página recheada de letras, que ele não conseguia ler, fora uma sílaba ou outra, mas a muito custo, porém, João já não tentava mais ler, apenas observava as figuras, sobretudo de Jesus e Maria.
Passava as páginas, sempre deslumbrado com as imagens que antecedem a chegada de Jesus adulto e menino, e da bela Virgem Maria, sempre de azul. João se perguntava se ela não teria outra roupa e se lembrava de sua mãe, com um rosto e voz distantes, lhe mostrando aquele mesmo livro e explicando as histórias, mas ele se lembrava com certeza apenas do nome de Jesus, que sua mãe dizia ser o rosto de Deus e de Maria, que ele falava ser a mãe de Deus.
Ali ele ficou, folheando até parar na imagem do menino pequeno segurando um estilingue lutando contra um gigante e o vencendo. Ele adorava aquela imagem e se perguntava como isso era possível, e a voz da sua mãe vinha na sua mente: “É coisa de Deus” e repetia para si mesmo: “É coisa de Deus…”
João ficou sentado, folheando o livro, como fazia sempre, e detido nisso, meditava sem saber, repetindo para si mesmo: “É coisa de Deus…” E se perguntava o que mais Deus podia fazer, será que poderia curar os cegos? E ele se lembrava e corria os dedos pelas páginas até onde ele sabia estar a imagem de Jesus tocando os olhos dos cegos, e ele levava os dedos ao rosto, imitando a forma como os dedos de Jesus tocavam os olhos do cego e ele dizia: “Jesus, não me deixa ficar cego… Jesus, cura os cegos…” Ele seguiu assim, até adormecer, como normalmente fazia.
O homem acordou no outro dia, foi se limpar e comer um resto de pão que havia sobre a mesa da cozinha e seguiu, por sua pequena casa, no meio de seu grande lote, a colher as couves, capinar o jardim da frente e se arrumar para a feira. Antes de sair, traçou sobre si o sinal da cruz conforme fazia a mãe desde pequeno, e seguiu, mancando com um grande fardo de couve nos braços que ele colocou sobre sua carroça, que ele logo atrelou ao burro que possuía e seguiu para a feira.
João detestava a feira, o barulho, as pessoas sempre em um turbilhão de vozes e corpos que se moviam em constante atrito e ele odiava ter de fazer parte disso, mas, sua barriga vazia falava mais alto. Seguindo pela estrada ele encontrou suas vizinhas mais próximas, Maria e sua filhinha Ana, que eram as duas únicas criaturas que ele gostava de cumprimentar quando seguia, às vezes até levava pão para comer com elas.
Logo, a passos lentos do burro, atingiu a feira e se posicionou para vender sua couve. As pessoas passavam reto por ele, em alguns momentos o encarando pelo canto dos olhos. João era pequeno, com um corpo inchado e um de seus olhos abria pela metade. Mesmo com isso, alguns compravam sua couve, que era sempre a mais barata, mesmo sendo a mais verde, apesar de algumas murchas. Ao fim da feira, ele colocava suas coisas de volta na carroça e seguia para a sua casa. Esse era o movimento da vida do velho João, ou do João da Couve, como o chamavam.
Passando pelo caminho de sempre, cruzou por ele uma carruagem branca, de rodas douradas e decorada em figuras de cavalos-marinhos. Dentro do transporte, um casal se amava ardentemente, mas, o cocheiro, em um movimento brusco, fez dar uma das rodas numa pedra, que saiu do lugar, fazendo a carruagem tombar, e o casal foi lançado para fora.
João olhou a cena, e queria seguir reto, mas a voz de sua mãe se misturou à do grito do casal, que o fez parar. O velho pulou de sua carroça e foi na direção deles. Os noivos estavam no chão, totalmente sujos, mas pareciam bem. O cocheiro é que não estava bem, com a perna embaixo da carruagem. João lhes ofereceu ajuda, que aceitaram com um certo brilho no rosto. O velho arrebentou um dos dedos levantando a carruagem e apesar do sangue, que logo limpou na roupa, ele pôs as coisas no lugar. O cocheiro, entretanto, ele não conseguiu ajudar, pois sua perna estava quebrada, e apenas o pôde enviar dentro da carruagem, mas o casal o colocou para fora, com o homem, jovem e belo, assumindo o lugar de condução, a mulher atrás, dizendo que voltaria para buscar ajuda, ainda acusando o cocheiro de ser o culpado e que aquilo não era mais que paga por seus atos.
O velho viu partirem os dois, sem olhar para trás, quando o homem jogado no chão pediu por ajuda, afirmando que eles não iriam voltar. Paralisado diante da situação, João carregou o homem em sua carroça de volta para a cidade e deixou-o em uma estalagem, com ainda 3 moedas para comprar algo pra comer.
O homem, resmungando, voltou para casa no escuro, muito fora de seu horário habitual e ficou a pensar como poderia sair dali. Lembrou-se de Jesus em algumas imagens e como parecia brilhar e desejou ter Jesus ali para que brilhasse a sua luz sobre a estrada, chegando a pedir isso. Em sua distração, a carroça topou em algo e ele foi jogado do lado para fora dela. Levantando-se com dificuldade, o velho João se irritou e olhou para o céu dizendo: “Deus, tá aí? Minha mãe sempre disse que cê era bom, mas cadê ocê?” Resmungando voltou para sua carroça e chegou em casa, muito mais tarde que o costume. Mal desatrelou seu burro, seguiu para dentro, onde tropeçou e rolou pela pequena sala, dando com a cabeça na cadeira.
João, sem forças para se levantar, cansado e irritado, puxou um pano que encontrou tateando o chão, provavelmente seu tapete, e com ele se cobriu e ali adormeceu.
Seguiram-se os dias, e o homem não mais ouviu falar do cocheiro e nem do casal, e mesmo havia muitos dias que não via Maria e sua filha. Pensava que elas haviam se mudado, mas, um dia encontrou Maria, caminhando pela estrada sozinha, mal vestida, com o rosto inchado e ficou a encarando, pensou mesmo em seguir reto, pois apesar de ver que nela havia dor, e nem mesmo respondia seu bom dia, parecia absorta em seus pensamentos. Pensou ele: “Cada um com seus problemas!” e seguiu, mas, sentiu muita pena dela e tomado pela culpa, desceu da carroça, rapidamente a alcançando, pela vagareza que a mulher andava.
“Maria…” ele começou, mas não conseguiu terminar, pois a mulher se jogou em seus braços e começou a chorar, e se debatia dizendo: “Minha filhinha…Minha pobre Aninha morreu…”
Desconsolada, ficou agarrada a João, que não sabia o que fazer. Eles bem ficaram assim uns minutos, até que ele perguntou como ela havia morrido, e em sussurros roucos, Maria disse: “Se afogou no rio…Quando tiraram o corpo dela…Já estava…” E voltou a chorar copiosamente, com seus dedos puxando a roupa de João.
“Acalma, acalma…Olha, vamos rezar por ela! Não sabe que Deus cuida das almas?!” João disse, abrindo um meio sorriso, esperando encontrar um par no rosto de Maria, que apenas o olhou e saiu, seguindo seu caminho.
O velho João foi vender suas couves, vendendo menos que o costume, por ter demorado para chegar. Na volta para casa, pensou em passar na casa de Maria, pois dessa vez havia colocado sua lamparina na carroça. Passou em uma padaria e comprou um grande pão para comer com ela e foi até sua pobre casa. João gritou por ela, e como não a achou, entrou, pensando que ela estaria nos fundos. Atravessou a casa, e parou quando um cheiro forte tomou suas narinas. Em uma esteira de palha estava o corpo de Ana, já em decomposição, com vermes e moscas ao seu redor. O homem ficou paralisado, levando a mão as narinas, com lágrimas vindo aos seus olhos, mas, quando pensou em chamar Maria mais uma vez, notou no chão uma poça de sangue e seguindo seu rastro, encontrou a mulher com uma faca enterrada até o cabo em sua barriga, com seus dedos frios ainda pressionados contra o corpo.
Rapidamente, João puxou a faca, recebendo nas roupas um jato de sangue. Assustado e confuso, ele saiu dali às pressas, coberto de sangue, não notando 2 vizinhos de Maria que espiavam pela cerca, um do lado direito e outro pelo esquerdo.
Ao chegar em casa, rapidamente entrou, deixando mesmo o burro e a carroça atrelados e a couve nela. Entrou em casa, e abrindo seu livro, manchando suas páginas de sangue, ele foi até uma imagem, que sua mãe dizia ser a mais “poderosa” e a encontrando, uma pintura de uma caverna vazia, com uma rocha no chão, pressionou a mão sobre ela e disse: “Jesus… Mãezinha dizia que ocê tinha o poder de fazer o morto voltar à vida… Eu nunca pedi isso, mas traz a Maria e Ana de volta, Deus… Traz de volta…” E as lágrimas caíam em seu rosto e ele percebeu o quanto as amava, tal qual um pai.
O velho ficou ali, ajoelhado, e quando estava quase dormindo, uma voz chamou seu nome do lado de fora de sua cerca: “Senhor João!” Ouvindo repetidas vezes esse chamado, o homem se levantou, e cambaleante saiu para se encontrar com 3 homens que estavam parados, vestidos em casas negras abotoadas e com lamparinas nas mãos: “O senhor está sendo acusado de assassinato!” Essas foram as únicas palavras que ele entendeu, antes de mãos o agarrarem e ele se debater para se libertar. Algemado, e ferido pelas pancadas que levou, ele se aquietou e seguiu na carroça dos policiais até a delegacia.
Na cadeira fria, com o rosto inchado e com as roupas sujas de sangue, João encarou o delegado, que o olhava fixamente, em um misto de raiva e confusão: “Vou perguntar novamente, senhor João…” (ele disse, com certo escárnio), “Matou Maria dos Santos Silva?” e João balançava a cabeça em negativo. O delegado cansado e irritado pelo plantão, exigiu que ele falasse algo e o velho João, ainda abatido disse: “Eu sou de Jesus, senhor Delegado… Não mato, é pecado…” Essas palavras iraram o delegado, que ateu convicto que era desde a morte da filha, bateu na mesa e exigiu que ele retirasse Deus do assunto.
João abriu os olhos que estavam voltados para baixo, de espanto olhou e disse: “Tirâ Deus? Não posso… Deus tá em tudo e eu não posso negar isso não… É pecado” O delegado se levantou e deu um soco no rosto do velho, que quase caiu da cadeira. O delegado percebeu sua ira, e o rosto do velho, ficando desfigurado e mandou que o levassem.
O homem, sujo de sangue, em um misto do seu e do de Maria, deitou na cela, e ali permaneceu. Pousou as mãos no rosto e lembrou-se da figura do cego e Jesus de seu livro. Sua língua, em seus lábios inchados, repetia: “Jesus… Jesus…” Se alguém o perguntasse o que ele realmente queria com aquilo, nem ele saberia dizer, mas prosseguiu, pois lembrava de sua mãe dizendo como o nome de Jesus era poderoso contra o mal.
O delegado foi até a cela e encontrou João falando o nome de Jesus repetidas vezes e da porta que se abria ele disse: “Jesus não existe!”. João ficou imóvel, repetindo. O delegado parou em frente a ele, um velho torto, de cabelos ralos e agora sujo de sangue. “Quando vai nos contar o que houve com Maria? Por que a matou?” Mas, João prosseguiu. O delegado, começou a se irritar e perguntou, já gritando: “Por que você continua chamando Jesus? Olha pra mim!” João parou, mirando seus olhos no homem à sua frente e disse: “Eu chamo Jesus, porque ele é Deus… Ele morreu e ressuscitou e eu tô chamando ele pra ver se ressuscita Maria também e quem sabe até a Aninha…”
O delegado lembrou de sua filha, que também se chamava Ana, lembrou que ela morreu assassinada por homem que também falava sobre Jesus, sobre ressurreição e, em fúria, puxou o pequeno velho pela gola. “Seu filho da Puta! Admite logo que matou a mulher!” João olhou para ele, com seus olhos inchados e disse: “Eu não mato ninguém, senhor Delegado… é pecado…” Os olhos do delegado se encheram de fúria e ele atirou seu punho cerrado contra o rosto de João, que rolou para o lado. “Admite!” ele gritava, e João começou a recordar uma frase que sua mãe dizia sempre: “Jesus, eu confio em vós…” Aos poucos o som foi ganhando o espaço e chegou aos ouvidos do delegado, que começava a se arrepender de sua fúria, mas, deixou de lado o arrependimento e desferiu um chute contra o corpo de João, que gemeu, mas não parou de repetir: “Jesus, eu confio…” outro chute, e em um flash ele viu o rosto de sua mãe. “Jesus, eu…” mais um chute e um grito, mas João não ouviu o delegado, mas viu Ana e Maria, e elas corriam para longe dele. “Jesus…” e o chute acertou sua cabeça, batendo seu crânio contra a parede, abrindo a lateral e fazendo verter sangue.
Thoughts
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PermalinkOlha, reparei que a única pessoa com nome inteiro na história é a Maria dos Santos Silva, e só na boca do delegado. O João é da Couve, o casal nem nome tem. Quem dá nome aqui é a polícia.
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PermalinkMinha filha, esse João vive a vida toda dentro do que a mãe deixou: o livro de capa preta, o sinal da cruz, as frases dela voltando na hora do aperto. Até na cela é a voz dela que ele escuta. Pra mim a história é sobre uma herança feita só de palavra, que ninguém entende além dele, nem a Maria quando ele fala em rezar.
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PermalinkO delegado ter perdido uma filha que também se chamava Ana muda o fim inteiro: a surra vira um homem batendo no culpado errado pelo crime de outro. Isso vai fazer muita gente voltar pro começo, pro João olhando as figuras do livro sem saber ler, e entender que ele nunca teve palavra pra se defender. Fiquei pensando nele a tarde toda.
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