— Bora descer... Tem um barzinho aqui embaixo. Bar do Bahia.
— Podrera?
— Sim. Tão podre que a comida é boa!
— Comida boa?
— Sim. Os vermes dão sabor de quase-morte com ataque cardíaco!
Pearl dá um soco no ombro de Gojo.
Ele anda ao lado dela, sorrindo. Está de camisa cavada, os braços cruzados por causa do frio. O cabelo solto cai até os ombros, a barba está por fazer. Alto, ele caminha ao lado de Pearl, que tem apenas 1,60 m.
Parece estar esperando a reação dela ao bar podreira que acabou de indicar.
— Chegamos!
O Bar do Bahia é comprido e vai até o fundo. As paredes são revestidas de cerâmica branca, enquanto, na altura das mesas, a cerâmica muda para preta.
As mesas estão ocupadas por vários roqueiros falando ao mesmo tempo. Jovens vestidos de preto, alguns com visual hard rock, outros claramente grunge.
Todo mundo fala alto.
A música do bar continua tocando por cima do burburinho.
Eles entram.
Logo na frente, há uma estufa grande cheia de salgados: risoles, coxinhas, fogazzas, quibes.
O estômago de Pearl praticamente acorda.
São quase 3h15 da madrugada.
Os dois vão até o balcão, completamente tomado por gente conversando. Gojo tenta se enfiar no meio para chamar o balconista.
Ninguém dá atenção.
É gente demais falando com o atendente ao mesmo tempo.
Pearl olha para a estufa.
Depois olha para o balcão.
A fome vence a paciência.
Ela bate a mão no balcão.
— Será que tenho que pagar um boquete pra ser atendida nessa caralha de lugar?
Na mesma hora, a música continua tocando, mas várias pessoas viram o rosto.
Silêncio por um instante.
Um homem atrás do balcão olha para Pearl.
— Ohoooo... minha jovem!
Ele olha para Gojo.
— E aí, Gojo! Quem é ela?
Gojo começa a rir alto.
Pearl tenta manter a cara séria.
Não consegue.
Começa a rir também.
— Fala, Igorlino, seu infeliz!
Gojo olha para Pearl.
— Me desce uma Coca de 600.
Igorlino já pega a garrafa.
Gojo continua:
— E um salgado.
Pearl olha para ele.
— Coxinha!
Igorlino coloca a coxinha no balcão.
Gojo pega a Coca de 600 ml e dois copos de vidro, daqueles pequenos, de boteco.
Igorlino entrega também uma bisnaga de ketchup.
Pearl pega a coxinha e dá uma mordida na pontinha.
Gojo olha para a estufa.
— Depois desce aquele frango a passarinho. Bem frito.
Pearl arregala os olhos.
Ela tinha achado que Gojo estava zoando quando falou do frango a passarinho na Augusta.
A história absurda sobre Grace Kelly e Ladrão de Casaca.
Ela olha para ele.
— Você tá falando sério?
Gojo dá de ombros.
— Que foi? Tô com fome!
Ele aponta para a própria boca.
— Frango é bom. Tem aqueles ossinhos pequenininhos... bons de quebrar na trituração dos dentes.
Pearl começa a rir.
Gojo ri junto.
Ele pega a garrafa de Coca e os copos e faz um gesto para ela acompanhar.
— Vem.
Gojo a guia até uma mesa mais ao fundo do bar.
A mesa está suja.
Ele já sabia que naquele lugar ninguém tinha muita pressa para limpar.
Igorlino, um senhor baiano, percebe a situação, pega um pano úmido e passa rapidamente sobre a mesa. Depois dá uma borrifada de álcool em gel e esfrega as cadeiras de madeira envernizada, marrom-escura e pesadas.
Gojo pega o pano.
Olha para Pearl.
Com a maior cara de deboche, dobra o pano sobre o antebraço como se fosse um garçom de restaurante fino.
Faz uma reverência exagerada.
Pearl começa a rir.
Ele puxa a cadeira para ela.
— Madame.
Pearl senta.
Gojo dá a volta e escolhe a cadeira de frente para a rua, deixando Pearl de costas para a entrada.
Ele se senta.
Pearl observa o lugar.
É uma bagunça organizada.
Gente falando alto.
Vários assuntos acontecendo ao mesmo tempo.
Discussões sobre bandas.
Guitarras.
Shows.
Bebida.
Música.
Tudo misturado.
No fundo, um jukebox eletrônico toca músicas escolhidas pelos clientes. Uma placa em cima dele diz:
PROIBIDO MÚSICAS DE ANIME. SUJEITO A PAULADAS.
Pearl quase se engasga com a coxinha.
Dá outra mordida.
Ketchup escorre pelo salgado.
Ela pega a bisnaga e coloca mais.
No alto do balcão, há um taco de beisebol.
Uma palavra está escrita nele:
DIÁLOGO.
Ao redor, fotografias variadas de bandas de rock cobrem as paredes.
Pearl olha tudo.
Gojo acompanha a reação dela.
— Podreira, né?
Pearl olha para ele.
Gojo sorri.
— Gostou?
Pearl olha para ele com aqueles olhos grandes, verde-acinzentados.
— Gostei do seu visual com jaqueta preta... Principalmente da maquiagem gótica.
Pearl lembra imediatamente do próprio rosto.
O suor.
As lágrimas.
A maquiagem toda borrada.
Ela passa a mão de leve perto dos olhos.
— Gojo... Por que você não me avisou? Estou horrível e você nem fala nada?
Gojo olha para ela, como se aquilo fosse a coisa mais absurda do mundo.
— Que isso, mulher... Você tá gata.
Pearl pega vários guardanapos do porta-guardanapos e se levanta.
— Ô... Tem Coca pra descer esse salgado aí.
Ela aponta para a escada.
— Onde é o banheiro?
— Sobe a escada de cerâmica preta. Lá em cima.
Gojo olha para ela.
— Quer ajuda?
— Não, não. Eu resolvo.
Pearl sai.
Sobe a escada.
Logo de cara, encontra o banheiro masculino.
Uma zona.
Papel espalhado pelo chão.
Marcas de mijo.
Ela nem entra.
Vira para o banheiro feminino.
É menos caótico.
Pearl vai até a pia.
Por sorte, ainda há papel.
Ela começa a limpar o rosto.
Primeiro, as manchas pretas embaixo dos olhos.
Depois o batom borrado.
Vai tirando aos poucos os restos da maquiagem que antes fazia parte daquela personagem do palco.
Uma garota sai de uma das cabines, dá descarga e olha para Pearl.
— Nossa... Você cantou bem lá na Sarajevo.
Pearl para por um instante.
A garota continua lavando as mãos.
— Gostei de Little Sophie. Você arrebenta. Vai longe.
Pearl apenas sorri.
— Obrigada.
A garota seca as mãos e sai.
Pearl fica sozinha.
Olha para o espelho.
Agora sem a maquiagem pesada.
O rosto está cansado.
Olhos vermelhos.
Cabelos bagunçados.
Mas é ela.
Pearl respira fundo.
Por alguns segundos, parece não acreditar no que aconteceu naquela noite.
Então sorri.
Um sorriso pequeno, quase tímido.
Sai do banheiro.
Desce a escada.
Quando chega ao salão, vê que a mesa já está ocupada pela comida.
O frango a passarinho chegou.
Bem dourado.
Ao lado, salada, tomates e alguns pães cortados.
O lugar continua sendo uma podrera.
Mas a comida de boteco é surpreendentemente apresentável.
Gojo vê Pearl chegando.
Olha para o prato.
Depois para ela.
— Bonitão o prato, né?
Pearl se aproxima da mesa.
Gojo aponta para a comida.
— Dá até pra colocar no Instagram.
Pearl senta e respira fundo.
Gojo olha para ela por alguns segundos.
— Uau... Você fica tão bem assim, sem maquiagem. Ah, juventude...
Pearl revira os olhos, mas dá um pequeno sorriso.
De repente, ela se lembra da guitarra.
— Gojo... E os nossos instrumentos?
— Não esquenta a moringa.
Gojo pega um pedaço de frango.
— O Lucas cuida bem deles. É o cara mais metódico com essas coisas. Ele me avisa e, pessoalmente, eu entrego sua guitarra.
Pearl parece mais tranquila.
Gojo continua:
— Acho que a Jess deve estar com o Lucas neste momento.
Ele pega outro pedaço de frango.
— Sua amiga é fera. Sempre do seu lado.
Pearl fica alguns segundos em silêncio.
Olha para a comida.
Depois olha para Gojo.
— É... Ela é mesmo.
Gojo empurra o prato um pouco mais para perto dela.
— Agora come antes que eu acabe com tudo.
Pearl pega um pedaço de frango.
— Você não faria isso.
— Não me desafia.
Ela ri.