ATO I — A DÚVIDA DO CÍNICO
No centro do palco, uma lanterna acesa em plena noite.
— Procuro um amor verdadeiro! — grita o Apaixonado.
Das sombras, surge o riso seco do Estrategista:
— Amor verdadeiro?
Diógenes procurava um homem honesto com uma lanterna.
Talvez devesses procurar teu amor da mesma forma.
— Eu o encontrei! Está diante de mim!
— Encontraste desejo.
O resto é ilusão adornada por poesia.
A lanterna treme.
Mas não se apaga.
ATO II — O SER E O MEDO
O vento sopra como voz antiga.
— Se o amor existe — diz o Apaixonado —
ele É.
E se É, não pode deixar de ser.
O Estrategista sorri:
— Parmênides diria que o ser é imutável.
Mas teus sentimentos mudam como as estações.
— O que muda é o medo, não o amor!
O amor permanece — mesmo quando negado.
— Permanecer é perigoso.
O que permanece nos prende.
E, ainda assim, nenhum dos dois parte.
ATO III — ÁTOMOS E IDEIAS
A chuva volta, intensa.
— Somos feitos de átomos — diz o Estrategista —
como ensinou Demócrito.
Choques, encontros, separações.
Nada além de matéria colidindo no vazio.
— Não! — responde o Apaixonado, quase em lágrimas.
Existe algo além da matéria.
Platão diria que amamos porque reconhecemos
no outro a ideia perfeita que nossa alma já conhecia.
— Ideias não aquecem a noite.
— Mas dão sentido ao frio!
O silêncio se parte em respiração ofegante.
ATO IV — A VIRTUDE E O EXCESSO
O palco escurece. Só dois corpos visíveis.
— O amor deve ser moderado — afirma o Estrategista.
Aristóteles ensinou o meio-termo.
O excesso leva à ruína.
— Amar pela metade é não amar!
Se é para cair, que seja inteiro!
Se é para sentir, que seja até doer!
— O descontrole destrói.
— E a ausência de entrega apodrece.
Eles estão tão próximos que o conflito vira calor.
GRAN FINALE — ENTRE O RISO E O ABISMO
A tempestade cessa.
O mundo parece suspenso.
— Talvez Diógenes risse de nós — diz o Estrategista.
Dois tolos discutindo algo invisível.
— Talvez Parmênides dissesse
que este instante é eterno.
— Talvez Demócrito explicasse
nosso beijo como choque de partículas.
— Talvez Platão sorrisse,
vendo duas almas tentando lembrar o que já foram.
— E Aristóteles aconselharia prudência…
Silêncio.
O Apaixonado toca o rosto do Estrategista.
— Mas nenhum deles está aqui.
Estamos nós.
O Estrategista fecha os olhos.
O cálculo desmorona.
A razão vacila.
— Se o amor for ilusão…
que seja a mais verdadeira de todas.
O beijo acontece.
Não como teoria.
Não como estratégia.
Não como ideia.
Mas como incêndio.
E, por um instante,
a filosofia inteira
arde. 🔥
(Lediuson oliveira)