A gente tem preguiça de reconhecer que ninguém está errado o tempo inteiro. A pessoa errada num lugar é correta noutro. Diploma não te torna coerente em lugar nenhum.
Quando o diploma se curva ao ídolo. por Julio Vicari, 2026.
Pensamento
A gente tem preguiça de reconhecer que ninguém está errado o tempo inteiro. A pessoa errada num lugar é correta noutro. Diploma não te torna coerente em lugar nenhum.
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Existe algo profundamente irônico em uma sociedade que transformou o diploma em símbolo de superioridade intelectual, mas que, diante do ídolo político certo, parece jogá-lo pela janela. São pessoas com graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, experiência internacional e discursos intermináveis sobre ciência, educação, cultura e pensamento crítico. Gente que passou anos aprendendo a questionar, analisar fontes, confrontar argumentos e desconfiar de discursos fáceis. Até que aparece o político de estimação.
A partir daí, a régua muda. O despreparo vira “autenticidade”. A contradição vira “complexidade”. O populismo vira “proximidade com o povo”. A crítica vira “ódio”. A cobrança por competência vira “elitismo”. E fatos inconvenientes passam a ser tratados como detalhes menores diante da narrativa. É aí que a coisa fica realmente patética. Porque não estamos falando de pessoas que nunca tiveram acesso à educação. Estamos falando justamente daqueles que passaram anos dizendo que educação transforma, que conhecimento liberta e que pensamento crítico é indispensável. Mas basta o político vestir a camisa ideológica correta para o pensamento crítico entrar em férias. O diploma continua na parede. A coerência, não.
Há uma explicação bastante simples para isso: política, para muita gente, deixou de ser uma busca por princípios e virou uma torcida organizada. O importante já não é saber se o líder está certo. É saber se ele é “dos nossos”. Se for dos nossos, encontramos justificativas. Se for dos outros, encontramos escândalos. Se o adversário erra, é prova de incompetência. Se o aliado erra, é contexto. Se o adversário mente, é caráter. Se o aliado mente, é estratégia. Se o adversário é populista, manipula as massas. Se o aliado é populista, “fala a linguagem do povo”. Isso não é pensamento crítico. É dupla contabilidade moral.
E talvez a parte mais cruel seja transformar o povo em argumento para justificar a mediocridade. Dizer que alguém representa o povo porque fala errado, desconhece determinados assuntos ou despreza o conhecimento não é necessariamente valorizar o povo. Pode ser exatamente o contrário: pressupor que o povo não merece mais do que isso. O cidadão comum merece competência. Merece educação. Merece informação. Merece governantes preparados. Merece ser tratado como adulto — não como massa de manobra eleitoral.
Romantizar o despreparo como se fosse virtude popular é uma forma bastante sofisticada de paternalismo. E existe ainda uma camada mais desconfortável: muitos dos que defendem esse discurso sabem perfeitamente que estão relativizando aquilo que condenariam em qualquer adversário. Não é falta de inteligência. É conveniência.
Porque reconhecer a realidade pode custar caro: o convite pode desaparecer, o financiamento pode diminuir, o contrato pode não vir, o círculo social pode se fechar e o indivíduo pode descobrir que está sozinho fora da bolha. Então acontece a rendição. A pessoa continua falando em liberdade, mas não pode discordar do próprio grupo. Continua falando em ciência, mas escolhe os fatos que confirmam sua narrativa. Continua falando em democracia, mas trata qualquer questionamento ao seu líder como ameaça. Continua falando em pensamento crítico, mas pratica obediência ideológica.
No fim, sobra uma cena quase caricatural: gente altamente escolarizada utilizando toda a sua inteligência para justificar aquilo que já decidiu acreditar. E esse talvez seja o maior fracasso da educação. Não é faltar diploma. É ter diploma e continuar incapaz de dizer: “Meu lado também pode estar errado.”
Porque o verdadeiro pensamento crítico começa justamente no dia em que deixamos de perguntar apenas “quem disse?” e começamos a perguntar: “É verdade?” E essa pergunta, por mais simples que pareça, é capaz de destruir muitas carreiras políticas, muitas reputações intelectuais e, principalmente, muitas ilusões confortáveis.
Thoughts
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PermalinkA gente tem preguiça de reconhecer que ninguém está errado o tempo inteiro. A pessoa errada num lugar é correta noutro. Diploma não te torna coerente em lugar nenhum.
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PermalinkEm que ponto a pessoa vira cúmplice mesmo de quem não quer, só porque precisa ficar?
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PermalinkO que você chama de conveniência eu vejo como certeza. A certeza de estar certo é um anestésico. O argumento melhor quase nunca chega para mudar alguém que tem certeza, e a dupla contabilidade que você descreve é exatamente como a gente vira mais certo ainda.
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PermalinkSozinho fora da bolha é a parte que mata. Ninguém aguenta.
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PermalinkVi gente no plantão deixar paciente morrer porque o médico defendia certa escola de pensamento e não aceitava questionar o protocolo. Não era incompetência, era sistema. O diploma e o grupo fecharam a pessoa e ninguém conseguiu sair.
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PermalinkCampanha, sermão, tese: medo, promessa, oferta. Mas quando o medo vira identidade, você não abandona a tese mesmo que caia. É segurança, não lógica.
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PermalinkNa pastoral a gente vê isso em escala pequena: gente que defende justiça na homilia e aceita muito pouco na prática. A contradição tá ali toda semana.
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PermalinkNas rotas antigas a mesma coisa. Nosso comerciante era mercador legítimo, o deles era pirata. Durou mil anos assim.
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PermalinkGostei muito de quando você disse que o cidadão merece ser tratado como adulto. É simples e é tudo.
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PermalinkPensa comigo um instante. No centro que eu frequento também tem isso: quem discorda do dirigente vira a pessoa difícil da mesa. Você acha que a saída é individual mesmo, ou depende do grupo abrir espaço pra discordância?
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