Pular para o conteúdo
Carregando…

QUANDO ENSINAR SE TORNA UM RISCO

Edson50
Pública 4 conversas 10 pensamentos 29 votos positivos 0 voto negativo 0 série

QUANDO ENSINAR SE TORNA UM RISCO: A VIOLÊNCIA DE ALUNOS CONTRA PROFESSORES E A CRISE DA AUTORIDADE PEDAGÓGICA

In groups

Pensamento

Pensamento

Ovid

Uma agressão que começa num pedido banal, apresentar um trabalho, me fez pensar em como quase tudo que vira caso grave começou numa rotina qualquer. Aposto que muito professor lendo isso vai reconhecer o momento em que decidiu não insistir com um aluno. I

Uma agressão que começa num pedido banal, apresentar um trabalho, me fez pensar em como quase tudo que vira caso grave começou numa rotina qualquer. Aposto que muito professor lendo isso vai reconhecer o momento em que decidiu não insistir com um aluno. Isso vai render conversa boa por aqui.

Conteúdo da publicação

QUANDO ENSINAR SE TORNA UM RISCO: A VIOLÊNCIA DE ALUNOS CONTRA PROFESSORES E A CRISE DA AUTORIDADE PEDAGÓGICA

Autor: Professor Psicopedagogo Institucional e Clínico Edson Carlos de Sousa Leal

RESUMO

A violência no ambiente escolar constitui um dos desafios mais complexos enfrentados pela educação contemporânea. Embora a violência praticada entre estudantes seja amplamente discutida, a agressão de alunos contra professores ainda demanda maior atenção acadêmica, institucional e social. Este artigo analisa a violência contra docentes praticada por estudantes, relacionando-a à crise da autoridade pedagógica, à indisciplina, às transformações nas relações sociais e familiares e à necessidade de fortalecimento das políticas de proteção aos profissionais da educação. A discussão ganha especial relevância diante de episódios recentes ocorridos no Brasil, incluindo agressões físicas contra professores em instituições de ensino. Em agosto de 2026, uma professora de 61 anos foi agredida por um aluno de 14 anos em uma escola do Paraná, após solicitar que ele apresentasse um trabalho; dias depois, em Manaus, um professor foi atacado com golpes de canivete durante uma aula de reforço. Os episódios não devem ser interpretados como acontecimentos isolados nem utilizados para generalizações sobre a juventude, mas como situações que exigem reflexão sobre segurança, convivência, autoridade, responsabilização e proteção no espaço escolar. Fundamentado em autores como Paulo Freire, Júlio Groppa Aquino, Hannah Arendt, Bernard Charlot, além de estudos sobre violência escolar, o artigo sustenta que autoridade pedagógica não se confunde com autoritarismo e que uma escola democrática não pode significar uma escola desprovida de limites. Conclui-se que enfrentar a violência contra professores exige atuação articulada entre escola, família, poder público, comunidade e demais instituições de proteção.

Palavras-chave: violência escolar; professores; alunos; autoridade pedagógica; indisciplina; segurança escolar.

1 INTRODUÇÃO

A escola historicamente foi concebida como espaço de formação, socialização, construção do conhecimento e exercício da cidadania. Entretanto, o cotidiano escolar contemporâneo revela uma realidade marcada por diferentes manifestações de violência, que atingem estudantes, professores, gestores e demais profissionais da educação.

Entre essas manifestações, a violência praticada por estudantes contra professores ocupa lugar particularmente preocupante. A agressão verbal, a ameaça, a intimidação, a humilhação, a depredação de bens, a violência física e, em situações extremas, o uso de armas constituem ocorrências que ultrapassam os limites de uma simples situação de indisciplina.

O problema ganhou renovada visibilidade no Brasil em 2026. Em agosto, uma professora de 61 anos foi agredida com socos na cabeça por um adolescente de 14 anos em um colégio do Paraná. Segundo a imprensa, a agressão teria ocorrido depois que a docente solicitou que o estudante apresentasse um trabalho. A professora sofreu ferimento na região do olho e teve os óculos quebrados.

Poucos dias depois, em Manaus, outro episódio chamou atenção: um professor foi atacado com um canivete por um adolescente de 14 anos durante uma aula de reforço. Segundo a reportagem, o docente sofreu nove golpes em diferentes partes do corpo, e o caso passou a ser investigado pela Polícia Civil. A motivação do ataque ainda estava sendo apurada.

Esses acontecimentos suscitam uma pergunta fundamental: em que momento a indisciplina escolar deixa de ser apenas um problema pedagógico e passa a representar uma ameaça à integridade física e emocional do professor?

A questão não significa defender práticas autoritárias ou a redução do espaço escolar a mecanismos de punição. Pelo contrário. Significa reconhecer que democracia, liberdade e diálogo necessitam de regras, responsabilidades e limites.

Aquino (1998) já chamava atenção para a relação entre violência, indisciplina e autoridade docente, demonstrando que o fenômeno não poderia ser explicado simplesmente pela existência de "alunos problemáticos". Para o autor, é necessário compreender a própria instituição escolar e as relações que nela se estabelecem.

Nesse sentido, discutir a violência contra professores significa discutir também a própria concepção de autoridade pedagógica, a função social da escola e os limites necessários para que o processo educativo aconteça.

2 VIOLÊNCIA ESCOLAR: UM FENÔMENO COMPLEXO

A violência escolar não constitui fenômeno exclusivamente contemporâneo. Entretanto, suas formas de manifestação e sua visibilidade social sofreram transformações importantes.

A violência pode aparecer nas relações entre estudantes, entre estudantes e professores, entre profissionais da educação e também por meio de agressões provenientes do ambiente externo à escola.

Estudo realizado por Giordani et al. (2017), envolvendo professores e estudantes de uma escola pública, identificou diferentes categorias relacionadas à violência escolar, entre elas a violência entre pares, a violência entre alunos e professores, a violência extramuros e as ações de enfrentamento.

Essa constatação é importante porque impede que o fenômeno seja reduzido exclusivamente ao comportamento individual do estudante.

A violência é influenciada por fatores sociais, culturais, institucionais, familiares e relacionais. Consequentemente, uma política de enfrentamento não pode limitar-se à punição do autor da agressão.

A UNESCO destaca que a violência e o bullying constituem problemas que exigem respostas sistêmicas, envolvendo liderança escolar, prevenção, conscientização e participação de toda a comunidade educativa.

No contexto brasileiro, a Lei nº 14.811/2024 instituiu medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares e incorporou novas disposições relacionadas ao enfrentamento de práticas violentas e do bullying.

Portanto, a escola segura não deve ser entendida apenas como aquela que reage depois da agressão. Segurança escolar também pressupõe prevenção, identificação de sinais de risco, protocolos, formação profissional e articulação com as redes de proteção.

3 QUANDO A INDISCIPLINA ULTRAPASSA OS LIMITES

Um dos grandes desafios da escola contemporânea consiste em estabelecer a diferença entre indisciplina, conflito e violência.

Nem todo comportamento indisciplinado representa violência. Questionar uma regra, discordar do professor, demonstrar resistência diante de uma atividade ou manifestar insatisfação são comportamentos que podem ser trabalhados pedagogicamente.

Entretanto, ameaça, agressão física, perseguição, intimidação e utilização de objetos para ferir alguém ultrapassam os limites de um simples conflito pedagógico.

Aquino (2016), ao revisitar o debate sobre indisciplina escolar, demonstra que o tema possui longa trajetória na pesquisa educacional brasileira e não pode ser explicado por uma única causa.

A indisciplina pode expressar problemas relacionados às relações escolares, às regras institucionais, às expectativas dos sujeitos e às transformações sociais.

Entretanto, reconhecer a complexidade do fenômeno não significa relativizar a violência.

É possível compreender as causas de determinado comportamento sem justificar a agressão.

Essa distinção é fundamental.

Compreender não significa aceitar.

Explicar não significa legitimar.

Educar não significa permitir que o professor seja transformado em alvo.

4 A CRISE DA AUTORIDADE PEDAGÓGICA

A autoridade constitui elemento essencial da relação pedagógica. Todavia, autoridade não deve ser confundida com autoritarismo.

Hannah Arendt (2011) estabelece importante discussão sobre autoridade e crise das instituições modernas. No campo educacional, sua reflexão permite pensar sobre a responsabilidade dos adultos diante das novas gerações.

A escola ocupa uma posição singular porque reúne adultos responsáveis pela transmissão de conhecimentos e crianças e adolescentes em processo de formação.

Nesse sentido, retirar do professor toda possibilidade de exercer autoridade significa também comprometer uma dimensão fundamental de sua função profissional.

Paulo Freire apresenta uma contribuição decisiva para essa discussão. Para o autor, autoridade e liberdade não precisam ser compreendidas como polos necessariamente incompatíveis.

Em Pedagogia da autonomia, Freire afirma:

"Como professor, tanto lido com minha liberdade quanto com minha autoridade em exercício, mas também diretamente com a liberdade dos educandos, que devo respeitar, e com a criação de sua autonomia bem como com os anseios de construção da autoridade dos educandos." (FREIRE, 1996, p. 95).

A passagem demonstra que a autoridade docente, na perspectiva freireana, não significa dominação.

Ao contrário, trata-se de uma autoridade comprometida com a formação da autonomia.

Freire também alerta para o risco de confundir autoridade com autoritarismo.

"Não resolvemos bem, ainda, entre nós, a tensão que a contradição autoridade-liberdade nos coloca e confundimos quase sempre autoridade com autoritarismo, licença com liberdade." (FREIRE, 1996, p. 95).

Essa reflexão permanece extremamente atual.

A escola democrática não pode ser autoritária. Mas também não pode transformar liberdade em ausência de regras.

A liberdade do estudante termina onde começa a violação da dignidade e da integridade do outro.

5 O PROFESSOR ENTRE A AUTORIDADE E A VULNERABILIDADE

O professor ocupa uma posição paradoxal.

Espera-se dele que mantenha a disciplina, organize a sala, conduza o processo pedagógico, estabeleça limites, avalie os estudantes e intervenha diante de comportamentos inadequados.

Ao mesmo tempo, muitas vezes esse mesmo profissional encontra dificuldades para exercer essas funções quando a autoridade é interpretada exclusivamente como autoritarismo.

Aquino (1998) analisa precisamente a relação entre violência e autoridade no espaço escolar, destacando que a escola contemporânea precisa compreender as transformações ocorridas nas relações entre seus sujeitos.

O problema surge quando o professor é responsabilizado pela manutenção da ordem, mas não recebe condições institucionais adequadas para fazê-lo.

Em determinadas situações, o docente pode tornar-se simultaneamente:

* responsável pela disciplina;

* responsável pela aprendizagem;

* mediador de conflitos;

* cuidador;

* orientador;

* psicólogo improvisado;

* agente de proteção;

* e, em casos extremos, alvo da própria violência que deveria ajudar a prevenir.

Essa sobreposição de responsabilidades contribui para o desgaste profissional.

Não se pode exigir que o professor resolva sozinho problemas que são sociais, familiares, institucionais e, algumas vezes, relacionados à própria rede de proteção.

6 QUANDO A AGRESSÃO FÍSICA CHEGA À SALA DE AULA

Os acontecimentos recentes de 2026 ajudam a dimensionar a gravidade do problema.

No Paraná, uma professora foi agredida por um aluno de 14 anos depois de solicitar a apresentação de um trabalho. O episódio demonstra como uma situação aparentemente pertencente à rotina pedagógica pode transformar-se rapidamente em agressão física.

Em Manaus, a situação assumiu proporções ainda mais graves. Um professor foi atacado com um canivete durante uma aula de reforço, sofrendo nove golpes. A polícia investigava a motivação do adolescente.

Não se deve, entretanto, utilizar episódios dessa natureza para construir uma imagem generalizada da juventude brasileira.

A grande maioria dos estudantes não pratica violência contra seus professores.

O que esses casos revelam é outra questão: a existência de situações em que a autoridade pedagógica e a segurança física do docente podem ser colocadas em risco dentro do próprio espaço destinado à aprendizagem.

É justamente por isso que a discussão precisa deixar de ser episódica.

Cada agressão deve produzir reflexão sobre prevenção, protocolos, acompanhamento, comunicação com as famílias e atuação das redes de proteção.

7 FAMÍLIA, ESCOLA E RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA

A escola não pode ser responsabilizada isoladamente pela formação ética dos estudantes.

A educação é uma responsabilidade compartilhada entre família, Estado e sociedade.

Isso não significa transferir para as famílias toda a responsabilidade pela violência escolar. Significa reconhecer que valores como respeito, responsabilidade, empatia, autocontrole e reconhecimento de limites não são construídos exclusivamente dentro da sala de aula.

A família constitui uma das primeiras instituições responsáveis pela socialização da criança e do adolescente.

Entretanto, a escola também possui responsabilidade fundamental.

É nela que o estudante aprende a conviver com pessoas diferentes, respeitar regras coletivas, lidar com frustrações e compreender que seus direitos coexistem com os direitos dos demais.

Nesse sentido, a autoridade pedagógica precisa ser construída institucionalmente.

O professor não deveria enfrentar sozinho um aluno que ameaça, agride ou intimida.

A resposta precisa ser institucional.

8 A VIOLÊNCIA CONTRA O PROFESSOR E A SAÚDE DA ESCOLA

A violência contra professores produz consequências que ultrapassam o momento da agressão.

Mesmo quando não ocorre lesão física grave, ameaças e humilhações podem produzir insegurança, medo e desgaste profissional.

A literatura sobre violência escolar aponta que o fenômeno interfere no funcionamento da escola e nas relações estabelecidas entre seus diferentes sujeitos. Plassa e colaboradores, utilizando dados do SAEB de 2017, investigaram fatores associados à violência contra professores e também seus impactos sobre aspectos relacionados ao trabalho pedagógico.

A violência, portanto, não atinge somente a vítima.

Ela afeta a sala de aula.

Afeta os demais professores.

Afeta os estudantes que testemunham os episódios.

Afeta as famílias.

Afeta a gestão.

E afeta a própria qualidade do ambiente educativo.

Uma escola na qual professores trabalham permanentemente com medo dificilmente consegue desenvolver plenamente uma cultura de aprendizagem, diálogo e participação.

9 AUTORIDADE NÃO É AUTORITARISMO

Um dos equívocos mais perigosos do debate contemporâneo consiste em colocar autoridade e autoritarismo como se fossem sinônimos.

Não são.

Autoritarismo pressupõe imposição arbitrária, abuso de poder e supressão da participação.

Autoridade pedagógica, por outro lado, está relacionada à responsabilidade do professor de conduzir o processo educativo.

Freire (1996) defende justamente a possibilidade de conciliar autoridade e liberdade.

"O exercício da autoridade do professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, estabelecendo tarefas, cobrando a produção individual e coletiva do grupo não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever." (FREIRE, 1996).

Essa passagem é particularmente importante para o debate atual.

O professor precisa ter liberdade para ensinar.

O estudante precisa ter liberdade para aprender, questionar e participar.

Mas ambos precisam estar submetidos a princípios éticos de convivência.

A autoridade democrática não elimina limites.

Ela dá sentido aos limites.

10 O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

A violência contra professores também precisa ser compreendida como questão de política pública.

A Lei nº 14.811/2024 representa uma importante referência jurídica ao estabelecer medidas de proteção contra a violência nos estabelecimentos educacionais.

Entretanto, legislação, isoladamente, não resolve o problema.

É necessário transformar normas em práticas.

Isso significa desenvolver:

a) protocolos de prevenção e resposta a situações de violência;

b) formação continuada para professores e gestores;

c) canais seguros de denúncia;

d) acompanhamento psicológico e institucional das vítimas;

e) articulação entre escola, família, Conselho Tutelar e demais órgãos da rede de proteção;

f) ações permanentes de prevenção ao bullying;

g) políticas de mediação e resolução de conflitos;

h) mecanismos de proteção para profissionais ameaçados;

i) acompanhamento dos estudantes envolvidos em episódios de violência;

j) avaliação periódica das condições de segurança das escolas.

A UNESCO também destaca a necessidade de estratégias abrangentes de prevenção e enfrentamento da violência escolar, reforçando que a construção de ambientes seguros exige compromisso institucional e coletivo.

11 ENTRE PUNIÇÃO E EDUCAÇÃO: O DESAFIO DA RESPONSABILIZAÇÃO

Uma discussão particularmente delicada diz respeito à responsabilização do estudante que agride um professor.

A resposta educativa não deve ser confundida com impunidade.

Ao mesmo tempo, responsabilização não deve significar abandono da função educativa.

Quando um adolescente pratica um ato violento, é necessário considerar sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, conforme estabelece o ordenamento jurídico brasileiro.

Isso, contudo, não significa ausência de consequências.

A escola precisa estabelecer limites claros e procedimentos coerentes.

O estudante deve compreender que liberdade envolve responsabilidade.

Freire (1996) associa autonomia à responsabilidade ética. A formação para a liberdade não consiste em fazer tudo aquilo que se deseja, mas em compreender as consequências dos próprios atos e respeitar a dignidade dos outros.

A violência não pode ser transformada em estratégia de negociação.

Caso contrário, a escola corre o risco de transmitir uma mensagem pedagógica contraditória: ensinar respeito enquanto tolera o desrespeito.

12 A ESCOLA PRECISA PROTEGER QUEM ENSINA

Durante muito tempo, a discussão sobre violência escolar concentrou-se prioritariamente na proteção dos estudantes.

Essa proteção é indispensável.

Crianças e adolescentes precisam estar protegidos contra violência, bullying, abuso, discriminação e diferentes formas de violação de direitos.

Entretanto, proteger estudantes não significa desproteger professores.

O professor também é sujeito de direitos.

A escola precisa ser um espaço seguro para todos.

Quando um professor é agredido, a resposta institucional deve considerar sua condição de trabalhador, cidadão e ser humano.

Não é razoável esperar que alguém continue ensinando normalmente depois de sofrer uma agressão sem receber acolhimento, acompanhamento e proteção.

A valorização docente passa também pela garantia de condições mínimas de segurança.

13 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A violência de alunos contra professores constitui um fenômeno complexo que não pode ser explicado por uma única causa.

Não é suficiente atribuir o problema à família.

Não é suficiente responsabilizar a escola.

Não é suficiente culpar os estudantes.

Tampouco é suficiente criar novas regras.

O fenômeno exige uma abordagem multidimensional.

Os episódios recentes registrados no Paraná e em Manaus demonstram que agressões contra docentes podem assumir formas extremamente graves e ocorrer em situações relacionadas à rotina escolar.

Entretanto, esses acontecimentos não autorizam generalizações sobre os estudantes brasileiros. Eles indicam, isto sim, a necessidade de discutir as condições concretas em que professores e alunos convivem.

A crise da autoridade pedagógica não deve ser entendida simplesmente como perda de poder do professor.

Ela precisa ser analisada como uma transformação das relações de autoridade, responsabilidade e convivência no interior da escola.

Paulo Freire demonstra que autoridade e liberdade não são necessariamente incompatíveis. A autoridade democrática pode coexistir com o respeito à autonomia do estudante.

O problema aparece quando a liberdade é confundida com ausência de limites ou quando a autoridade é confundida com autoritarismo.

Uma escola democrática precisa ensinar liberdade, mas também precisa ensinar responsabilidade.

Precisa ensinar direitos, mas também deveres.

Precisa ouvir o estudante, mas também precisa proteger o professor.

Precisa acolher, mas também estabelecer limites.

Precisa compreender as causas da violência, sem transformar sua compreensão em justificativa para a agressão.

Por fim, ensinar não pode significar colocar a própria integridade em risco.

A escola deve continuar sendo lugar de diálogo, conhecimento, formação humana e cidadania. Mas, para que isso aconteça, é necessário reconhecer uma premissa elementar: não existe educação de qualidade quando aquele que ensina precisa entrar em sala de aula com medo de ser agredido.

Proteger o professor não significa retirar direitos dos estudantes.

Significa assegurar que todos, estudantes, professores, gestores e funcionários, possam exercer seus direitos dentro de uma cultura de respeito, responsabilidade e convivência democrática.

REFERÊNCIAS

AQUINO, Júlio Groppa. A indisciplina e a escola atual. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 24, n. 2, p. 181-204, 1998. Disponível em: [https://doi.org/10.1590/S0102-25551998000200011](https://doi.org/10.1590/S0102-25551998000200011). Acesso em: 16 set. 2026.

AQUINO, Júlio Groppa. A violência escolar e a crise da autoridade docente. Cadernos CEDES, Campinas, v. 19, n. 47, p. 7-19, 1998. Disponível em: [https://doi.org/10.1590/S0101-32621998000400002](https://doi.org/10.1590/S0101-32621998000400002). Acesso em: 16 set. 2026.

AQUINO, Júlio Groppa. Indisciplina escolar: um itinerário de um tema/problema de pesquisa. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 46, n. 161, p. 664-692, 2016. Disponível em: [https://doi.org/10.1590/198053143670](https://doi.org/10.1590/198053143670). Acesso em: 16 set. 2026.

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.

BRASIL. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Institui medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GIORDANI, Jaqueline Portella et al. Violência escolar: percepções de alunos e professores de uma escola pública. Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, 2017. Disponível em: SciELO. Acesso em: 16 set. 2026.

PLASSA, Wander et al. Violência contra professores nas escolas brasileiras: fatores associados e impactos. Nova Economia, Belo Horizonte, 2021. Disponível em: SciELO. Acesso em: 16 set. 2026.

PITANO, Sandro de Castro; GHIGGI, Gomercindo. Autoridade e liberdade na práxis educativa: Paulo Freire e o conceito de autonomia. Saberes: Interdisciplinary Journal of Philosophy and Education, v. 2, n. 3, 2010.

UNESCO. Violência escolar e bullying: relatório sobre a situação. Paris: UNESCO, 2019. Disponível em: UNESCO Digital Library. Acesso em: 16 set. 2026.

Thoughts

  • emailSemLer

    A Lei 14.811 é de Janeiro de 2024. A lista de dez alíneas no fim do artigo descreve exactamente o que continua por escrever na maior parte das escolas, dois anos depois.

    Permalink
  • duasVerdades

    O ponto que se sustenta é a separação entre indisciplina e violência, que quase nunca se faz na prática. O que fica em aberto é o passo seguinte: dizer que a resposta precisa ser institucional não diz quem afasta o aluno, quem chama a família e quem responde pelo professor enquanto o caso corre.

    Permalink
  • dividendoMagro

    Dois casos de agosto de 2026 e dados do SAEB de 2017. Quantos professores agredidos por ano, em valor absoluto?

    Permalink
  • largoECalcada

    A lista das funções que o professor acumula, até à de psicólogo improvisado, é a parte que me fica. Vejo o mesmo empilhar de papéis no serviço onde trabalho.

    Permalink
  • Ovid

    Uma agressão que começa num pedido banal, apresentar um trabalho, me fez pensar em como quase tudo que vira caso grave começou numa rotina qualquer. Aposto que muito professor lendo isso vai reconhecer o momento em que decidiu não insistir com um aluno. Isso vai render conversa boa por aqui.

    Permalink
  • cita_a_fonte

    A referência a Arendt vale a pena precisar. O ensaio dela sobre a crise da educação é de 1954, e a tese é mais incómoda do que costuma aparecer nas citações: a autoridade já se tinha desfeito no mundo adulto, e a escola herdou o problema. Lida assim, deixa de servir como argumento sobre os alunos de hoje.

    Permalink

Related posts